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1.5.11

Primeiro amor



Ó Mãe... de minha mãe!
Explica-me o segredo
Que eu mesmo a Deus sem medo
Não ia confessar:
Aquele seu olhar
Persegue-me, e receio,
Pressinto no meu seio
Ergue-se-me outro altar!

Eu em o vendo aspiro
Um ar mais puro, e tremo...
Não sei que abismo temo
Ou que inefável bem...
Oh! e como eu suspiro
Em êxtase o seu nome!...
Que enigma me consome,
Ó Mãe de minha mãe!


João de Deus

6.7.10

O galo e a pérola

Cock a Doodle Do Art Print

Um galo viu, perdida,
Uma pérola polida
Que abandonou aos pardais...
«Admiro – disse – o seu brilho,
Mas se fosse um grão de milho
Para mim valia mais!»

Também um pobre ignorante
Que herdara um livro importante
O foi vender ao livreiro,
dizendo com os seus botões:
«Mais me valem dez tostões
Que ao menos sempre é dinheiro!»

João de Deus

6.5.08


Simpatia


Olhas-me tu
Constantemente:
Daí concluo
Que essa alma sente;
Que ama; não zomba
Como é vulgar;
Que é uma pomba
Que busca o par!

Pois ouve: eu gemo
De te não ver!
E em vendo, tremo,
Mas de prazer!
Foge-me a vista...
Falta-me o ar...
Vê quanto dista

Daqui a amar!


João de Deus

31.3.08


Melancolia


Oh doce luz, oh lua!
Que luz suave a tua,
E como se insinua
Em alma que flutua
De engano em desengano!
Oh criação sublime!
A tua luz reprime
As tentações do crime,
E à dor que nos oprime
Abres-lhe um oceano!

É esse céu um lago,
E tu, reflexo vago
De um sol, como o que eu trago
No seio onde o afago,
No seio onde o aperto?
Oh luz órfã do dia!
Que mística harmonia
Há nessa luz tão fria,
E a sombra que me guia
Neste areal deserto?

Embora as nuvens trajem
De dia outra roupagem,
O sol, de que és imagem,
Não tem essa linguagem
Que encanta, que namora!
Fita-te a gente, estuda,
Sem medo que se iluda,
Essa linguagem muda...
O teu olhar ajuda...
E a gente sente e chora!

Ah! sempre que descrevas
A orbita que levas,
Confia-me o que escrevas
De quanto vês nas trevas,
Que a luz do sol encobre...
As vítimas, que escutas,
De traças mais astutas
Que as dessas feras brutas...
E as lástimas, as lutas
Da órfã e do pobre!


João de Deus

13.3.08

Casuística


Um padre de largo peito
Exclamava em voz profunda:
«Sim, caríssimos irmãos!
Deixai lá queixumes vãos;
Quanto Deus faz é bem feito!»

Vai-se dali um corcunda:
– Salvo o devido respeito,
Já nem marreca é defeito!
Sou eu são e escorreito? –
Ele, ao vê-lo, com efeito,

Sem poder olhar direito,
De pescoço contrafeito,
Ombros largos, peito estreito,
Roçando os pés com as mãos:
«E que duvida, cristãos!
Que é um corcunda... perfeito?!»


João de Deus


7.3.08


A estrela do Egipto


Quem te manda, linda estrela,
Quem te colheu do jardim?
É segredo? Não foi ela...
A mais formosa donzela,
Que te colheu para mim?

Oh! se outra mão te arrancara
Perderas aroma e cor;
Nem a estrela conservara
Sua graça extrema e rara,
Seu perfume e seu frescor.


João de Deus


25.2.08

Estrela


Estrela que me nasceste
quando a vista mal te alcança
nessa abóbada celeste,
onde a nossa alma descansa
a sua última esperança...
Estrela que me nasceste
quando a vista mal te alcança!

Antes nascesses mais cedo,
estrela da madrugada,
e não já noite cerrada...
Que até no céu mete medo
ver essa estrela isolada...
Antes nascesses mais cedo.
estrela da madrugada!


João de Deus



Dia de anos
A Zeferino Brandão


Com que caiu na asneira
De fazer na quinta feira
Vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse...
Mas fazei-os não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado...
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo? Coitado!

Não faça tal; porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho
Faça outra coisa; que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los Queira ou não queira!


João de Deus


20.2.08

A Vida


A vida
A vida é o dia de hoje,

A vida é ai que mal soa,

A vida é sombra que foge,

A vida é nuvem que voa;

A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve

E como o fumo se esvai

A vida dura um momento,

Mais leve que o pensamento,

A vida leva-a o vento,

A vida é folha que cai!


A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,

A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave


Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou,

A vida - pena caída

Da asa da ave ferida

De vale em vale impelida

A vida o vento levou!

João de Deus

17.2.08


Avarento



Puxando um avarento de um pataco
Para pagar a tampa de um buraco
Que tinha já nas abas do casaco,
Levanta os olhos, vê o céu opaco,
Revira-os fulo e dá com um macaco
Defronte, numa loja de tabaco...
Que lhe fazia muito mal ao caco!
Diz ele então
Na força da paixão:
– Há casaco melhor que aquela pele?
Trocava o meu casaco por aquele...
E até a mim... por ele. –

Tinha razão,
Quanto a mim.
Quem não tem coração,
Quem não tem alma de satisfazer
As niquices da civilização,
Homem não deve ser;
Seja saguim,
Que escusa tanga, escusa langotim:
Vá para os matos,
Já não sofre tratos
A calçar botas, a comprar sapatos;
Viva nas tocas como os nossos ratos,
E coma cocos, que são mais baratos!


João de Deus


15.2.08


Perdão



Seria o beijo
Que te pedi,
Dize, a razão
(Outra não vejo)
Porque perdi
Tanta afeição?
Fiz mal, confesso;
Mas esse excesso,
Se o cometi,
Foi por paixão,
Sim, por amor
De quem?... de ti!

Tu pensas, flor,
Que a mulher basta
Que seja casta,
Unicamente?
Não basta tal:
Cumpre ser boa,
Ser indulgente.
Fiz-te algum mal?
Pois bem: perdoa!

É tão suave
Ao coração
Mesmo o perdão
De ofensa grave!
Se o alcançasse,
Se o conseguisse,
Quisera então
Beijar-te a mão,
Beijar-te a face...
Beijar? que disse!
(Que indiscrição...)
Perdão! perdão!


João de Deus


12.2.08

Declaração



ELE:
– Mais me eleva esse teu graciosíssimo andar,
Que uma nuvem no céu, que uma onda no mar!
E em que estrela do céu me há-de nunca raiar
A benéfica luz desse cândido olhar?!
Oh! se a morte uma vez essa luz me apagar,
Noite eterna, sem fim há-de a alma enublar!

ELA:
Ora o sr. Anastácio! tantas vezes lhe tenho dito que não aprendi francês!
Eu, se o senhor quer casar comigo, porque me não pede à minha mãe?

João de Deus

10.2.08


Noite de amores



Mimosa noite de amores,
Mimoso leito de flores,
Mimosos, lânguidos ais!
Vergôntea débil ainda,
Tremia! Lua tão linda,
Lembra-me ainda... Jamais!

Aquela dália mimosa,
Aquele botão de rosa
Dos lábios dela... Senhor!
Murchavam; mas, como a lua,
Passava a nuvem: «Sou tua!»
Reverdeciam de amor!

E aquela estátua de neve
Como é que o fogo conteve
Que não a vi descoalhar?
Ondas de fogo, uma a uma,
Naquele peito de espuma
Eram as ondas do mar!

Como os seus olhos me olhavam,
Como nos meus se apagavam,
E se acendiam depois!
Como é que ali confundidas
Se não trocaram as vidas
E os corações de nós dois!

Mimosa noite de amores,
Mimoso leito de flores,
Mimosos, lânguidos ais!
Vergôntea débil ainda,
Tremia! Lua tão linda,
Lembra-me ainda... Jamais!


João de Deus


Pois não!



O dinheiro é tão bonito,
Tão bonito, o maganão!
Tem tanta graça, o maldito,
Tem tanto chiste, o ladrão!
A falar, fala de um modo...
Todo ele, aquele todo...
E elas acham-no tão guapo!
Velhinha ou moça que o veja,
Por mais esquiva que seja,
Tlim!
Papo.

E a cegueira da justiça
Como ele a tira num ai!
Sem lhe tocar com a pinça;
E só dizer-lhe: «Aí vai...»
Operação melindrosa,
Que não é lá qualquer coisa;
Catarata, tome conta!
Pois não faz mais do que isto,
Diz-me um juiz que o tem visto:
Tlim!
Pronta.

Nessas espécies de exames
Que a gente faz em rapaz,
São milagres aos enxames
O que aquele demo faz!
Sem saber nem patavina
De gramática latina,
Quer-se um rapaz dali fora?
Vai ele com tais falinhas,
Tais gaifonas, tais coisinhas...
Tlim!
Ora...

Aquela fisionomia
É lábia que o demo tem!
Mas numa secretaria
Aí é que é vê-lo bem!
Quando ele de grande gala,
Entra o ministro na sala,
Aproveita a ocasião:
«Conhece este amigo antigo?»
— Oh, meu tão antigo amigo!
Tlim!
Pois não!

João de Deus

6.2.08


O dinheiro


O dinheiro é tão bonito,
Tão bonito, o maganão!
Tem tanta graça o maldito,
Tem tanto chiste o ladrão!
O falar, fala de um modo...
Todo ele, aquele todo...
E ei-las acham-no tão guapo!
Velhinha ou moça que veja,
Por mais esquiva que seja,
Tlim!
Papo.
E a cegueira da justiça
Como ele a tira num ai!
Sem lhe tocar com a pinça;
É sé dizer-lhe – Aí vai...
Operação melindrosa,
Que não é lá qualquer cousa;
Catarata, tome conta!
Pois não faz mais do que isto,
Diz-me um juiz que o tem visto:
Tlim!
Pronta.
Nessas espécies de exames
Que a gente faz em rapaz,
São milagres aos enxames
O que aquele demo faz!
Sem saber nem patavina
De gramática latina,
Quer-se um rapaz dali fora?
Vai ele com tais falinhas,
Tais gaifonas, tais coisinhas...
Tlim!
Ora...
Aquela fisionomia
E lábia que o demo tem!
Mas numa secretaria
Aí é que é vê-lo bem!
Quando ele de grande gala,
Entra o ministro na sala,

Aproveita a ocasião:
«Conhece este amigo antigo?
– Oh meu tão antigo amigo!
(Tlim!)
Pois não!

João de Deus

4.2.08


Beijo


Beijo na face
Pede-se e dá-se:
Dá?
Que custa um beijo?
Não tenha pejo:
Vá!

Um beijo é culpa,
Que se desculpa:
Dá?
A borboleta
Beija a violeta:
Vá!

Um beijo é graça,
Que a mais não passa:
Dá?
Teme que a tente?
É inocente...
Vá!

Guardo segredo,
Não tenha medo...
Vê?
Dê-me um beijinho,
Dê de mansinho,
Dê!

Como ele é doce!
Como ele trouxe,
Flor,
Paz a meu seio!
Saciar-me vem,
Amor!

Saciar-me? louco...
Um é tão pouco,
Flor!
Deixa, concede
Que eu mate a sede,
Amor!

Talvez te leve
O vento em breve,
Flor!
A vida foge,
A vida é hoje,
Amor!

Guardo segredo,
Não tenhas medo
Pois!
Um mais na face,
E a mais não passe!
Dois...

*

Oh! dois? piedade!
Coisas tão boas...
Vês?
Quantas pessoas
Tem a Trindade?
Três!

Três é a conta
Certinha e justa...
Vês?
E que te custa?
Não sejas tonta!
Três!

Três, sim: não cuides
Que te desgraças:
Vês?
Três são as Graças,
Três as Virtudes;
Três.

As folhas santas
Que o lírio fecham,
Vês?
E não o deixam
Manchar, são... quantas?
Três!


João de Deus



23.1.08

Casto Lírio


Meu casto uno,
Terno delírio,
Gloria e martírio
Do meu amor!
Amo-te como
A haste o gomo,
O lábio o pomo,
E o olho a flor.

Se ao meti ouvido
Chega o rugido
Do teu vestido
Indo a roçar,
Que som me vibra
Não sei que fibra,
Que me equilibra
A mim no ar?

E que harpa santa
É que me encanta
E enche de tanta
Consolação,
Quando uma fala
Terna se exala
Donde se embala
Teu coração?

Quando te vejo
De um simples beijo
Corar de pejo.
Mudar de cor,
Que susto é esse
Que me parece
Te empalidece,
Rosa de amor?

Quando no leito
Teu níveo peito
Sonho que estreito
E aperto ao meu,
Vendo tão perto
O céu aberto,
Porque desperto,
Anjo do céu?

Não fujas, rosa,
Não fujas, ga6a
Manhã mimosa,
Manhã de amor!
De folha em folha
A flor se esfolha
Bem cedo e olha

Que és uma flor!...


João de Deus

Amor


Não vês como eu sigo
Teus passos, não vês?
O cão do mendigo
Não é mais amigo
Do dono talvez!

Ao pé de uma fonte
No fundo de tini vale,
No alto de um monte
De vasto horizonte,
Sem ti estou mal!

Sem ti, olho e canso
De olhar, e que vi?
Os olhos que lanço,
Acharem descanso,
Só acham em ti!

Os ventos que empolam
A face do mar,
E as ondas que miam
Na praia, consolam
Tamanho pesar?

As formas estranhas
De nuvens em vão
Roçando as montanhas
Em ondas tamanhas
Distraem-me? Não!

A pomba que, abraça
No ar o seu par,
E a nuvem que passa,
Não tem essa graça
Que tens a andar!

Parece o pezinho,
De lindo que é,
Ligeiro e levinho,
O de um passarinho
Voando de pé!

O rosto, há em torno
Da pálida oval,
Daquele contorno
Tão puro, o adorno
Da auréola imortal!

Não sei que luz vaga,
Mas intima luz,
Que nunca se apaga,
Me inunda, me alaga,
Se os olhos lhe pus!

Eu amo-te, e sigo
Teus passos, bem vês!
O cão do mendigo
Não é mais amigo
Do dono talvez!
João de Deus

20.1.08


Enlevo


Não brilha o sol,
Nem pode a lua
Brilhar na sua
Presença dela!
Nenhuma estrela
Brilha diante
Da minha amante,
Da minha amada!

A madrugada
Quanto não perde!
O campo verde
Quanto esmorece!
Quanto parece
A voz da ave
Menos Suave
Que a sua fala!

A flor exala
Menos perfume,
Do que é costume
O seu cabelo...
Que basta vê-lo,
Prende-se a gente;
Prende-se e sente
Gosto inefável!

Que riso afável
Aquele riso!
Que paraíso
Aquela boca!
Penetra, toca,
Enche de inveja
Um ar que seja
Da sua graça!

Onde ela passa,
Aonde ela chega,
Quem lhe não prega
Olhos avaros?
Há dotes raros,
Rara doçura
Naquela pura,
Casta existência!

Oh! que inocência
Que ela respira!
A alma aspira
Não sei que aroma,
Mal nos assoma
Ao longe aquela
Pálida estrela...
Que rege o mundo!

Nunca do fundo
Do oceano
Foi braço humano
Colher ainda
Pérola linda,
Como a formosa,
Cândida rosa
Que eu amo tanto!

Não sei, de santo,
Que há no seu gesto...
No ar modesto
Daquele todo!
Naquele modo...
Que tudo esquece,
E nos parece

Estar no céu!


João de Deus

9.1.08


Lágrima celeste


Lágrima celeste,
Pérola do mar,
Tu que me fizeste
Para me encantar!

Ah! se tu não fosses
Lágrima do céu,
Lágrimas tão doces
Não chorara eu.

Se eu nunca te visse,
Bonina do vale,
Talvez não sentisse
Nunca amor igual.

Pomba debandada,
Que é dos filhos teus?
Luz da madrugada,
Luz dos olhos meus!

Meu suspiro eterno,
Meu eterno amor,
De um olhar mais terno
Que o abrir da flor,

Quando o néctar chora
Que se lhe introduz
Ao romper da aurora
E ao raiar da luz!

Esta voz te enleve,
Este adeus lá soe,
O Senhor to leve,
E Deus te abençoe.

O Senhor te diga
Se te adoro ou não,
Minha doce amiga
Do meu coração!

Se de ti me esqueço
Ou já me esqueci,
Ou se mais lhe peço,
Do que ver-te a ti!

A ti, que amo tanto
Como a flor a luz,
Como a ave o canto,
E o Cordeiro a Cruz;

A campa o cipreste,
A rola o seu par,
Lágrima celeste!
Pérola do mar!


João de Deus