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27.10.09

Beijos-de-mulata


(Para a ZEZA)


Os beijos-de-mulata
não têm perfume
Apenas
a limpidez do seu desejo
branco

Ou
uma concêntrica fúria
acesa de tacula-roxo-carmesim
além de ser
a melhor droga contra o câncer.

Pra que perfume...?
Onde elas crescem
morrem as outras plantas...


Arnaldo Santos (poeta angolano)

14.9.09

Dois poemas das redes



I


Do polegar que faz o passo
Do rumo imóvel
As redes crescem

Também de mim e dos meus rumos
as redes entrelaço.

E as malhas
nascem dos nossos dedos
Prisões de frutos
Que o mar nos nega.


II


A lavra do mar era grande
Mas as malhas
Não tinham a largura dos seus grãos

Colhiam corpos
que vinham à tona de um sonho hebo.

Quando as mabangas
prenderam os pés das redes na lama do mar
então
As redes d’água sentiram
a espessura dos seus cabelos crespos.

Arnaldo Santos (poeta angolano)

16.8.09

Retrato de mulher nua, com soldados



Nua
Tinha tatuado na púbis
um caminho que desprezaram

O próprio rosto desnudaram
E os seus sonhos de virgem
Jogaram-nos manchados nos panos
que rasgaram

Quieto
O seu olhar era longínquo
como a entrega que buscaram,

No seu ventre
não havia um frémito
e os seios
pendiam infecundos.

Arnaldo Santos (poeta angolano)

9.7.09

No rosto da criança

(No massacre de Kamabatela)


No céu convém
a nuvem
E na terra
o sêmen da lança
No rosto da criança convém
o riso
E não o gume da catana
inciso

Arnaldo Santos (poeta angolano)
(1986)

20.6.09



Nasci
com os meus lubambos*
no pescoço
Ninguém me contou
ainda os sinto.

São eles
que me fazem sofrer
os sofrimentos da erva tenra

sob as botas

velar a insônia das sementes
e cantar as lavras em bandeira

São eles
que me juntam
a quem se aquece na fogueira
e me arrastam
na mesma esteira do povo.

Nasci
com os meus lubambos
no pescoço
Não ando só
e sou sempre novo.



*LUBAMBU – grilhão, correntes.


Arnaldo Santos (poeta angolano)

11.5.09

Contratados




Vinham ao longe
aglutinados
baforada de sussurros no horizonte
ressonâncias fundas de uma força
determinados

Uma força que é pendor de gemidos
de levas passadas
que arrastaram pobres

Vinham ao longe
em conversas vagas
na tarde baixa resumando dobres


Arnaldo Santos (poeta angolano)

7.4.09

Soturnidades suspensas palpitavam no escuro



Soturnidades suspensas palpitavam no escuro
como pulsações sombrias de ngomas

Havia ecos de falas abafadas
Longínquos sons que o vento move
Cavando distâncias na distância
Fatais
como a queda livre de uma pedra.

E esfiavam-se vidas em murmúrios...

E havia olhos postos no caminho...

E eu sentia
que a marca dos meus passos
Calava vozes nas cubatas
Acordava silêncios no negrume.


Arnaldo Santos (poeta angolano)

7.3.09

Regresso


Bandeiras sem cores
Tremulam ao vento...

Passa o camião
Onde vozes cantam.
São homens que voltam.

E o sonoro canto
vai longe... longe
as cubatas sós
onde mães esperam.

Baldeiras desejos
Tremulam ao vento

E as vozes deixam
na esteira dura
com o pó da estrada
cantos de renúncia.

E tremulando sempre
Bandeiras sem cores
Agitam desejos.

Nas sanzalas
Nascem vagidos novos!


Arnaldo Santos (poeta angolano)

21.2.09

Amanhecer na Katumbela



Kukiou o dia
no canto de um passarinho do muxitu
Ouvi
e sem depressa
como quem sonha inda

vi
no Katumbela rio-sacarino
minha mangonha
canoa nas águas lentas
A sensação
de nenhum tempo
Estar

E olhei a planície o vale
lugar onde o canavial é dono
é posse
o seu silêncio
coisas homens
numa canção de abandono

E não ouvi demais
que o canto da madrugada
tinha a voz do murmúrio de kaxexe

Apenas e
lentamente
renascia em mim um novo sono

Então com de repente
despertei


Arnaldo Santos (poeta angolano)

9.3.08


Poema de esperança


... Os pássaros voarão
E o mundo encher-se-á de suas penas

Calados nos ouviremos segredando
Fazendo do horizonte uma linha longa,

Tu tremerás receosa do infinito
Mas eu estarei junto de ti...

E será doce ou triste aquele poente...?

Porém tu me dirás sorrindo:

— Que importa? São tuas as linhas desta mão...


Arnaldo Santos (poeta angolano)


21.2.08

Lavadeira

Banco raso
Celha cheia

Mãos pretas em roupa branca


Silenciosa a lavadeira

Pende a frente num trama longo.

Carrega um mundo o fumo denso

Da boca muda baforado.


Ao lado

As moscas enxameiam a boquita entreaberta

Do seu filho adormecido



Arnaldo Santos (poeta angolano)

10.2.08


Monangambas


Ronca-os o camião
no jingololo da rua
Eles vão negros
e levam o sol no peito

Monanbambééé...! Monangambééé...!

Passam esquinas de cimento
passam largas avenidas
E ferem-se berros e silvos
Golpeia neles o vento

Monangambééé...! Monangambééé...!

Levam nos rostos firmeza
jimbamba de sonho e terra
Vão de frente para os gritos
Vão-lhes sentindo a dureza

Monangambééé...! Monangambééé...!

Deixam rastos nas estradas
(já é horizonte o seu manto)
pistas reencontradas
e punhos cerrados de espanto

Monangambééé...! Monangambééé...!

Passam os que servem a vida
com a força do seu suor
Ficam nas ruas os desígnios
que dos seus passos nasceram

Monangambééé...! Monangambééé...!


Arnaldo Santos (poeta angolano)