17.6.09

Lágrima - Velho Tema


Ó lágrima bendita e santa e universal,
Eu te quero cantar, e este meu canto inspire-o
A feição que eu te dei, de intérprete geral
Da dor - de todo ser infalível martírio…

Que processo te faz no minério em cristal,
E na gota que luz no cálice do lírio?
Talvez tenham os dois, uma tortura igual
À tortura que funde em lágrimas o círio.

Seja embora ilusão, hei de sempre mantê-la:
- No côncavo do céu, há lágrimas astrais
E o bólide celeste é a lágrima da estrela!

Malfadadas irmãs! - são lágrimas iguais:
A resina que cobre as árvores fendidas
E a lágrima de dor das íntimas feridas!

Jorge de Lima (poeta brasileiro)

15.6.09

Pequeno Ciclo do Tempo


Para a Maria Lúcia


INTRODUÇÃO AO TEMPO


1

Onde estavas floresce o teu mito.
Aparelhas o rosto, o amplo e severo
gesto da mão apanhando no ar
o objecto incólume, com galhardia,
sem ostentação.
Rodeias-te dos punhais de aço cristalino,
das automáticas granitadas e puras -
um arsenal azul-aço e cobre
corolando fogos-fátuos de gestos
contidos - a esperança do ver e tactear
o radiar do tempo. Vês como é fácil?
Abre o leque aracnídeo dos telhados,
adivinha a digitalidade destas colinas
já ensombradas, decapita esta poalha
cinza e ouro.
Alongaste-te nos indivisíveis mistérios
da rota, pelas baías mansas e coralinas
afagadas de sol e panóplias de cristais,
encobrindo espectros de cimitarra à cinta,
turbantes, esmeraldas e arcas, arcabuzando
a linha do horizonte com seus arremedos
e gritos guturais nas enxárcias.
Vês como é fácil escamotear a onírica verdade?


2

Na senda ondulada do asfalto alguma coisa
te cria, inverte. São os traços convulsos
da morte, a ladainha biológica que sabes.
Cada descoberta que fazes é a antecipação
do dia imediato, garras de aves esgaravatando
o chão de sílica, em espamos, a conspiração
acre e dolorosa de viver. No tempo estás fluído:
a bússola que tens no coração volteja
o teu infinito, é o teu sangue perdido,
quando acaricias o destino em exaltação,
escorrrendo neste rio que goteja na nascente
- a aurora dos sábios - um líquido espesso
e feroz que corrói os tecidos de cardos
roxos, a película que volteja no ar fino
adejando ao ritmo que compassas.
Ergues-te sorridente e cais.


3

Será que este instante te acomoda no tempo?
A desvanecer-se como o tufão que mercuriza
os ilhéus, um trigo lento e milenar em germinação,
a pirâmide que se anguliza.
Somos cúmplices, onde o rosto desponta
e devora e surge a cidade submersa da infância,
há um calor tão denso quanto é estridente,
rumorejante, a tua memória.
Sentes no teu dorso o escaninho que conduzes?
Avalias o que isto cala para a jornada?
Contém gestos e palavras. Alucina-te,
mas silencia. Corrói-te. No invisível despontar
das sombras compassa o futuro, dilacera
lentamente o pão. Alonga as facas
que cristalizam os gestos. É já o momento
chegado. Aguarda ainda, não soltes os cães
da noite, as esponjas envolventes,
nas áleas de choupos que bordejam
os pequenos rios, sê contido até cercares,
interrompe a dor que te sobe no peito,
a crisálida da fúria. Ataca.

Se



se por acaso
a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso
de noite uma farra
a gente ia viver
com garra

eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto

ia ser um riso
ia ser um gozo
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio


daí vá ficando por aí
eu vou ficando por aqui
evitando
desviando
sempre pensando
se por acaso
a gente se cruzasse...


Alice Ruiz
Brasil

Noite


Depois só dei pela manhã, a manhã atrevida
entrando devagar, muito devagar e acordando-me.
Desviei os meus olhos para ti :
ao longo do teu corpo morriam as estrelas.
A noite partira. E, lentamente,
o sol rompeu no céu da tua boca.

Albano Martins

14.6.09

Talvez seja melhor ficarmos longe


Talvez seja melhor ficarmos longe,
descobrindo sozinhos os contornos
das coisas impassíveis e sem tempo:
a fachada da igreja que em granito
nunca se deu a homens ou a deuses,
gerada, nós sabemos, de pedreiras
e por mãos que morreram posta ali.
Mas os cedros talvez exijam menos,
os cedros que se elevam sobre a igreja:
contemplo-os para lá dos vidros, cedros
sem mais inquietações e sem perguntas
de quem se não contenta só consigo.
Porque ser-se sensato é ver as flores
irem a cor largando até os sonhos
se tornarem o fumo esmaecido
das nossas vidas, glória que foi lume
e que não mais lembramos, afastando
a tentação do tempo, a tentação
de sermos novamente anjos febris
à procura da fé no amor dos corpos
que nos tornava seres inscientes,
rodeados de coisas a nós alheias
e apenas nos servindo de cenário
a gestos que se gastam a si próprios.
E então ficam as flores a esvair-se
e cada um com seus rostos amados
perdidos na memória e com o peso
de enganos já vividos que o presente
não esquece e carrega em nossos ombros.
Alheemo-nos. Nada queiramos.
Digamos com o mestre que os poemas
foram cartas ridículas de amor,
e hoje um extemporâneo e vão delírio.
Nenhum outro destino nos convoca
se afinal o que sobra são poemas.
Quedemo-nos assim. Vês no horizonte
lívido o céu deserto que se assoma?
Não o temes, bem sei: mas concilia-te?
E as flores que se tornam mais presentes
na sua impossível duração,
vais como sempre amá-las? Ou será
uma graça que os anos levarão,
e a sua natureza, o teu desgosto? -
pergunto sem que espere uma resposta
porque sei o que digas não me acode.
Oxalá envelheças com doçura
e possas a teu modo ser feliz.


Nuno Dempster

Abril




Houve um tempo em que Abril foi madrugada
e rimou com o teu rosto,
mas agora é sol-posto
e não se vê mais nada
com que rime senão a funda decepção
de uma promessa adiada.

Houve um tempo em que Abril foi a gaivota
azul do teu olhar,
mas perdeu-se da rota
e deixou de voar.

Não nos cabe, porém, desanimar:
Abril acaba sempre por voltar.


Torquato da Luz

(Des)Entendimento



Para quê
entender
as mulheres
se podemos
viver com elas
sem as entender?
Calma
coração de psicólogo
a vida na verdade
nem sempre
necessita de análise,
é só seguir
os sentimentos.

Domi Chirongo

13.6.09

Armário de Especiarias e Ervas Aromáticas



Cerofólio, manjerona
malagueta, benjoim
noz moscada, cardomomo
salsa, sândalo, alecrim

erva doce, piripiri
cravinho, canela em pau
gengibre, menta, tomilho
pimpinela, colorau

zimbro, funcho, açafrão
oregãos, coentros, caril
azedas, louro, estragão


Jorge de Sousa Braga
in O Poeta Nu

Se um dia secarem as palavras


Se um dia secarem as palavras
do rio que só nós soubemos navegar
se acordarmos sós e despidos
das quimeras que já não podemos segurar
restará ainda a velha ponte
hirta e fria, abandonada,
sobre um leito desfeito, vazio,
e alguns versos soltos pelas margens
como as folhas de outono

de nós nada mais se ouvirá


Isabel Solano

11.6.09

Desejos vãos


Eu q’ria ser o Mar d’altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu q’ria ser a pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu q’ria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim dum dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras... essas... pisa-as toda a gente!...


Florbela Espanca





Cerejas



cerejas são luas ao poente
escondidas por entre sobreiros
vaidosos e antigos da andaluzia

as tardes de junho aproximam
as mãos e os frutos
delicados vermelhos e redondos
os teus lábios beijam cerejas
bebem-lhes o mel
e repudiam-lhes o centro

morre o amor
em cada árvore desgastada
pelo vento quente
os teus dedos enlaçados em mim
recordam beijos perdidos na planície.

partimos no alvoroço das primeiras estrelas
sinais de luz que o mundo
num instante moribundo
uivou

sou de roma português de andaluzia
santo-anjo retratado em frescos de capela
aragem quente estremenha
com algas rumores e maresia

estou deitado meu amor
não vês?
no meu corpo cerejas raras nascem
esperando as tuas mãos
os teus lábios entendidos
em frutos mágicos
no silêncio das encumeadas


Henrique Levy

10.6.09

Rosa



Rosa em verso, rosa em prosa:
rosa rosa.
Verdadeira, recortada,
sempre votiva é a rosa.
Quem a dá, quem a ostenta,
quem a colhe, quem a inventa,
quem dela - a rosa - se lembra
faz o voto de quebrar
a pessoal solidão.
Se não troco o pão por rosas,
não troco a rosa por pão.
Rosa.
Rosa em verso, rosa em prosa:
rosa rosa.
Rosa nome, rosa coisa,
rosa flor, rosa rosa,
rosa traço de união.
Rosa fugaz, recolhida
noutra rosa já nascida.
De rosa em rosa é a vida.
Ó rosa breve fulgor,
lampejo na escuridão.
Se não troco o pão por rosas,
não troco a rosa por pão.

Alexandre O' Neill

8.6.09

Foi um dia de inúteis agonias



Foi um dia de inúteis agonias,
Dia de sol, inundado de sol.
Fulgiam, nuas, as espadas frias.
Dia de sol, inundado de sol.

Foi um dia de falsas alegrias.
Dália a esfolhar-se, o seu mole sorriso.
Voltavam os ranchos das romarias.
Dália a esfolhar-se, o seu mole sorriso.

Dia impressível, mais que os outros dias.
Tão lúcido, tão pálido, tão lúcido!
Difuso de teoremas, de teorias...

O dia fútil, mais que os outros dias!
Minuete de discretas ironias...
Tão lúcido, tão pálido, tão lúcido!


Camilo Pessanha
Clepsidra

6.6.09

Há uma mulher à minha espera


Há uma mulher à minha espera
Num barco de nuvem
De lança de aurora e de núpcias
Metafísica de longínquos cabelos de seda
E um cavalo azul atravessa o céu
De líquidos dedos e sons aromáticos
Por detrás das rosas com bocas de carne
Oh ânsia de um Deus vivo
Oh natureza sensorial respira
E diz palavras para que todos oiçam
Oh carros e máquinas assassinas
Fiquem humanos
Oh homens sejam carros nessas ruas
Metalizai o vosso ego e orgulho
Pelo menos um cão
Nesses Lassos olhos como a noite
Ladre a podridão
Nesses ferros, nessas prisões
Que a inteligência humana pariu
Um rato no esgoto não queira ser homem!


Manuel Feliciano

Silenciário



Um certo rumor de silêncio
cresceu nas ancas das palavras
após a entrega das bocas

escasseiam agora as explicações
na fronte excessiva do poema


João Manuel de Oliveira Ribeiro

Se o teu olho é simples, todo o teu corpo será luminoso




Começa por atentar ao que se passa entre a urze e as abelhas
à doce árvore entre a terra e o céu.
Sobe às alturas das pedras nuas,
estão difíceis estes modernos tempos para a contemplação,
na rarefacção dos lugares teofânicos.
Toma nos lugares mais baixos a beleza
de uma azeitona no silêncio do meio-dia estival.
Contemplações insignificantes
contemplações mais magnificentes.
Depois deves numerá-las: a cerimónia.
Para que germinem no teu vaso de ouro
e sobre elas desça o orvalho e o perfume dos cedros.


Adelino Ínsua

4.6.09

Concerto de “DJUNTA MON”


I


A dor encosta-se a mim
abraça-me forte
espalha-se pelo corpo
em glândulas de fome

Enfermo
declino o convite
para a grande festa da liberdade
Estou no meu tempo
no meu espaço
na minha tabanca
onde festa
não cabe
Grassa o choro
a doença
crianças morrendo
dia a dia
hora a hora!


II


Não…
Não vou a Berlim
ver o muro em pedaços
Viajo sim no olhar desesperado
do menino moçambicano
nicando a raiz seca
que desistiu de crescer
para morrer na boca pequena

Na África-tabanca
morre-se
aos pedaços
e
pedaços que não são saudades
da minha herdade
deixo-os fluir ao vento
até que a história
faça a contrição
do tempo madrasta

III


Mas se amanhã levantarem o cerco
que nos tolhe o sol
prometo
que
levarei os nossos cikós
os nossos tambores
os nossos djidius
e
com os vossos pianos e saxs
dançaremos na voz de Sinatra Pavaroti
Nina Simone e Milles Davies
no cume da estátua da liberdade

O batuque terá o sabor
das pedras ontem feitas muro
e de cada pedaço da vergonha caída
nascerá um tambor para o concerto
de djunta-mon!

Tony Tcheca (poeta guineense)

Pensar a história e ser pensado nela
sendo ela pensada noutra parte
com a nossa a, se possivel, vê-la
no nó especular de onde ela parte.

E, alem do nó, o azul rasga a janela
e nele se move, sem lugar, amar-te
sendo amado de ti, como uma estrela
no pensamento de que não se aparte.

Ou arruina-se a mágoa, a perspectiva
e o próprio azul por onde se mover
é amar-te numa história viva

que ainda nao soubemos escrever.
Porque escrevê-la a ensombra e a deriva
para a seguirmos como ja não é.


Fernando Echavarria (poeta timorense)

3.6.09

De certo modo os destroços palavras



de igual modo as partículas invariáveis traços lábias
sempre há uma mulher no mal
por isso trepo meu olhar pelas paredes e pelo tecto
o último cruzar de pernas
zona prestigiada o eixo compreendia o acento de intensidade
junto todos os sentidos no modo algum tempo exacto
sem esquecer na via erudita expressão
o étimo uma mesa com o portal aberto
outro reino de certeza
a comunicação oficial adoptou o berço língua lençol
tanto tempo sonorizado
estava inscrito nas fronteiras este período
das alíneas funções sintácticas
diferenças dos pares vocabulares
nascem outras partículas variáveis destroços

Abreu Paxe
Angola
Uma menina está a chorar




Mãe, o Natal já está chegar
O menino Jesus vai nascer mais uma vez,
mas Bete ainda vive na casa feita com lona
e a mão do meu irmão ainda suzo com sangue.

Bete é a minha amiga melhor de todos,
ela tem idade como eu, nós entrámos na escola primária juntos,
nós chorámos quando vemos falecimento do pai dela
emquanto o fogo queimar a casa deles até muito queimado.

O pai dela moreu por causa de pessoas lhe matou,
matou-lhe porque este senhor é de Lorosae.
Eles não têm oportunidade refugiar para montanha
como outros delocados fuziram de um lugar para outro lugar.
Bete com sua família é vizinho bom,
como é que vocês começa odi eles de repente?
Nós todos que estamos aqui somos pobres...
vocês todos agora mau coracão, eu acho

Os Jovens de bairro que queimar,
o meu irmão própio também ajuda.
Para isto que vocês lutaram?
Estou farta, quero mudar minha vida..

Vocês não bando não obriga ele fica em casa,
vocês deixa-lhe ser vadio não tem educação,
bater um contra outros, cortar um com outros, como lutas de galos.
Como assim que vocês quererem arguer nação?

Mãe, isto é que futuro para crianças
em novo nação Timor Lorosae?
Se futuro como assim mesmo talvez
então eu quero ser malae.


Afonso Busa Metan (poeta timorense)

2.6.09

Chimâmi



Sempre que eu recorde a casa à beira-mar da infância,
surgem-me teus olhos meios de xipeia ferida,
aguados de humildade,
constantes como um remorso.

Lembras-te, minha amiga da palhota do Guachene?

Nos meus braços egoístas de dona,
uma boneca sorria sempre, com seus olhos verdes de gato.
E nos teus braços sempre vazios, Chimâmi,
só ternura imensa insaciada,
ternura verdadeira de mãe.
Teus olhos meigos de xipeia ferida,
com seu eterno brilho de resignação,
afagavam muito, longamente, quase com desespero,
a minha linda boneca loira.

Lembras-te?

Depois, era Natal
e o meu vestido de seda, aos folhos,
era uma das glórias do dia.

E o fogãozinho lindo que Papá deu
e o anel de ouro que Padrinho trouxe,
e os sapatos brancos que Mamã ofereceu?
E os bolos, o arroz-doce,
e o leitão assado,
e as flores na mesa branca da sala de jantar?
Natal, Chimâmi, hoje é dia de Natal!
Tu foste à missa como eu,
foste à missa Chimâmi?

Chimâmi não foi à missa, não
nem deve saber que hoje é dia de Natal,
porque não vestiu vestido de folhos,
vestiu hoje o mesmo vestido de riscado de todos os dias,
roto e velho, comprado no monhé do bazar.
E veio descalça, sem presente nem nada.
Só com os seus grandes olhos meigos de xipeia ferida,
no rosto luzidio, espetado o pescoço magro e longo.

Ah Chimâmi naquele dia,
tu partilhaste do meu Natal.
E todos os Natais após, continuas a partilhá-los.

Mas agora? Agora?
Quem vai apagar essa lágrima permanente
do teu olhar de xipeia ferida,
constante como um remorso, teu olhar
que dói para além de qualquer comparação?
Ah Chimâmi, minha Chimâmi!


Noémia de Sousa

Das cerejas



Das cerejas
eu lembro que eram doces.
Eram rubis de brinco
nas orelhas
e serviam de troca
boca a boca
no entretém guloso
dos namorados.


Edgar Carneiro

Cântico


Se a montanha hoje tremer,
nada receies,
aproxima o teu ouvido do chão de musgo,
escuta a conversa das pedras,
esse marulhar, que te ensinaram ser sinistro.

A terra é um deus antigo de longas capas,
um pai silencioso na espera ao filho pródigo,
que um dia, bateu a porta e fugiu.

Não há vingança,
nas árvores derrubadas à passagem de Moisés,
nas garras estendidas sobre o mar,
onde os marinheiros, sonharam o Bojador,

serão sempre magnânimos, todos os seus actos...

Se a terra tremer, não te inquietes pois,
abre os olhos ao fulgor que salta do vulcão,
é esse deus velhinho,
que abre os braços e exclama:

Vem meu filho,
preparei-te um novo leito,
chegou a hora de regressares ao lar!


Helena Figueiredo

Sombra




De olheiras roxas, roxas, quase pretas,
De olhos límpidos, doces, languescentes,
Lagos em calma, pálidos, dormentes
Onde se debruçassem violetas...

De mãos esguias, finas hastes quietas,
Que o vento não baloiça em noites quentes...
Nocturno de Chopin... risos dolentes...
Versos tristes em sonhos de Poetas...

Beijo doce de aromas perturbantes...
Rosal bendito que dá rosas... Dantes
Esta era Eu e Eu era a Idolatrada!...

Ah, cinzas mortas! Ah, luz que se apaga!
Vou sendo, em ti, agora, a sombra vaga
D’alguém que dobra a curva duma estrada...


Florbela Espanca

1.6.09

Punhal na alma... pelas costas



Na vida das esquinas
encontrei esquinas
que me apontaram a vida
que, afinal, estava mesmo
ao dobrar da esquina.
Apesar disso chorei
quando senti o punhal
entrar-me pela alma
sem verter uma gota de sangue
porque esse jazia
sonolento num corpo perdido
na madrugada que anoitecia
sem se lembrar da poesia
que nascera décadas antes
nos córregos sinuosos
de uma saudade castigadora
bem mais lancinante
do que o punhal que me feriu
a alma e que, mais uma vez,
foi espetado pelas costas.

Orlando Castro (poeta angolano)