que no ar balança,
pela praia dança
a ligeira espuma.
Dançando se afaga
no alado bailar!
Pétalas de vaga, poeiras do mar...
E na dança etérea,
que imparável ronda!
Bafo de matéria,
penugem da onda.
"A poesia é o eco da melodia do universo no coração dos humanos." Rabindranath Tagore
De velho tronco cinzento,
Quando por ti perpassa e esvoaça o vento,
As tuas folhas cantam-nos baixinho
Desta maneira,
Devagarinho:
- «Eu dou azeite brando,
Que tempera e alumia;
Eu acendo a luz do dia,
Quando a noite vem tombando.
Em casa do pobre eu sou
O gosto do seu jantar...
Coitado de quem andou
O dia inteiro a cavar!»
Afonso Lopes Vieira

O vento é bom bailador
baila,baila e assobia
baila,baila e redopia
e tudo baila em seu redor
E diz às flores,bailando
-Bailai comigo,bailai!
E elas,curvadas,arfando,
começam,débeis,bailando
e as suas folhas tombando
uma se esfolha,outra cai
e o vento as deixa,abalando
-e lá vai!...
E diz às folhas caídas
-Bailai comigo,bailai!
No quieto chão remexidas
as folhas por ele erguidas
pobres,velhas ressequidas
~e pendidas como um ai
bailam,doidas e chorando
e o vento as deixa,abalando
-e lá vai!...
E diz às ondas que rolam:
-Bailai comigo,bailai
E as ondas no ar se empolam
em seus braços nus o enrolam
e batalham
e seus cabelos se espelham
nas mãos do vento,flutuando
e o vento as deixa,abalando
-e lá vai!...
Afonso Lopes Vieira

Ó meu jardim de saudades,
Verde catedral marinha,
E cuja reza caminha
Pelas reboantes naves...
Ai flores do verde pinho,
Dizei que novas sabedes
Da minha alma, cujas sedes
Ma perderam no caminho!
Revejo-te e venho exangue;
Acolhe-me com piedade,
Longo jardim da saudade
Que me puseste no sangue.
Ai flores do verde ramo,
Dizei que novas sabedes
Da minha alma, cujas sedes
Ma alongaram do que eu amo!
- A tua alma em mim existe,
E anda no aroma das flores,
Que te falam dos amores
De tudo o que é lindo e triste.
A tua alma, com carinho,
Eu guardo-a, e deito-a, a cantar,
Das flores do verde pinho
- Àquelas ondas do mar.
Como quem para ao fim de uma jornada
extenuado, exangue,e foi deixando
o seu sangue no pó da imensa estrada
por onde vinha há muito caminhando...
E sua vista, de chorar quebrada,
ao caminho que andou e vai botando,
e enfim reconheceu que andou pra nada
e para nada foi que andou penando...
Assim eu, que gastei o sentimento
pus nua a alma, e escrevi com sangue
o que em meus olhos a tua alma lê.
Pergunto ao fim do áspero tormento:
- alma que vais perdida e vais exangue,
pra que choraste e andaste... para quê?
Afonso Lopes Vieira