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27.1.11

A Bailarina




E então tu entras no poema
com as tuas mãos alongando
a ausência do teu corpo
esgueirado na margem
do meu espanto
e bato palmas.
Deixas-me entrar no teu palco
com o fito de te admirar apenas.
Aqui estou minha bailarina
nesta Andaluzia improvisada
sapateando uma noite de guitarras
e estas vozes entre palmas
que esvoaçam a minha solidão.
Vejo-te assim nos meus versos
tuas mãos africanas indianas árabes
tua comovente beleza
na cadência deste flamenco
nestas vozes ciganas tangendo-me
com as ocres cores de Sevilha
nos pátios da Ilha de Moçambique
onde tu bailas e voltas a bailar
e eu bato palmas de júbilo
no êxtase dos gestos
que acordam os sinais
que me lembram
a tua ausência.


Nelson Saúte
Moçambique

12.2.09

Joanesburgo




A solidão emprego ao galopar as cidades
desutilizo-a ao atravessar as ruas. O medo
nunca é o melhor dispositivo para decifrar
os estranhos e vagos nomes que as identificam.
Bastam-me as mãos nos bolsos para combater
o inesperado na esquina desconhecida.

Na Europa dizia-me amante das grandes cidades,
desafiava-as de peito aberto. Nem os atalhos
das prostitutas dos proxenetas e outros da espécie
me obrigavam a vestir os agasalhos do medo.

Tão longe de Lisboa, Madrid ou Londres.
Sem sair desta minha tão maternal África.
Assalta-me o medo da cidade. Eu que me
julguei urbano desde o minuto primeiro
que Maputo, com outro nome, de mim deu conta.

Nelson Saúte
Moçambique

6.12.08

Munhuana Blues



Lá nos arrabaldes da minha infância
a casa da Munhuana me não resiste apenas
também guardo ciosamente na memória
as histórias da minha avó Angelina
e mantenho o medo
da ameaçadora visita do Guiguisseca
anunciada na varanda da loja do Muchina
enquanto os miúdos do meu bairro
todos eles craques
desmentiam o talento do Eusébio.
Ali no Bairro Indígena eu ainda sou
aquele rapaz de calção e sapatilhas
- compradas numa daquelas lojas
dos monhés do Xipamanine –
correndo a toda a largura a rua do Zambeze
no dia em que prometeram
uma visita ao Jardim Zoológico.
O baldio que ficava à frente da minha casa
foi vítima de urbanização clandestina
e no lugar onde as meninas se despontavam
para os meus sonhos febris de vate desassumido
e vendiam badjias e matoritoris
reincide-se na ofensa à memória.
Naquele tempo minha avó reverberava o mito
esvoaçando as saias das moças nos bailes
e as calças bocas de sino dos rapazes do Chamanculo.
Foi ali que começou esta minha mania de amar o Brasil
nas vozes do Carnaval da avenida de Angola.
O samba da Mafalala também tinha batuques
e a folia Índica desta minha Bahia
marrabentando os acordes da tua viola.
Também cantei e bailei como esta noite
neste meu desavisado regresso ao Xipamanine
não só por culpa dos avatares do velho gramofone
e os discos de 45 rotações mas por imposição
da vocação da minha avó Angelina
que jamais enfrentou um palco.
Fica para contar aos meus filhos os talentos
dos que nos precederam. Minha avó agora não canta.
Na sua casa ex-madeira e zinco de precária alvenaria
ela deita-se no chão
de cimento queimado e conversa com os ancestrais
quase todos eles à sua espera em Ressano Garcia.
Tudo isto agora e sempre nesta noite de sábado
eu filho legítimo das bangas na geração dos anos 80
a dançar até amanhecer quando no dia seguinte
tinha folga na minha indesmentida profissão
de formador de bicha nas lojas do Povo
ou no talho da Eduardo Mondlane que abria as portas
já com a carne do Botswana esgotada.
Mesmo assim as nossas festas
com cervejas à pressão e coca-colas
compradas a muito custo
pelos nossos meticalizados bolsos
incompetentes para adquirirem as montras vazias
das cooperativas de consumo parecem ficção
aos olhos desta juventude.
Não muito longe do largo João Albasine
nestes anos todos de ausência da Munhuana
exilado lá para os lados da zona alta da cidade
quem regressa é aquele menino que eu fui
muito antes de conhecer o Alto-Maé dos chinas
quando a Polana era só e apenas
um vago e improvável aceno do futuro
e a Sommerchield adjectivava a quimera.
Agora meu velho João Domingos retorno
à minha infância entregue ao prodígio desta noite
de extenuado sábado nesta pista de dança
e no espanto deste incauto duelo com os velhos mitos.


Nelson Saúte
Moçambique

12.10.08

Marrabenta para Fanny Mpfumo


ao Zé Flávio Teixeira

Fanny Mpfumo cantava I love you so
eu era menino e nem sabia o que era tindjombo:
- ó a va sati valomo! –
mas já dizia hodi nos quintais contíguos
do meu Bairro Indígena.
Unga tlhupheque nkata que ouvia na rádio
por sobre o móvel da sala
na casa da minha avó
nomeava todas as mulheres que derrubavam
à passagem os meus inocentes e desprevenidos anos
ali na varanda do Muchina.
O king ya marrabenta era suposto
conviver conosco todos os dias.
Também ouvíamos Elisa gomara saia
nos tempos em que os Djambo 70 conjuravam
e o destino dos meus pais não era só
os míticos bailes da cidade de caniço.
O mufana que eu era também gostava
maningue do Gonzana e de todo o conjunto João Domingos
Massoriana no palato daqueles tempos.
Algumas vezes ouvia o João Wate
e outros que a memória não acautelou.
O Alexandre Langa foi mais tarde
que me empolgou – Rosa Maria.
Tínhamos atravessado
para lá do asfalto e alcandorados estávamos
na Polana onde inaugurávamos a nossa condição
de habitantes de fogos suspensos,
alcançados mais tarde em obscuras escadas
disputadas por bidões de água
acartados do jardim Tunduro.
Minha avó falava naqueles velhos anos
do Artur Garrido, conterrâneo lá de Ressano Garcia.
Mais tarde vi Fanny Mpfumo no Scala
- não muitos anos depois no Estrela Vermelha –
marrabentando uma guitarra eléctrica
no frémito do seu amor por Georgina waka Nwamba.

Nelson Saúte
Moçambique

6.5.08

Carta para Mayisha e Irati Michel




Talvez um dia, meus filhos, a vida
vos faça sentar nesta cadeira
e furtivamente se detenham
na textura branca da parede
a decifrar algo que só pertence
ao domínio do inexplicável. Então
talvez pensem naqueles que vos precederam.
Por mais que nos ignorem
decerto saberão quem fomos.
Porque mesmo esquecido o apelido
ou perdido o nosso obituário
os olhos dos vossos filhos denunciarão
tudo o que o olvido jamais poderá rasurar:
- o perpétuo estigma dos pais.


Nelson Saúte
Moçambique

19.4.08

Maputo




Preciso dizer-te com carácter de urgência.
Preciso revelar-te na palavra e no silêncio.
Preciso sublimar a minha solidão na sombra
das palavras e dos gestos acordando
na imensidão dos dias vozes duendes
como se me albergasses na infância
Preciso amar-te com urgência. Amar-te
como palavras. Sussurrar-te minhas ânsias.
Adormecer minha voz no teu ouvido.
Perscrutar o som do silêncio. Dizer-te
com urgência inadiável que te amo.
Preciso amar-te ó meu amor amado.
Preciso amar-te como quem ama
pela última vez. Amar-te como se fosse
um voo agónico. Amar-te na margem
da ausência tua. Amar-te nas canções
que oiço pela manhã. Nas vozes espantadas
das mulheres no Xipamanine. Preciso
de te amar neste trajecto dorido por Maputo
com estas vozes que atravessam a noite.
Preciso amar-te com urgência. Amar-te agora e sempre.
Preciso de te amar somente.
Dizer-te: amo-te, minha musa, meu amor amado.
Preciso de te amar. Amar. Amar-te simplesmente.


Nelson Saúte
Moçambique

Costa do sol



À mesa enquanto o cachucho me não desmente
a incerteza sobre o blues que prolonga
a minha solidão sobre a esparsa quietude da tarde
ausento-me desta varanda e meu olhar
intenta alcançar a fronteira entre o mar e a ilha.

Quando regresso de Xefina me dou conta
de que tenho companheiros que falam
com abundância e se riem às gargalhadas
tecem elogios ao caril de camarão
e ainda são capazes de falar línguas estrangeiras.


Nelson Saúte
Moçambique

17.3.08

A descoberta da poesia




Tantos anos a porfiar nas madrugadas
uma juventude em versos e atitudes líricas.

Tantos gestos graves e enfáticas palavras
que ameaçaram desorganizar o caos no mundo.

Tantos livros e poetas inscritos na memória
que sublimaram o cansaço dos dias e noites embriagadas.

Tantas pálpebras queimadas à parca luz de uma escrita
incessante mas de generosa e complacente inconsequência.

Tanta ilusão para descobrir afinal
que a poesia não se escreve, vive-se.


Nelson Saúte
Moçambique

14.3.08

A ignorância do poeta



O poeta contempla o mar
no agoniado tédio da tarde.
Caminha ao som de seus passos
ombros recurvos mãos nos bolsos
perseguindo a sua sombra.
O cão que lhe roça a solidão
não tolhe o verso escrito da memória.
Os namorados não o fitam.
De esguelha admira a inocência
dos gestos amorosos.
À sombra de jacarandás
percorre o trajecto
sobre as folhas silenciadas.


Nelson Saúte
Moçambique

A Pátria dividida

ao Rui Knopfli e ao Eugénio Lisboa



Os mortos tombam no poema.
Nada os ampara. Nem a luz
acanhada do candeeiro
quando escrevo na obscuridade
ao pulsar da mão emboscada
na metáfora que me conduz.

Na incerta madrugada
diviso os rostos mutilados
que vigiam os meus gestos
e narram sonhos degolados.

O algoz estilhaçou o coração
frágil da criança aos gritos
nas imagens do apocalipse na televisão.

Na ignomínia noticiada pelos jornais
esta consentida memória dos mortos
para sempre insepultos
porque não existe vala comum
para os gritos da mulher
rasgada à baioneta
numa manhã inocente.

Não se enterram os sonhos
dos mutilados em perfil
no chão ultrajado
desta pátria dividida.


Nelson Saúte
Moçambique

9.3.08

A ilha dos poetas



Muipiti adormece no coração dos poetas
e sublima os delitos na contornada
rota das viagens longínquas. As canções
rumorejam ao vento ressuscitando
as esquecidas pedras da Ilha.

Mulher de m'siro feitiço do Oriente
os poemas do irredimível encantamento
levantam-se sobre as ruínas.

Na proa da memória a evocação das velas sonolentas
na imaginária romaria
neste lugar onde o estro do escriba
permanece ancorado na lápide anónima.

A odisseia celebra o nome da pátria
na errância das naus pelo Indico.
Os homens a terra e o tempo:
suas vozes descubro na História.


Nelson Saúte
Moçambique

8.3.08

Testamento para os meus filhos


Mayisha e Irati:
este o magro pecúlio que vos deixo
- livros, papéis, sonhos.
Poemas para as mulheres
que amei. Hinos de amor à vossa mãe.
Filhos, só vocês dois.
Depois de mim herdarão o nome
e a tarefa de perpetuar o que progenitor
encetou. Fica para trás uma vida.
Ilusões, cansaços, combates.
Infrutífero desespero de viver
num país apátrida.
Deixo-vos estes desígnios
de coisa nenhuma. Algum pecúlio
um coração, bondade e alguma fé
doméstica. Amanhã estes homens
e mulheres que se festejam
na algazarra das vozes e na luz
de artifício nada terão para vos dizer.
Oiçam então a voz do progenitor
que não sucumbe às vozes
nesta madrugada primeira
do vigésimo primeiro século.
Estas vozes digo-vos estarão
apagadas pela cinza do tempo
e do esquecimento.
Vosso pai afagar-vos-á
com a mesma ternura enquanto vivia
e levar-vos-á a passear pelas ruas da memória
com a mesma ilusão que vos alberga
nesta pequena casa que também vos deixa.
Para trás ficará um tempo
mas não ficarão os homens que destroçaram
a minha geração, meus filhos.
Não ficarão os sonhos e ilusões
nem a lembrança inconsútil da barbárie.
Espero que resista a honra deste homem
que está por detrás destes versos e que um dia
curvados sobre a sua tumba
vocês digam sem vergonha: Pai


Nelson Saúte
Moçambique

31.1.08

Mulher de M'siro


O m'siro
encantamento dos meus olhos
perfaz a tua insular imagem.
No litoral do teu copo
a apoteótica espuma
do orgasmo das ondas.
Ó júbilo na falésia do canto.


Nelson Saúte
Moçambique