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5.1.10

A Pomba para o Cheina



Pontos de vista
entrecruzam as balas
e nós ensaiamos a pomba
desenhando-a encurvando-lhe
o dorso antes do voo
largando-a no prisma puro
dos olhares da multidão
Logo uma estrela fugaz
se lhe cola ao bico
Rodopiará no céu entre colunas
colossais de cogumelos
e sóis que a inflectem
mas bem aninhada no oco
habitáculo de penas
com a chave em nossa mão.

Sebastião Alba
Moçambique

5.7.08


A Pomba para o Cheina


Pontos de vista
entrecruzam as balas
e nós ensaiamos a pomba
desenhando-a encurvando-lhe
o dorso antes do voo
largando-a no prisma puro
dos olhares da multidão
Logo uma estrela fugaz
se lhe cola ao bico
Rodopiará no céu entre colunas
colossais de cogumelos
e sóis que a inflectem
mas bem aninhada no oco
habitáculo de penas
com a chave em nossa mão.

Sebastião Alba



28.6.08


Dum grande poeta


Dum grande poeta deu-se o nome
a uma rua suburbana

nem tanto quis em vida

das «solidões lacustres»
que seu facho ainda alumia
dos nítidos e urbanos
dias ermos
escreveu e morreu

um dia
trocou o amor já anunciado das mulheres
e o tráfico das emoções nos espectáculos
pela paz indissolúvel

os demais resistiram
estão em bronze nas sessões camarárias
nos jardins de infância
nos largos das cidades marítimas

a ele deu-se uma rua suburbana

sua lisa fronte maldita
não se cobre da pátina das inscrições no mármore

de regresso a casa
com a lua mortiça ponderável nas nucas
fulge limpidamente
nas memórias mais graves
dos melhores de nós.


Sebastião Alba

5.6.08


O navegador


Plena, a cidade
navega o dia. Ao lado,
o mar em que verte.
Passa lentamente,
à sombra, imposta,
do seu meridiano.
Só um vidro faísca:
há séculos emite
sinais indecifráveis.


Sebastião Alba

29.4.08


Um anjo erra (o amor confuso)


Um anjo erra
nos teus olhos diurnos

humedecido do véu
(ao fundo, a íris entardece)
seguiu de cor a revoada das pombas

místico
um arroubo ascende a prumo
do plano em que me fitas

cisnes desaguam
do teu olhar em fio
e vogam ao redor, pelo estuário da sala

ao sol-poente
os vitrais das janelas
ardem na catedral assim erguida

colocamos um sonho
em cada nicho

e no círculo formado pelas nossas bocas
subentende-se com verve
a língua.

Sebastião Alba


Não sei que luzes


Não sei que luzes a bordo
escurecem de sentido a noite larga
e em mim perfilam solenes
as sensações na sombra

flébeis costas
devolvem o mar disperso
e nos flancos do casco
um monótono som singra

só minhas ânsias embaladas
fremem
a cada indefinido promontório
se resignam hirtas
na amurada
ou, se volve um farol,
são nucleares e brancas

mas amanhece
vagam flocos de círios
um sol de adolescência e de novela
descobre a amante insulada

e um sino toca para o pequeno almoço.


Sebastião Alba


24.4.08


Anoitecer


Casas vigiam em uniformes de cal.
Nem as aves clinicam:
o vento encrespando as gralhas
contra o céu que se exila,
além da obscuridade, das janelas que se seguem
nas paredes imóveis;
um tempo só de ida, com o seu curso
erosivo em nosso leito,
e essa atilada luz eléctrica,
explicam a tua vida,
meu amor. E escrevo.
Não buscando ainda acasalar
nossos gestos migratórios,
mas como, em uma noite rural,
o sexo a expende.


Sebastião Alba


22.4.08


Epílogo


Fui
hóspede nesta mansão
na encruzilhada
dos meus sentidos.

O verso apenas é,
transversal e findo,
o poleiro evocativo
da ave do meu canto.

Essa ave em que o outono
Se perfila
e, cada vez mais exígua
no rumo e nas vigílias
do seu bando,
de súbito, espirala
até sumir-se
num país imaginário.


Sebastião Alba


14.4.08


Gosto dos amigos


Gosto dos amigos
Que modelam a vida
Sem interferir muito;
Os que apenas circulam
No hálito da fala
E apõem, de leve,
Um desenho às coisas.
Mas, porque há espaços desiguais
Entre quem são
E quem eles me parecem,
O meu agrado inclina-se
Para o mais reconciliado,
Ao acordar,
Com a sua última fraqueza;
O que menos se preside à vida
E, à nossa, preside
Deixando que o consuma
O núcleo incandescente
Dum silêncio votivo
De que um fumo de incenso
Nos liberta


Sebastião Alba

19.3.08


Quando nascemos entramos

Quando nascemos entramos

no nome pela voz dos pais:
- Dinis Albano...
Íntima e sonora identidade.
Chamam-me e volto
a cabeça, dissuadido.
Na voz de uma mulher
os nomes são
interiores a nós.
(Na dum polícia, desprendem-se,
como se apenas
os envergássemos.)
Um amigo dirige-se-nos,
e as letras do nome
- tu?!... - correm de doçura.
Um dia, o nome,
por capricho duma veia ou dum fonema,
ocultamente, esvai-nos.
E por detrás dele,
alheados dos cultos,
nem sabemos da sua
cessação.

Sebastião Alba

14.3.08


Não sou anterior à escolha


Não sou anterior à escolha
ou nexo do ofício
Nada em mim começou por um acorde

Escrevo com saliva
e a fuligem da noite
no meio de mobília
inarredável

atento à efusão
da névoa na sala.


Sebastião Alba


8.3.08


Os poetas


Com as polidas cintilações
das ondas eles enredam o mar
e aspam de brancura o voo das gaivotas

Sua íntima atitude
é a das estátuas por fora
Como elas amam sem noções que lhe doam

O céu foi o seu fundo das pupilas
horto da Estrela da Manhã
Mas volvidos são das paisagens rumorosas
onde nem o corpo do vento se suprime.


Sebastião Alba


7.3.08


Ninguém meu amor


Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos


Sebastião Alba

27.2.08

Trecho da Praia


Como por um ralo atrás da pupila,
vêem-se agir:
nada divide o caranguejo, dividindo
os lodos em seu sulco,
e também suas pinças se amotinam
à passagem, com sombra,
duma ave marinha...

E antes da chegada ascendente do mar,
ou que alguém module a voz
pela que da nuvem soou
no paraíso, amam-se na areia.
Enquanto do largo
o halo dum navio nocturno
se expande e irisa em seu redor.


Sebastião Alba


10.2.08

Estar comigo


Estar comigo
é o meu nativo
modo de estar

Desertam as sombras
Entre os objectos
e o chão límpido
sua ausência é
a ficção do dia.


Sebastião Alba



À Memória de Cecília Meireles


Um visco
demorou o sabiá
contíguo aos seus ouvidos
(que a permeara, a esposara).

Era quem acendia
os vagalumes, firmava
o céu nas águas do Brasil.

No alto dos lugares
em que escreveu,
as estrelas mudam-se.

Que fazer com perfumes
cancelados, de animais
sem o seu «eco»?

Formas apagadas tombam nas areias.


Sebastião Alba


1.2.08


Génese


Foi assim
Todo o mar que eu via
se precipitou logo no meu coração
Que é de sal

E os peixes cristalizaram
com os olhos mortos
para as suas manhãs refractadas

Escutando bem
ouve-se como ao pé das estátuas
música de uma fanada melancolia.


Sebastião Alba


Sebastião Alba é o pseudónimo de Dinis Albano Carneiro Gonçalves nascido em Braga em 1940. Radicou-se, juntamente com a sua família, em 1950, em terras moçambicanas e só voltou a Portugal em 1984. Mas foi em Moçambique que se formou em jornalismo, e leccionou em várias escolas, e contraiu matrimónio com uma nativa. Foi um ilustre escritor nacionalizado moçambicano. Pertenceu à jovem vaga de autores moçambicanos que vingaram na literatura lusófona.