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11.1.11

Estrada de Fogo


Pedra a pedra a estrada antiga
sobe a colina, passa diante
de musgosos muros e desce
para nenhum sopé;

encurva, na abstracta encruzilhada;
apaga-se, na realidade. Morre
como o rastilho do fogo,
que de campo em campo aberto

seguia, e ao bater na mágica cancela
dobrava a chama, para uma respiração,
e deixava o caminho do portal
incólume e iniciado.


Fiama Hasse Pais Brandão

17.10.10

Roupa



Aquela saia roda
como o topo do moinho de pás,
o que em mim confirma agora
que o vento me reveste.

*

Quando depois do nascimento me vestiram,
a roupa então em mim resplandeceu.
Mas estava nua, sem cambraia
ou a memória simples dela nos sentidos.
Nua e solene, com a roupa alheia
em tomo do meu corpo. E ignorava
valor, matéria e as pompas
que entregam roupas e versos ao comércio.
Acreditava só que o gesto amado
de me cobrirem de panos ao nascer
seria a minha glória

*

O pequeno velo de roupa é
o da imaginação. Vestiram-me
para me velar, como janelas afloram
nas casas ou como a palha envolve
medas. As escassas vestes
nas montras eram também
sinais da imaginação. E a linha
nas mãos da costureira assim
imaginada era.

*

Tão devagar cosia pelo traço do giz
a máquina que os pés moveram balançando
quanto os meus olhos devagar seguiram
o traçado dos pontos e o meu espanto
de ver a ordem surgir dos riscos soltos.
O rosto atento caía sobre o pano
que pouco a pouco me tomava a forma
do meu corpo tocado pela luxúria
de tão belos cetins, veludos
inverosímeis e, como tudo o que
a memória gera, fontes de dores.

*

O tépido calor cobre-me
por fora de tules em flor.
As folhas do loureiro ridentes
assemelham-se ao meu vestido
de verde cassa. Agradeço, pois, às bocas
de parentes os nomes ditos.

*

Todas as roupas usadas
próprias do Verão são aquele
vestido único, porque me haviam dito
que ao entrar pelos olhos
ele me cobria de fulgor.

*

Com a saia de tobralco leve passei
entre as nossas hortas, águas do poço,
coisas da quinta tão diversas todas.
E amei cada um dos vários nomes,
e também as palavras especiosas
que na retrosaria designam o belo fio
e aquelas que me mostravam os tecidos
em sequências de alucinações novas.


Fiama Hassa Pais Brandão

9.2.10

Viver na Beira-Mar




Nunca o mar foi tão ávido
quanto a minha boca. Era eu
quem o bebia. Quando o mar
no horizonte desaparecia e a areia férvida
não tinha fim sob as passadas,
e o caos se harmonizava enfim
com a ordem, eu
havia convulsamente
e tão serena bebido o mar.

Fiama Hasse Pais Brandão

1.2.10

Do mar

Finestra Sul Golfo Art Print

Aqueles de um país costeiro, há séculos,
contêm no tórax a grandeza
sonora das marés vivas.
Em simples forma de barco,
as palmas das mãos. Os cabelos são banais
como algas finas. O mar
está em suas vidas de tal modo
que os embebe dos vapores do sal.

Não é fácil amá-los
de um amor igual à
benignidade do mar.


Fiama Hasse Pais Brandão

17.6.09

Canto marítimo da ria



De manhã o mar estende-se ao rés do Sol
banhamo-nos para cegar de luz
nadamos através do halo de calor.
Poder sentir a luz a escorrer junto à boca
dá-nos a humildade e a pacificação.
Um sopro mergulha no fluido da luz
de onde talvez brotou ao ser nascido
e é a minha alma que flutua
feita de moléculas de água.
Tudo em esplendor cintila, e imagino
que quando a alma de Heitor o abandonou
foi numa manhã ao rés do mar de Tróia
Tal como o Mediterrâneo este é um mar
parado sem o movimento, que é a onda
e o som, cingido entre os anéis da terra.
Tocou-me a água nos olhos extasiados,
seria esse o baptismo que ungiu
o meu dom das visões reais e irreais.
O mar é uma acha em brasa
que lacera uma das minhas faces,
por isso ofereci ao vento
a outra nas manhãs sombrias.
E dei o meu corpo à superfície lisa
que unia os quatro elementos,
ou seja a terra, o mar, o ar, o fogo
tal como quando os Gregos os pensavam.
Vendo as garças a voarem lentas
sobre os pequenos lagos ígneos
sei que se fossem comburentes
não voltariam ao solo brancas e quedas,
como quando ostentam o colo
entre os juncos das margens similares,
e de súbito intuo que a Natureza
trouxe as garças para os altos juncos
e me levou a mim ao raso mar
onde o meu corpo bóia incandescente
jazendo quando dorme, ou morre, ou nasce.
A minha juventude amou a manhã
sabendo que ambas as idades são iguais,
mas o corpo arde plano na água do fogo
enquanto o Sol se queima entre a terra e o ar,
e somente os filósofos metereologistas
souberam separar os elementos juntos
na Natureza visível e invisível.
Volto a banhar-me na Ria, no silêncio,
no ardor, no sonho, na volúpia
e termino o poema com o mesmo
fogo interior sorvido pela boca
do verso inicial no pleno mar.
Não só nesta praia a saudade de Heitor
me é trazida pelo fulgor do mar
como a de um jovem morto outrora
por Valéry, pelo Sol e por Fauré.
Tantos mil anos-luz da imagem
de Heitor estão depois do seu vulto
quantos do vulto do jovem morto
mais me separa a saudade da imagem.


Fiama Hasse Pais Brandão

29.11.08

Espraiar do Atlântico

Path Through the Corn at Pourville 1882 (autumn) Art Print by Claude Monet

A mim amante da onda arqueada o-
pala desgostou-me o mediterrâneo
denso. Saudade das sinusóides
e curvas rítmicas. O paradigma
das comparações que envolvem o seman-
tema mover-se. O atlântico, o que
não é aprisionado pelas margens?
Estará aquele outro mar conti-
do na imobilidade terrena? Gra-
dação infinita. Único conteúdo
expansivo. Princípio e fim
do meio-círculo (como na cabeça
do Purbachius). Sustân-
cia mais heterogénea. Manchas que
um amante da cor ocre vê na areia.


Fiama Hasse Pais Brandão

13.11.08

Sótão


Por interstícios das malas abertas de quando éramos
crianças gritam as bocas sem nenhum eco
das bonecas. Criaturas fictícias, escalpelizadas
e sem tintas, de ventre oco. Mas o mortal
lugar do coração está ainda a palpitar.
O bojo do peito de celulóide, como o meu,
pede-nos perdão pela saudade que nos devora.


Fiama Hassa Pais Brandão

10.11.08




Tantos poetas morreram, em minha vida,
antes de mim, não só no sangue ou só na carne,
mas na portuguesa língua.
Deles fica a obra que fizeram.
Todavia vocábulos, para sempre
insonoros, ou no futuro incriados,
demonstram que os poetas todos
morrem sempre mais na língua.

Fiama Hasse Pais Brandão

30.10.08

Da analogia no mundo

Estou de olho em ti...

Três cantores negros
com patas de aves, esguias,
assustadiços sempre,
esquivos mas fiéis,
não abandonam o Mundo,
presente em grande parte
naquelas árvores.

Três árvores e três cantores?
Ou apenas a ilusão
de que também as árvores
cantam, depois
de tanto amor?
E o mundo está
em três melros, hibiscos?


Fiama Hasse Pais Brandão

12.10.08

Sistema solar


Cada voz tem o seu contraponto
num ruído natural. Cada silêncio,
no silente espaço que rodeia, por vezes,
cada coisa. À beira do berço as bocas
percutem sobre a criança. Depois, no sono,
abrem-se como qualquer flor. Sobre
os cílios da adolescente tecem frases.

*

À beira do berço as bocas
percutem sobre a criança. Depois no sono
adensam-se como qualquer árvore. Sobre
os cílios da adolescente tecem frases.
Cada silêncio corporiza-se no espaço.
As coisas têm eixos e rodam
com ruídos diferentes do seu nome.
E o Sol tramonta entre vestígios,
além dos montes e vales e o mar.

*

E o Sol tramonta sobre as nossas casas
e os montes e vales e o nosso mar.
Quando um verso marca o lugar das coisas
elas aí ficam para sempre. O Sol
que perpassa em cumes e em cristas
nasce nas arestas serranas do nascente
e vai até ao mar em sete versos.

Fiama Hasse Pais Brandão

20.9.08


No Laranjal


Crescent Moon Oranges Art Print by Miles Graff

O caseiro tem um lugar cativo no laranjal,
que não é o da memória, mas o da suspeita,
tal como os lugares dos vivos. Por exemplo,
se tu estás, vejo-te porque suspeito
de que a tua presença veio. Suspeito de mim
porque te reconheci. E tão grande alegria
dão os vivos quanta os mortos,
quando, como o caseiro, pegam na enxada
ou na navalha, aparam um pequeno ramo,
para a enxertia. Tu meu amante morto,
vieste também, porque há tanto tempo suspeito
de que a tua presença, agora insubstancial,
não caberia nunca na memória. Fosses tu
um homem dos ofícios rurais, e ainda habitarias
os campos, não, nunca, na memória, mas aqui.
Ou tal como os outros mortos cuidadosos,
em corpo visto, na luz reconhecida,
nesta suspeita que receio do real,
como se eu tentasse entender uma pintura eterna.


Fiama Hasse Pais Brandão

12.9.08

Camélias


Quando sofro possuo a Natureza configuro
até à exaustão o recesso da rocha
involuntariamente em que imagino
o gorjeio. Escolho repleta de camélias
a vereda sem nenhum resíduo alheio
só o das imagens da flor de lótus
vim até à muralha. É um Museu

Romântico, no muro do musgo, no baixo-relevo
está o perfil egípcio, oiço o tenor,
o da sintonia, do regresso das expedições,
confundo o buxo das camélias com um labirinto
róseo.

Que figura de flor tem o sentido mais próximo
ou coevo?
O único hino, tanto o som o dissipa,
perde-se.
Era nítido o espaço rodeado pelo cedro,
pedra corporizada,
uma síntese no estado presente
do tempo do espírito.
Fiama Hassa Pais Brandão

16.8.08

Resposta


«Eu vinha para a vida, e deram-me dias»
vivos com os seus lugares e espaço.

Ontem nasci sem fim, e alimentei-me
nesta mesa que em duas se reparte.
Uma aba no mar, vagante à toa,
trouxe os sabores de ondas, de orlas.
Outra aba na terra mostrou-me as pedras
polidas, úberes, gastas. Pedras
densas que me encheram o ventre
e me criaram similar à Terra.
No mar tive cristais quebrados, jóias;
na terra, tão nítida poeira branca
que fundi as formas das flores visíveis.

E hoje é este olhar profundo,
deriva das imagens pelo mundo.

Fiama Hassa Pais Brandão

9.8.08

Na Rua das Mónicas


Nos meus vinte anos,
almoçar em casa de Sofia
era ouvir ferver em cachão, frigir
na cozinha, arfar a cafeteira da poesia.
Era ver a ama de Sofia,
e de todos os filhos, de muitos versos,
cuidar de muitas gerações de memórias,
no lar desses versos tão caseiros.
E era beber, ali, na mesa, uma água
que, mais do que a da torneira,
concitou o mar para cada copo.
Era olhar um rosto de coral
(o que exorciza as Fúrias, na cozinha)
um rosto de mar novo, de geografia.
Era escutar as palavras da boca
do vocábulo grego para a sabedoria
o que me confirma o poder dos nomes,
ao serem Verbo, sobre os seres e as coisas.
Era sentar-me, lado a lado,
no espaço irradiante da volúvel lareira,
no Outono apagada, na Primavera acesa,
e com o fogaréu alimentado
por papéis venais de outra política
(que não a da sua humanidade),
que a prudência mandava destruir no fogo.
Era entrar e sair pela porta das Mónicas,
a das mulheres congregadas
sob invocação da mãe de Agostinho,
o que para mim celebrava também
o amor da mãe, da velha ama, da Poesia.


Fiama Hasse Pais Brandão

4.7.08


Linda Inês, Inês de manto


Teceram-lhe a manto
para ser de morta
assim como o pranto
se tece na roca

Assim como o trono
e como o espaldar
foi igual o modo
de a chorar

Só a morte trouxe
todo o veludo
no corte da roupa
no cinto justo

Também como o choro
lhe deram um estrado
um firmal de ouro
um corpo exumado

O vestido dado
como a choravam
era de brocado
não era escarlata

Também de prato
a vestiram toda
era como um manto
mais fino que roupa.


Fiama Hasse Pais Brandão


2.7.08


Quando eu vir vaguear por dentro da casa
o abeto que cresceu no bosque, hei-de
ajoelhar no soalho. Todas as coisas
comunicam entre si a totalidade das suas formas.
A mão que vai surgir do abeto apontará para mim.

Tenho de despir as tiras de brocado que envolvem as veias,
as cadeias de ouro dos rins. Deixar
que as unhas longas da árvore passem
entre mim e o imo dos quartos interiores da casa.

Se essa figura imponente, a árvore, me reconhecer,
vou interromper o que escrevo, esperar ansiosa
atracção que a insónia desse vulto
há - de exercer sobre mim. Rodo
até à tontura da morte.
Torturo-me
até à alegria. Encontro na casa
o tema da despossuição e a agonia.

A pobreza antiga com que o corpo cai
para uma vala. Preso apenas às pérolas
que tinem nas orelhas. Dante deixou-nos resvalar,
com os cânones clássicos, como se o poema
fosse uma escada. É-o, quando as figuras austeras
da Natureza perseguem os mortais. Querem confirmar
a sua configuração. Querem ser
reais, quando se aproximam.
Vai para diante da minha face, ao fundo.
Vem dos recantos, onde já não é a silhueta volúvel
enovelada pelo vento, à janela. Com lentidão
arrasta a forma táctil até à passagem do poema.

Sou eu que me vergo ao domínio.
Que me poise a marca incandescente na testa.
Tocará na meninge como num cofre.
Aceito coroas para depor sobre mim.
Deixo os pés do abeto empurrar
com a biqueira violetas. A fragrância
delas leva-me a imaginar poemas
em branco. Depois de percorrer um longo encadeamento
de sílabas sou outra. Vejo assomar a natureza nua.

Fiama Hasse Pais Brandão

17.6.08

Perguntai ao muro


Muro, em que meditas,
ao longo da estrada, por estas quintas,
casas, ermos, entre paixões
de alma dos espectros
presentes e vindouros? E os vivos,
porque se escondem
por trás da tua fronte alta,
quieta, seca, que cobiça os astros,
sem saber que o teu corpo
de xisto corre, avança,
mas não pode soltar-se da Terra
e alcançar o Alto?


Fiama Hasse Pais Brandão

9.6.08


Canto de Orfeu


Pendurou no salgueiro a cítara
caminhou diante dos seus passos
sendo depois punido pelos Anjos.
Caminhou sempre para o futuro
mesmo olhando para trás na memória
e por esse futuro foi punido
pois levaria consigo a imagem viva.
Não era Eurídice aquela que o seguia
mas a sua face figurada
pelos olhos de Orfeu ainda capazes
de criar o modelo e a imagem.
Depois da morte ela ainda vivia
pronta para o prender em espelhos dúplices
e ele que amava nela o corpo, a alma,
o suor, o aroma, a linha dos dedos,
levou-a para sempre escendida
ao Tempo do Espaço depois do futuro.
Foi punido por Anjos ciosos
da sua ciência da Origem,
enquanto outros Anjos doces coroavam
aquele Filho que também levara
na memória dos olhos a figura
da Mãe, que todos os filhos levam em si.
Um terrível canto de lamento humano
Depois soou: "Che farò senza Uridice?",
com o som das vogais mais dolorosas.
Mas o sábio Orfeu deixou a lira
somente ser tocada pelo vento
quando o canto perseguia a imagem.


Fiama Hasse Pais Brandão

26.5.08

Às vezes as coisas dentro de nós


O que nos chama para dentro de nós mesmos
é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta.
Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar
e nos torna piedosos, como quem já tem fé.
Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida
pelo movimento, pela forma, pelo nome,
voltamos ao zero irradiante, ao ver
o que foi grande, o que foi pequeno, aliás
o que não tem tamanho, mas está agora
engrandecido dentro do novo olhar.


Para Maria de Lourdes Pintasilgo
em breve homenagem


Fiama Hassa Pais Brandão

10.5.08

Lisboa sob névoa


Na névoa, a cidade, ébria
oscila, tomba.
Informes, as casas
perdem o lugar e o dia.
Cravadas no nada,
as paredes são menires,
pedras antigas vagas
sem princípio, sem fim.

Fiama Hasse Pais Brandão