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13.4.11

A natureza morta numa casa



A mão que embala o mundo traz ao colo
a música de frases tenebrosas
a arder na minha boca. A língua fala
de tudo o que não sei: palavras rasas
entre lábios sem alma, que revelam
a natureza morta numa casa
onde a luz fica acesa em cada sala
até de madrugada. Tudo é belo
quando a vida mal vibra e mal nos pesa,
quando o silêncio abre as suas asas
sob o divino hálito que engole
o aroma das rosas.


Fernando Pinto do Amaral

7.2.11

Quando já não há nada


Quando já não há nada
absolutamente nada pra dizer
e cada dia te parece apenas
uma longa e inútil sequência
de vinte e quatro horas vazias

Quando uma folha de papel
é um deserto branco já sem rosto
um firmamento sem constelação
uma página nua, uma página
muda
há dois rápidos olhos que te falam
desde sempre da terra prometida

Consegues fixá-los Não tens medo?
Vê como arde súbito o seu gelo
no fundo das pupilas
e não hesites – rouba essa vertigem
ao coração da noite
porque às vezes não há outra saída
para algumas palavras que ainda podem
ser um arco uma flecha
perto do alvo que ninguém conhece

Fernando Pinto do Amaral

19.1.11

Naufrágio


Erraste muito tempo sem saber
quantos anos durou dentro de ti
a primavera Nada
nessa água te lava já o rosto
ou que deles resta submerso
nas correntes marítimas da morte
como líquido espectro ou colorida
anémona A memória
mascara pouco a pouco essas imagens

Erraste sem saber qual a matéria
da tua vida O fogo
acendeu hoje a casa do teu corpo
tão cedo arruinado e tu naufragas
nessa doce catástrofe
na espuma desse mar Qual o instante
em que o verão se transforma no outono
se o arrepio da noite quando chega
parece ainda um luminoso dia?


Fernando Pinto do Amaral

13.1.11

Última sombra na memória



Apagaram-se as luzes. Na memória
vibra a última sombra, a solidão
de um anjo cego abrindo pouco a pouco
os olhos. Desta noite
nascem todas as noites de quem fala
em silêncio e afoga
as suas dores no sangue incandescente
de uma estrela já morta, a cintilar
sob escuros escombros, entre sonhos
ainda por viver. Em cada alma
escorre um fio de mercúrio, essa lágrima
anunciando o paraíso, algures
no interior da treva.


Fernando Pinto do Amaral

20.12.10

Lição



Quiseras que este mundo te ensinasse
uma palavra nova,
uma gota de luz que atravessasse
os corações de toda a gente,
o seu coro de espectros dissonantes,
o corredor tão escuro onde se abriga
o princípio do medo,
a tua alma em pânico.

Fernando Pinto do Amaral

30.11.10

My Funny Valentine



Cheguei a casa há pouco e amanhã
celebrarei contigo pla primeira vez
esse dia que alguém convencionou
ser para os namorados: eu e tu,
dois seres quase sonâmbulos,
afogados em histórias mal cicatrizadas
que extravasam ao longo de conversas
plas estradas nocturnas por onde fugimos
da vida que nos dói: velhos amores
refulgindo na tua memória,
na minha fantasia que os volta a viver
em ti, por ti, como se também eu
ressentisse na pele o sabor desses beijos
esvaindo-se no tempo, que lhes toca
ao d eleve, com lábios de veludo,
e os arrasta num caudal de espectros,
de vagas silhuetas, na penumbra
que foi a minha vida até chegar a ti.

Fernando Pinto do Amaral

28.11.10

Podes ficar aqui?


Podes ficar aqui?

Não vás embora,
precisarei de mais alguns minutos,
horas, dias, semanas, meses, anos,

eternidades para te esquecer…

Fernando Pinto do Amaral

28.9.10

Segredo


Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projetou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome - essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração

Fernando Pinto do Amaral

1.5.10

Eco

Impuls Art Print

É mais fácil partir quando o silêncio
transpõe a tua voz.
Mais simples celebrar a tão efémera
certeza de estares vivo.

A música do ar esvai-se nas sombras,
tu sabes que é assim,
que os dias correm céleres, não tentes
perseguir o seu rastro - repara
como em abril as aves são felizes.


Sê como elas: não perguntes nada,
deixa que o sol responda à flor da tarde
e esquece-te do mundo.

Fernando Pinto do Amaral

1.2.10

Tenta ler outra vez



Tenta ler outra vez. Não te apetece
voltar à febre alheia, à superfície
frontal da madrugada? Cada página
destapava outra vida, destilando
o veneno da esperança, a invenção
de um jogo mais que jogo, para lá
do lume que gritava enquanto ardia
na bola de cristal. Ainda conheces
o assombro ou a doença a que chamavas
pensamento? Regressa, por favor,
não te escondas na montra dos sentidos,
no vão sabor do corpo. Não te agrada
o abraço das estrelas quando nascem?,
a rota universal do labirinto?

Fernando Pinto do Amaral

11.1.10

Elegia de Lisboa



«Nas nossas ruas, ao anoitecer»,
abre-se num olhar a pena errante
de quem se ilude em passos vagarosos,
em mais um jogo incerto de cem luzes
sob este céu tão baço. Como sempre
os mudos automóveis sobem, descem
ruas e ruas rumo a outras ruas
polvilhadas de gente que regressa
sem ter partido — insectos ondulando
ao som das lentas horas fatigadas,
rostos esfarrapados de trabalhos
inúteis como a tarde que se entrega
às doces mãos secretas do crepúsculo
vibrante no declive dos telhados
em degraus sobre o Tejo. Devagar
cola-se ao espírito a membrana escura
dos sonhos que perdi ou que pedi
há tantos anos à eternidade
e agora se dispersam na colmeia
das pequenas janelas reacesas,
no bafo das famílias indiferentes
no seu «tinir de loiças e talheres»,
suspensas de écranzinhos onde vêem
outras famílias e outras indiferenças
até ao infinito. As sombras crescem
quando a lua aparece e pouco a pouco
a solidão retoma os seus direitos,
devora o que ainda resta do azul
e eu vou descendo a pé, já transformado
num perverso turista acidental
e condenado a «combater em vão
o velho tédio» ocidental, em bares
onde reagem faces conhecidas
em acenos voláteis que se cruzam
com esse aroma surdo e espesso e dócil
das vozes que por vezes me esvaziam
qualquer recordação. Bairro nocturno,
confundo os teus caminhos-labirinto,
os nomes das vielas inconstantes
e ao percorrê-las «temo que me avives
uma paixão» recente, a esvoaçar
ainda não defunta, mas talvez
moribunda por entre a marabunta
que vai enchendo, enxameando as caves
onde se compra e vende cada rosto
e onde mergulho cego e surdo e fico
senhor da sua imagem, de repente
unida às gargalhadas tão ingénuas
das viciosas bocas florescendo
na treva, procurando novas bocas
algures. Cá fora, a verde camioneta
recolhe as sensações de mais um dia
exausto. Recomeço o meu circuito,
arranco e desço mais um pouco, até
à zona antigamente industrial,
aos pálidos felizes contentores
sob a penumbra imensa dos guindastes
quase irreais. Alguns amigos entram
em armazéns de espuma onde exercito
os fúteis bocejantes sentimentos,
a mais falsa alegria, a peregrina
febrícula do espírito embrulhado
em whisky ou nas falas transparentes
de alguém que por acaso eu poderia
talvez amar - «I'm so crazy for you!» -,
mas não há «nunca nada de ninguém»,
só esta bílis negra que me espera
à saída dos últimos lugares
acompanhando agora o rio que alastra
e se mistura à crónica euforia
de uns «tristes bebedores» que mal trauteiam
frágeis franjas de música boiando
no seu vazio que é também o meu
quando parto agarrado a um volante
e na aragem dos vidros entreabertos
saboreio um cigarro que se evola
só para ti, Lisboa. Sempre quis
pulsar ao mesmo ritmo que tu,
transpor este deserto e conseguir
em golfadas de versos libertar
o encarcerado sopro do teu peito —
— cidade atravessada de armadilhas
traindo e atraindo cada gesto
das poucas silhuetas ainda vivas
sob os pilares da ponte. Ó vã Lisboa,
cai sobre mim o peso dos teus sonhos,
«quimera azul» da minha dor sem pátria,
e entre dois semáforos suplico-te:
apaga do meu corpo o sobressalto
dos seres de carne e osso, dessa estranha
realidade apenas virtual
que me despe de todos os fantasmas
e fica projectada no silêncio
das cinco e meia, enquanto vou seguindo
a «correnteza augusta das fachadas»,
as pombalinas rectas, um cortejo
de iluminadas cinzas. Uma estrela
(ou talvez fosse um avião da América?)
parece ter sorrido para mim
como se finalmente esta cidade
me confiasse a rota imperceptível
das suas ondas a perder de vista -
- «marés de fel, como um sinistro mar»,
caudal por onde singro e me despeço
do sangue de quem solta, solitário,
algum suspiro em quarto derradeiro
até ser minha a cor da tua voz,
ó morte a que abandono luz e sombra,
o grito do meu nada ainda em fuga,
mas de súbito em paz entre os teus braços.

Fernando Pinto do Amaral

16.12.08


Cai a noite - está frio
e súbito perpassa
por nós um arrepio
a anunciar a graça

de sermos talvez mais
do que simples humanos
decifrando sinais
que não passam de enganos

Cai a noite serena
sobre a nossa agonia
e repete-se a cena
que de novo inicia

uma história de amor
entre os homens e alguém
talvez muito maior
talvez homem também

Cai a noite e eu espreito
o que em silêncio brilha
no escuro do meu peito
no olhar da minha filha

É uma antiga promessa
a que ninguém responde
uma luz que atravessa
este lugar sem onde

Cai a noite indiferente
às imagens do nada
Cai a noite e alguém sente
que já é madrugada

Fernando Pinto do Amaral

12.9.08

A única resposta


Jantáramos os dois pela primeira vez:
amizade ou amor, pouco interessava
desde que alí estivesses. O meu mundo
ia mudando à medida do teu,
a cada gesto vão da vã conversa
antes que fôssemos pIo Bairro Alto
e enfim o Lumiar, a tua casa.
Eu podia contar uma história, dizer
como aquele rosto atravessava o meu -mas não,
«nada de narrativas, nunca mais».
Apenas a certeza de estar morto
há tanto tempo, que já não me lembro
de cor nenhuma dos teus olhos. Não,
já não existe o dia nem a noite
e este silêncio deve ser talvez
a única resposta. É bem melhor
ficar à espera de que não regresses.


Fernando Pinto do Amaral


12.8.08

Segredo


Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome - essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração.

Fernando Pinto do Amaral

4.5.08


Apagaram-se as luzes. Na memória
vibra a última sombra, a solidão
de um anjo cego abrindo pouco a pouco
os olhos. Desta noite
nascem todas as noites de quem fala
em silêncio e afoga
as suas dores no sangue incandescente
de uma estrela já morta, a cintilar
sob escuros escombros, entre sonhos
ainda por viver. Em cada alma
escorre um fio de mercúrio, essa lágrima
anunciando o paraíso, algures
no interior da treva.


Fernando Pinto do Amaral


2.5.08


Sombras


A meio desta vida continua a ser
difícil, tão difícil
atravessar o medo, olhar de frente
a cegueira dos rostos debitando
palavras destinadas a morrer
no lume impaciente de outras bocas
anunciando o mel ou o vinho ou
o fel.

Calmamente sentado num sofá,
começas a entender, de vez em quando
os condenados a prisão perpétua
entre as quatro paredes do espírito
e um esquife negro, onde vão desfilando
imagens, só imagens
de canal em canal, sintonizadas
com toda a angústia e estupidez do mundo.

As pessoas – tu sabes – as pessoas são feitas
de vento
e deixam-se arrastar pela mais bela
respiração das sombras,
pla morte que repete os mesmos gestos
quando o crepúsculo fica a sós connosco
e a noite se redime com uma estrela
a prometer salvar-nos.

A meio desta vida os versos abrem
paisagens virtuais onde se perdem
as intenções que alguma vez tivemos,
o recorte obscuro de perfis
desenhados a fogo há muitos anos
numa alma forrada de espelhos
mas sempre tão vazia, sem abrigo
para corpo nenhum.


Fernando Pinto do Amaral


20.4.08



Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome - essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração.


Fernando Pinto do Amaral

13.4.08


Praia


Feliz, quem sabe, o vento. Sem memória,
beijando-me nos lábios, ele abraça
o meu destino às cegas na paisagem.
É sempre nesse instante que regresso
à poalha do céu onde começa
talvez a maldição, talvez o encanto
de invocar-te em silêncio. Porque, eu sei,
entre palavras morre a cor dos sonhos,
o vão pressentimento de estar vivo.

Feliz talvez o vento e no entanto,
arrasta ainda areia e vagas vozes
na praia ao abandono. A luz da tarde
encobriu-se de névoa, só o mar
ficou perto de mim - agora é simples:
as ondas trazem novo o teu sorriso,
movem o seu abismo nos meus olhos,
mas lágrimas nenhumas vão salvar-me
o corpo, a alma, as cinzas, esta vida.


Fernando Pinto do Amaral

7.3.08


Sábado


Perto do fim da noite cresce o fogo
em gestos de oiro e prata, e ainda ecoa
a mais feliz de todas as canções.

Sob trevas se movem sempre
os corpos desejados, os que vestem
de negro a morte e os seus anjos.

Tão belo e miserável esse reino,
o choro de alguns risos entre o álcool
e os lábios prometidos que não vêm
até junto dos meus. Será talvez
um destino que falha sem sabermos,
mas é melhor assim - estou desarmado,
sem forças já para prender um rosto,
o seu breve esplendor, cruel disfarce
para alimento de fáceis paixões.

De que serve o amor? Para quê
abandonar a vida em falsas mãos?
Perto do fim da noite cresce o fogo
E são às vezes meus os seus sinais.


Fernando Pinto do Amaral

14.2.08

Amores proibidos

em memória de David Mourão-Ferreira


Onde está quem amamos quando amamos
outro corpo de fogo em movimento?
Pra que abismo corremos pra que enganos
quando as promessas são poeira ao vento?

De que matéria alheia mal tentamos
fugir quando a verdade mora dentro
de alguém a cujo céu nos entregamos
numa noite de sonho e de tormento?

Ainda somos humanos se traímos
por instinto um amor de tantos anos
e só àquele instante obedecemos?

Ainda somos humanos? Ou seremos
a febre que há no sangue quando vimos
de súbito morrer num corpo e vamos
em busca do inferno que merecemos?

Talvez por um momento então sejamos
sonâmbulos fantasmas do que fomos
reflectidos num espelho que não vemos

Ou talvez nesse corpo descubramos
a memória da alma que perdemos
pra sempre no momento em que transpomos
a fronteira dos gestos quotidianos
e ao sabor de um desejo destruímos
todas as intenções todos os planos,
em nome dos prazeres mais supremos
na noite em que deixamos de ser donos
do nosso próprio corpo e abandonamos
angústias e remorsos e partimos
em busca da manhã que não sabemos

Onde está quem amamos quando somos
mais do que humanos? Mais? Ou muito menos?


Fernando Pinto do Amaral