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11.9.10

Da última ceia


Faltou Jesus nessa noite agoirenta

Embora as iguarias e demais apóstolos
Sem os trinta dinheiros e o beijo fatal
ninguém se atreveu a tocar no pão

Não se podia alimentar a lenda
sem as pupilas incandescentes
do tal judas o traidor

Judas bode expiatório
da sacrossanta impunidade
Judas
pólo de irrevogável inclemência
do ideário cristalizado

Judas será Judas
Quer ele queira quer não
e a essência das coisas dogmatizadas
deve aspergir sobre o medo inteiro
dos que aprenderam a soletrar assim

E há depois também as conveniências
dos que pintam
dos que vendem
dos que sobretudo compram
últimas ceias pelo mundo fora

Ah Judas traiu mais uma vez
eis o que sobra na mesa posta
não haverá ceia por esta noite
e Cristo apesar de Cristo e milagreiro
passará fome como um simples mortal

Como um desses milhões de famintos
que dão de comer a quem não tem fome

E assim chagados
ámen para todos os pacientes

Porque nós dizendo não
alimentaremos a revolução

Rui Nogar
Moçambique

28.7.10

Ianques


DEPOIS DE HIROXIMA
DEPOIS DE VIETNAME
DEPOIS DE

Piores
Muito piores
Que Átila o tal
Que por onde passava
O capim diziam que secava
Átila o bárbaro
Como adjectivado nos foi
Quando meninos coloniais
Nos ensinaram de Portugal
A História Universal

Não houvera ainda Hiroxima
Não houvera ainda Vietnames
Não houvera ainda

Foi depois oh foi depois
Muito depois que sangrou Hiroxima
Que sangraram Vietnames
E de Átila
O Mundo se recordou

Mas de Átila porquê

Atila não
Que muito piores que ele
Eles o foram

Muito piores
Que Átila o tal
Que por onde passava
O capim diziam que secava

Oh sim
Muito muito piores os ianques
Que por onde passam
Chewingamizando-se endolarados

Cresce o capim
Onde havia trigo
Semeiam-se escravos
Onde nasciam homens
Colhem-se cinzas
Onde cresciam crianças

Oh sim
Bárbaros são eles
Os ianques

Atilas elevados
À potência imperial

Rui Nogar
Moçambique

5.6.10

De antes que expirassem os moribundos


As balas doem companheiros

Não a dor física
Do chumbo percutido
Que o ódio calibrou
No almofadado sossego
Dum gabinete qualquer
Não
Não a presença agónica
Dessa infalível certeza
Que irredutível se insinua

Nas fracções de segundo
Que os séculos devoram

As balas doem sim
O tempo que nos faltou
Para salvar os companheiros
Nossos velhos companheiros
De novas humilhações
Novas rotas de cacau
Cacau oiro e marfim

Novos escravos a leiloar
Nos areópagos da hipocrisia
Novos deuses crucificados
Na subversão das micaias
Que a nossa África abortou

Oh as balas doem sim irmãos

As balas doem


Rui Nogar
Moçambique

28.3.10

Da fruição do silêncio



Tratávamos o silêncio por tu
Dormíamos na mesma cela
Acordávamos do mesmo sono

Cada sílaba audível
Completamente nua
Feria dum segundo sénticfe.
O palato hipertenso
Da fria cela dezanove

Farrapos de ambiguidade
Pendiam pelas arestas
Das mais afoitas vogais

Ninguém pressentia
No gume acerado
Da quase indiferença
Que o silêncio aparentava
O perfeito sincronismo
Das sílabas dispersas
Pêlos tímpanos de cada um

Nada sabíamos de nós próprios
Além da angústia lacerante

Coagulando-nos um a um
Nos limites da expectativa

E no écran memorial
Milhões de imagens se degladiando

Era o silêncio devorando o silêncio
Era o silêncio copulando o silêncio
Era o silêncio assassinando o silêncio
Era o silêncio ressuscitando o silêncio

Oh o silêncio o silêncio
Maldito silêncio colonial
Fuzilando-nos um a um
Contra as paredes da solidão

Oh o silêncio o silêncio
Maldito silêncio imperial
Sepultando-nos um a um
Sob os escombros de Portugal


Rui Nogar
Moçambique

24.12.09

...quando aconteço me dando em poemas



...quando aconteço me dando em poemas
julgo-me adúltero já doutros poetas


as mesmas palavras com que me venço
são aquelas que a qualquer se rendem

e o ritmo em que me sego e me colho
vem já do berço da comum sementeira

sei lá quantos outros em mim respiram
quantos eus por aí germinam

e já nem sequer me intimidam
nos versos antes de mim mesmo devassados
outras cancelas já velhas de inspiração

quero-me até cada vez mais comungado
na subtil reconquista de nós próprios

só me repugna e me atormenta
a íntima heresia involuntária

de me ver traído crucificado
num milímetro que seja
de cumplicidade memorial


Rui Nogar
Moçambique

24.2.09

e desde já perante vós me penitencio


e desde já perante vós me penitencio
oh poetas e amantes
que meus versos decantarão
para que saibam agora todos
nos limites deste poema ainda
que nada falece da minha lavra
que minhas ideias e meus escritos
mais vos pertencem que a mim próprio

e ainda vos digo ora também
que lúcido e pleno me devolvo
nesta humilde entrega total

para que libertem os meus poemas
em milhões de outros poetas


Rui Nogar
Moçambique

7.1.09

Obrigações Poéticas




As pedras agonizam
Nas minhas mãos

Já nada resiste
às poéticas implicaçõe
Que me obrigam a dar vida
Aos objectos mais imprevistos
Que subitamente impressionados
Me cinturam
E me subjugam
E me libertam
As pedras agonizam
Nas minhas mãoes
As pedras agonizam
Nas minhas mãos
As pedras agonizam
Nas minhas mãos
Porque nelas impunemente
Nelas apenas pontificava
Este silêncio inaudível
Mas palpável e dissolvente
Este silêncio amladiçoado
Gerações e geraçõe
De poetas e guerrilheiros
Que me partiram dolorosamente
Na lucidez plena
Deste império de solicitações

Oh as pedras agonizam
Nas minhas mãos
Para ressurgirem
Uma a uma reanimadas
No fluxo dialéctico
Da minha propria inspiração
E assim as domino e comprometo
Assim as devolvo comungadas
À mais poética intimidade

E as pedras oh camaradas

As pedras então se reacendem
Nas mãos de qualquer um


Rui Nogar
Moçambique

6.1.09

Elegia a mamana Isabel

[MAMANA.jpg]
Que tinha 56 anos quando morreu António Caetano


Os jornais o disseram
morreu António Caetano
velhísisimo velho colono.
Lutou por Moçambique
no tempo do Gungunhana.
Lutou por Portugal
durante a Grande Guerra.
Lutou e venceu.
Só agora foi vencido: morreu.

Os jornais o disseram
mas eu sei ah! dolorosamente eu sei
quem morreu não foi ele
foi maman Isabel

quarente e dois anos à sombra
da modesta reforma
do velhíssimo velho colono
esboroaram-se naquele dia

quarenta e dois anos em que foram dois
dormindo comendo esperando
na frágil e velha cabana
do velhíssimo e velho colono
senhor António Caetano
quarenta e dois anos
de ajuda carinho compreensão
quarenta e dois anos
de luta desespero resignação
quarenta e dois anos

ah! quarenta e dois anos se foram
quando morreu António Caetano
velhíssimo velho colono.

Rui Nogar
Moçambique

20.11.08

Mensagem da Machava





I

tudo ganhou novos ângulos novas luzes
é mais volátil é mais livre o voo das aves

flores lilases nos gostos mais simples

o amor é tão fácil como o sorriso das crianças
o amor é tão puro como o sémen das chamas

ah sinto-me estrada fertilizando
milhões de passos ao nosso encontro

II

reparem camaradas na minha ausência
como ela se povoa de novas estradas

as palavras são mais precisas reinventadas

servem todas uma a uma
as distâncias que nos separam

e apesar das grades dos cães-polícias
sinto-me cada vez mais perto de vós.


Rui Nogar
Moçambique

7.9.08

Nova Dimensão


Esta borboleta
Que volitando vai
De cama em cama grade a grade
De não-penses-mais
A um-dia-hás-de-sair
Não é uma borboleta vulgar

É sim uma borboleta
Borboleta ainda
Que um homem nesta prisão
Jurou libertar um dia
Para um voo universal
Do ciclo deste poema
Nas praças desta nação

É uma borboleta sim
Que ela aprendeu a amar
Em cada nova tentativa
De profundas metamorfoses

Sim
Borboleta política
Casulada seis meses
Na cela número três
Na Penitenciária Industrial
Da Colónia de Moçambique…



Rui Nogar
Moçambique

22.6.08

Da cumplicidade memorial ou o receio de plagiar


quando aconteço me dando em poemas
julgo-me adúltero já doutros poetas

as mesmas palavras com que me venço
são aquelas que a qualquer se rendem

e o ritmo em que me sego e me colho
vem já do berço da comum sementeira

sei lá quantos outros em mim respiram
quantos eus por aí germinam

e já nem sequer me intimidam
nos versos antes de mim mesmo devassados
outras cancelas já velhas de inspiração

quero-me até cada vez mais comungado
na subtil reconquista de nós próprios

só me repugna e me atormenta
a íntima heresia involuntária

de me ver traído crucificado
num milímetro que seja
de cumplicidade memorial

e desde já perante vós me penitencio
oh poetas e amantes
que meus versos decantarão
para que saibam agora todos
nos limites deste poema ainda
que nada falece da minha lavra
que minhas ideias e meus escritos
mais vos pertencem que a mim próprio

e ainda vos digo ora também
que lúcido e pleno me devolvo
nesta humilde entrega total

para que libertem os meus poemas
em milhões de outros poetas


Rui Nogar
Moçambique

6.5.08

Ainda e sempre Hiroshima




crianças colhiam rosas
do alcatrão amolecido pelo sol

rosas de antes de agosto
seis
mil novecentos e quarenta e cinco

eram então fáceis e naturais
a escultura

o ar livre

o sol e as crianças


foi quando a paisagem
oito horas e quinze minutos
bruscamente violentada
oito horas e quinze minutos
transfundiu-se.....em vergonha
em memória

em ódio

que não se apaga jamais

ah.....irmãos.....que nos resta
que nos pode restar ainda
duma paisagem adubada
com excrementos de granada

em .......Hiroshima
houve crianças colhendo rosas
do alcatrão amolecido pelo sol


Rui Nogar
Moçambique

28.3.08

Na zona do inimigo



as instruções foram bem precisas
todos nós as compreendemos
camaradas

“permanecer no interior do país
cumprindo tarefas que vos daremos

guardar o santo e senha
que de Dar-es-Salaam vos irá
revelar a cada um
as fronteiras da humilhação
e depois a luta e a conquista
de novas zonas libertadas”

as instruções foram bem precisas
todos nós as compreendemos
camaradas

e aguardaremos ansiosamente
o mensageiro que já tardava


Rui Nogar
Moçambique

14.3.08

Os 2 primeiros poemas da ipaciência




I

Tatuagens de lua
no corpo quente
da terra-mãe

e assim nua nua
no leito vermelho
virginal ainda
ela espera a semente
que tarda a chegar

que tarda a chegar

II

Que venham
mas não de braços cruzados

aqui amigos
o sexo vermelho da terra
lateja de febre e de cio

é preciso saciá-lo
e depressa

que venham
sim que venham
mas repito não de braços cruzados

aqui amigos
aqui
a terra fenece
na fome de arados
que tardam em chegar

que tardam a chegar

ah! que tardam tanto a chegar


Rui Nogar
Moçambique

17.2.08

Poema do beber no antigamente


Poema do beber no antigamente
dobro a esquina da memória
a mais próxima dos amigos de então

e ali fico
sob a luz que no poste
me derrama em mil sombras
que uma a uma reconheço

o que fui o que sou
o que um dia quiseram que eu fosse
mas não fui
o que a esquina da memória dobrou
e no poste sob a luz se inspirou

sou eu não sou
na dialéctica da vida
fui aquele que nunca foi
sou aquele que sempre será

assim
a beber no antigamente
ficou-me a sede
do eternamente


Rui Nogar
Moçambique

13.1.08

Xicuembo


eu bebeu suruma
dos teus ólho Ana Maria.
eu bebeu suruma
e ficou mesmo maluco

agora eu quere dormir quere comer
mas não pode mais dormir
mas não pode mais comer

suruma dos teus ólho Ana Maria
matou socego no meu coração
oh matou sossego no meu coração

eu bebeu suruma oh suruma suruma
dos teus ólho Ana Maria

com meu todo vontade
com meu todo coração

e agora Ana Maria minhamor
eu não pode mais viver
eu não pode mais saber
que meu Ana Maria minhamor
é mulher de todo gente
é mulhar de todo o gente
todo gente todo gente

menos meu minhamor


Rui Nogar
Moçambique