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8.8.11

O chamado da falésia



espera-se por tudo quando a falésia
nos chama por dentro do nevoeiro
cobrindo a ilha

nesse momento pensamos se todo o mundo
será assim vestido de bruma e limpamos
os olhos com as nuvens do horizonte

na verdade sabemos que não e o mar
é como uma estrada indicando um caminho
e o coração uma bússola para orientar a viagem

e ao chamado ecoando pelas serras verdes
e se detendo nas pedras cinzentas dos cumes
não sabemos que dizer como responder

algures apontamos um pedaço de terra
e um dia numa carta à mãe lá confessamos
estou aqui tão distante do lugar
onde num dia como nunca vi outro igual
decidi que hei-de morrer

hoje por lá mora um silêncio
sabendo a demora à saudade caiada de chuva
onde já deviam estar as paredes de cal branca
de uma casa

espere por mim


José António Gonçalves

20.2.11

Por dentro da Ilha


Como confessar: estas esperas metem-me medo.
É como se o tempo estivesse parado
temendo progredir nas margens
do meu silêncio
em segredo.

E reparo:
caído nas calçadas do arquipélago
dominado
o pássaro quer rebater as asas imobilizadas
e saltar os muros as sebes os telhados
da cidade
apontando o bico em direcção aos céus
aos cérebros
(deixando derramar cá por baixo
bocas abertas de espanto
no exacto espaço
da liberdade).

Do que se sabe:
é sempre o mesmo incidente.
Os barcos estão presos a âncoras
e não há brisa
alguma
nem ventos livres soprando
onde seja possível navegar.
As gaivotas desfizeram os ninhos
esqueceram os mapas as bússolas
a algazarra das manhãs no calhau
e partiram em busca de outras sinas
cumprindo a ambição que sonharam
desde pequeninas.

Como dizer: faz-se tarde
nos caminhos escuros do futuro
e se o mar é o cerco a prisão
que da ilha brota
e se os dedos nos crispam
de ausências cúmplices
magoados por turbilhões de raiva
fechando-se no peito
e se a água nos afoga no isolamento
do seu sal
é chegada a hora de nos deixarem amar
as distâncias
levando o sabor da terra e da lenha queimada
nos lábios
como se os incêndios vorazes das serras
obrigassem à libertação das cinzas
dos seus degredos.

Como confessar: por dentro da ilha
as esperas metem-me medo.
Venham mais barcos e aviões
para encher os cais e aeroportos.
Programem as viagens, abram alas ao sonho
de partir. Chamem mais passageiros.

Eis que está denunciado o segredo.


José António Gonçalves

1.1.11

Folhas Vermelhas


Andam as estátuas a voar
em redor dos pássaros estáticos
sem que isso perturbe o bronze da manhã.
Os bancos em frente do rosto da cidade
só aceitam depositantes e não levantamentos.
Uns vagabundos de ar inteligente ainda dormem
sobre um manto invisível de folhas vermelhas.
Deve ser por isso que chegou o Outono.

Ouço um apelo das montanhas
nas asas do granizo
e lá vou eu em busca do Inverno
sem verdadeira coragem de olhar para trás.
Acompanha-me o vento sul e um ocaso
nasce dentro de mim a cem à hora
para acender-me a alma, velho motor
engripado com os versos de Oscar Wilde
e as histórias de Allan Pöe. Neste caso
deve ser algo que tenha a ver com amor.

Estou quase atingindo o clímax, o cimo,
os píncaros da felicidade plena, violeta
e branca, como as flores dos altares das igrejas
que povoaram a catequese da minha infância.

Estou por cima e, daqui, é mais fácil olhar
para baixo, contemplar o sofrimento dos outros
e aplaudir os seus rasgos de alegria. O poeta
tem este destino de eremita. Cultiva laranjas,
maçãs e pêros. Depois colhe romãs e cerejas.


José António Gonçalves