Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Queirós. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Queirós. Mostrar todas as mensagens

30.11.10

Canção da Lembrança


Oh! a memória visual Daquela ave o incerto voo
Das coisas que nos são queridas, Depois de f´rida numa asa,
Tão levemente coloridas, Que foi sentido só em casa
Tão cheias d’ alma, d’ irreal! Quando a memória o recordou...

No mar, ao longe, reflectidas Aquel’ navio que saía
A luz trémula de frio... A barra, todo iluminado,
O rumoroso, incalmo rio, E agora sendo recordado
Lembrando sempre, ao poeta, a vida... É belo mais do que par’ cia...

Como suaves nos afagam Ternos motivos de saudade
Os olhos quási diluídas... Que outrora fomos em criança,
E nos refrescam os sentidos E tem agora, na lembrança,
E de ternura nos alagam! Como que mais sinceridade...

O campo, à tarde, quando o verde Oh! a memória visual
Em sombra, lento, se dissolve, Das coisas que nos são queridas
Se ao nosso estar lembrando-o volve, Tão brandamente repetidas.
Como se esvai, como se perde! Tão cheias d’ alma, d’ irreal!

Carlos Queiroz

26.9.08

O que dizemos


O que dizemos,
Ninguém dirá
Como dizemos:
Palavra e gesto
Voz e acento
Calor e ritmo,
É tudo ímpar
É tudo novo
É tudo único.
Somos partículas
Inconfundíveis
Da Eternidade.

Carlos Queirós



Erótica


A noite descia
como um cortinado
sobre a erva fria
do campo orvalhado.

e eu (fauno em vertigem)
a rondar em torno
do teu corpo virgem,
sonolento e morno,

pensava no lasso
tombar do desejo;
em breve, o cansaço
do último beijo...

E no modo como
sentir menos fácil
o maduro pomo
do teu corpo grácil:

ou sem lhe tocar
– de tanto o querer! –
ficar a olhar,
até o esquecer,

ou como por entre
reflexos do lago,
roçar-lhe no ventre
luarento afago;

perpassando os meus
nos teus lábios húmidos,
meu peito nos teus
brancos
seios
túmidos...


Carlos Queirós

22.9.08

Teatro da Boneca



A menina tinha os cabelos louros.
A boneca também.
A menina tinha os olhos castanhos.
Os da boneca eram azuis.
A menina gostava loucamente da boneca
A boneca ninguém sabe se gostava da menina.
Mas a menina morreu.
A boneca ficou.
Agora já ninguém sabe se a menina gosta da boneca.

E a boneca não cabe em nenhuma gaveta.
A boneca abre as tampas de todas as malas.
A boneca é maior que a presença de todas as coisas.
A boneca está em toda a parte.
A boneca enche a casa toda.

É preciso esconder a boneca.
É preciso que a boneca desapareça para sempre.
É preciso matar, é preciso enterrar a boneca.
A boneca.
A boneca.

Carlos Queirós


22.8.08

Província



Se eu tivesse nascido
No seio da província, era fatal
Que o meu sonho maior, o mais sentido
Seria triunfar na capital.
E depois de tê-lo conseguido,
Voltar à terra natal
ser pelos conterrâneos recebido
Com palmas e foguetes,
Fanfarras, vivas e banquetes
Na Câmara Municipal.

Carlos Queirós

27.7.08

Canção grata


Por tudo o que me deste:
- Inquietação, cuidado,
(um pouco de ternura? É certo, mas tão pouco!)
Noites de insónia, pelas ruas, como um louco...
- Obrigado, obrigado!
Por aquela tão doce e tão breve ilusão,
(Embora nunca mais, depois que a vi desfeita,
Eu volte a ser quem fui), sem ironia: aceita
A minha gratidão!
Que bem me faz, agora, o mal que me fizeste!
- Mais forte, mais sereno, e livre, e descuidado...
Sem ironia, amor: - Obrigado, obrigado
Por tudo o que me deste!


Carlos Queirós


20.7.08

A nossa época


Acordo e vejo num lampejo
A nossa época frenética
A nossa época patética
- Tão claramente, como vejo
O relógio-despertador:
Nítido, frio, rigoroso...
Contudo, tão misterioso
Como a poesia e o amor.

Carlos Queirós


13.7.08

Libera me


Livrai-me, Senhor,
De tudo o que for
Vazio de amor.
Que nunca me espere
Quem bem não me quer
(Homem ou mulher).
Livrai-me também
De quem me detém
E graça não tem,
E mais de quem não
Possui nem um grão
De imaginação.

Carlos Queirós


26.5.08


Uma história vulgar


Ouvir a tua voz, outrora, era o bastante
Para sentir, enfim, justificada, a vida;
E supor que podia, a partir desse instante,
Abrir, impunemente, ao mundo, confiante,
Minh'alma enternecida.

Fitar o teu olhar, era um deslumbramento,.
Que me transfigurava e me fazia crer
Que depois de viver, na terra, esse momento,
-- Sereno, como após o extremo sacramento -,
Já podia morrer.

Premia as tuas mãos nas minhas e dizia,
Com profunda emoção: - É só por ti que existo!
- Como foi isto, amor? Do nosso olhar, um dia,
Caiu neve no fogo em que a minh'alma ardia...
Amor, como foi isto?!

Passas por mim, agora, e nada me insinua
Ser a tua presença o derradeiro elo
Que me prendia à vida. - E a vida continua!
E tudo, como outrora, (o sol, o mar, a lua...)
Mesmo sem ti, é belo!

Como havemos de ter, nos outros, confiança?
Que humano sentimento a nossa fé merece?
De que servem, na vida, os ideais e a esperança,
Se o próprio Amor, - como os brinquedos, em criança -,
Tão cedo, para nós, perde o encanto e esquece?!


Carlos Queirós

2.5.08


Aurora


A poesia não é voz - é uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalpável dá figura
ao sonho de cada um, expectativa
das formas por achar. No verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
E aos homens um sentido que não há
nos gestos nem nas coisas:

vôo sem pássaro dentro.


Carlos Queirós

6.4.08


Varina


Ó Varina, passa,
Passa tu primeiro…
Que és a flor da raça,
A mais séria graça Do pais inteiro!

O teu vulto seja
Sonora fanfarra,
Zimbório de igreja!
Que logo te veja
Quem entra na barra.

Lisboa, esquecida
Que é porto de mar,
Sente a sua vida
Reconstituída
Pelo teu andar.

Dá-lhe a tua graça
Clássica e sadia,
Ó Varina, passa!
Na noite da raça
Teu pregão faz dia!

Vê que toda a gente
Ao ver-te, sorri.
Não sabe o que sente,
Mas fica contente
De olhar para ti.

E sobre o que pensa
Quem te vê passar,
Eterna, suspensa,
Acena a imensa
Presença do Mar!


Carlos Queirós


26.3.08


Amizade



De mais ninguém, senão de ti, preciso:
Do teu sereno olhar, do teu sorriso,
Da tua mão pousada no meu ombro.
Ouvir-te murmurar: - «Espera e confia!»
E sentir converter-se em harmonia,
O que era, dantes, confusão e assombro.


Carlos Queirós




Adágio


Repouso a minha fronte
Dorida, no teu peito:
E o meu bem-estar é feito
De não ter horizonte.

Nela sentindo, leve,
A tua mão passando,
Fico entresonhando
O derreter da neve...

Que translúcido vago
Meu suave esquecer

No teu último afago...
- O meu anoitecer.

Nada hoje me peça
O teu querer-me: deixa
Que tão breve adormeça
Como a tarde se fecha.


Carlos Queirós


12.3.08

Lar de papel



Eis que regresso e vos pergunto:

Virei modificado?

Mais simples? mais humanizado ?

Ou serei para vós como um defunto

Inutilmente ressuscitado?

Perdão, se venho sem loucura!

Deveria, decerto, regressar

A correr, a gritar, a suar, a sangrar...

E com um brilho no olhar

(O brilho de quem acha o que procura).

Não trago o som da vaga que rebenta,

Mas secretos marulhos ciciados,

Sonhos ainda quentes da placenta.

- nem grandes penas minha mente aumenta,

Como fazem, à volta, os exilados.

O meu lar de papel inda está quente?

Quanta vez a poesia diz à gente,

Como a vida aos mendigos: Paciência!...

Mas maior é a dor de quem pressente(*)

Que ninguém deu p’la sua ausência.

Ah, que este simples alibi: Andei,

Por onde tanto sofre o servo como o rei,

Humanamente vos faça

Perdoar-me esta mordaça

Com que parti e voltei!


Carlos Queirós

9.3.08


Desaparecido


Sempre que leio nos jornais:
«De casa de seus pais desapar’ceu...»
Embora sejam outros os sinais,
Suponho sempre que sou eu.

Eu, verdadeiramente jovem,
Que por caminhos meus e naturais,
Do meu veleiro, que ora os outros movem,
Pudesse ser o próprio arrais.

Eu, que tentasse errado norte;
Vencido, embora, por contrário vento,
Mas desprezasse, consciente e forte,
O porto do arrependimento.

Eu, que pudesse, enfim, ser eu!
- Livre o instinto, em vez de coagido.
«De casa de seus pais desapar’ceu...»
Eu, o feliz desaparecido!


Carlos Queirós

22.2.08

Flor sem haste



Menina pobre, eu venho agradecer-te

Aquele sorriso bom que me inspiraste,

Quando te vi na rua e julguei ver-te

À flor dum rio, como flor sem haste.

Balouçavas as mãos, como quem vai

Numa estrídula marcha militar.

E um laço nos cabelos, cai-não-cai,

Fugia do compasso, a ralentar.

Passavas pelas montras, como se

Todas as coisas conhecesses bem;

Ou, para alguma teres, pensasses que

Bastaria pedi-la à tua mãe.

Séria. – Somente em teu olhar brilhava

Uma alegria de quem viu no céu

A nuvem mais bonita que lá estava

E o anjo que atrás dela se escondeu.

O que os outros pensaram dos teus modos,

Que importa? Nem teu nome ou tua idade.

Eu venho agradecer-te por nós todos

Essa lição de naturalidade.

Que tu nos destes, ó fresca flor sem haste,

À flor da rua, como á flor dum rio.

- Menina pobre que por nós passaste,

Que tanta gente olhou e ninguém viu.


Carlos Queirós


17.2.08


Infância


Chamo
a cada ramo

de árvore

uma asa.


E as árvores voam.


Mas tornam-se mais fundas

as raízes da casa,

mais densa

a terra sobre a infância.


É outro lado

da magia.


Carlos Queirós


10.6.07


Conceito


Na taça o vinho que espumando
Tanto parece
Leva-se à boca… e é já metade.
- Assim o amor sonhamos, quando
Nos amanhece
A realidade.


Carlos Queirós