8.3.08

Natal


Quando eu era criança,
Ouvia os companheiros de folguedo
Cantarem do que achavam no sapato
Posto na chaminé
Na noite precedente à de Natal.
E um ano, na esperança
De achar também no meu um bom brinquedo
Uma corneta, um gato,
Lá pus cheio de fé
O meu velho chinelo de sisal.

E mal dormi a noite, ansioso, à espreita,
Não fosse o Velho entrar e às escuras
Não ver onde eu deixara,
Com uma moeda de cobre,
O meu chinelo de sisal velhinho.
Por uma fenda estreita,
Contava o vento estranhas aventuras
De bosques e montanhas que galgara,
Do frio que levara a uma criança pobre
No caminho.
Entanto eu tinha medo.
Se alguém, sem ser o Velho de Natal,
Pé ante pé entrasse e sorrateiro
Levasse o meu vintém,
E o meu chinelo, a rir, deitasse fora?
De facto, no arvoredo
Andava por sinal
Um vozear confuso e maroteiro...
Erguia-me à cautela e ia ver. Ninguém.
E outra vez, mais outra, até romper a aurora.

Saltei da cama à pressa, receoso,
Não fosse antes de mim alguém buscar as prendas.
No meu chinelo nada. Lume apagado em volta.
Por entre cinza fria o meu vintém.
Caí num choro imenso, angustioso,
Numa raiva brutal a todas lendas.
E dum sacão arremessei à estrada,
Num gesto de revolta,
O meu velho chinelo com desdém.

A criança que o vento me dissera
Ter visto no caminho
Envolta em trapos velhos,
Um sorriso nos lábios, mansa, humildemente,
Calçou o meu chinelo.
Então eu compreendendo a prenda que dera
O bom Velhinho
Levei outro chinelo e de joelhos
Calcei-lhe o pé e caridosamente
Levei-a para casa com desvelo.

Foi essa a minha prenda de Natal,
Nunca mais pus sapatos na lareira
À espera de presentes,
Porque esses dias há crianças nuas
Dormindo num desvão.
E agora peço a Deus que a minha prenda anual
Seja na vida inteira
Os pobrezinhos entes
Que passam em silêncio pelas ruas
Sem agasalho e pão.


Rui de Noronha
Moçambique