9.8.10

Os meus heróis



Prezo os símbolos, o rasto e os sinais
da minha nostalgia portuguesa. Mas
os meus heróis verdadeiros não vêm na história,
não têm monumentos nas praças domingueiras
nem dias feriados a lembrar-lhes o nome,
são heróis dos dias úteis da semana
levantam-se antes do sol e recolhem apenas
quando a noite se fecha nos seus olhos,
lavram a terra, o mar, e são jograis
colhendo a virgindade púdica da vida,
sobem aos andaimes, descem às minas
e comem entre dois apitos convulsivos
um caldo de lágrimas antigas,
são os construtores do meu país à espera
mouros no trabalho e cristãos na esperança
famintos do futuro, como se a madrugada
fosse a seara imensa apetecida
onde o sol desponta nas espigas
sobre o casto silêncio da montanha.


António Arnaut