Mostrar mensagens com a etiqueta Rui de Noronha (Moçambique). Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rui de Noronha (Moçambique). Mostrar todas as mensagens

26.2.10

Amar


Amar é um prazer, se nós amamos
Alguém que pode amar-nos e nos ama.
Amar é um prazer, se por nós chama
Continuamente alguém que nós chamamos.

Então a vida inteira a rir levamos,
O mesmo fogo ardente nos inflama,
E os ideais da vida, o bem, a fama,
Mãos dadas pelo mundo procuramos.

No encapeladp mar desta existência,
O amor é compassiva indulgência
A culpa original dos nosso pais.

Que resta ao homem, suprimido o amor?
Buscar a morte p'ra fugir a dor,
Tristeza, indiferença - e nada mais.

Rui de Noronha
Moçambique

29.12.08

Pós da história




Caiu serenamente o bravo Quêto
Os lábios a sorrir, direito o busto
Manhude que o seguiu mostrou ser preto
Morrendo como Quêto a rir sem custo.

Fez-se silêncio lúgubre, completo,
no craal do vátua célebre e vetusto.
E o Gungunhana, em pé, sereno o aspecto,
Fitava os dois, o olhar heróico, augusto.

Então Impincazamo, a mãe do vátua,
Triunfando da altivez humana e fátua,
Aos pés do vencedor caiu chorando.

Oh dor de mãe sublime que se humilha!
Que o crime se não esquece à luz que brilha
Ó mães, nas vossas lágrimas gritando?


Rui de Noronha
Moçambique

9.7.08

Quinhenta mais quinhenta, mais quinhenta...


Quinhenta mais quinhenta, mais quinhenta...
(Se eu fosse enriquecendo assim aos poucos)...
Mas perco, meus amigos e anojenta
Ver mais um louco entre tantos loucos.

Mais vinte e cinco linhas me apresenta,
Digno, firmado, estóico, ouvidos moucos.
Procuração, dinheiro... e água benta...
-Água lhe dava eu de vontade aos socos...

Abre-se a porta. É o Seixas? -Não, é o Graça.
Papel azul, selado... Oh! que desgraça!
Que mais lembrou agora este demónio?

Mais um requerimento. Soma e segue.
Não haverá diabo que o carregue
E leve-mo por graça a um manicómio?


Rui de Noronha
Moçambique

19.4.08

Soneto


Eu tenho a pagar 10 e na carteira
Apenas tenho 8. Eis a arrelia.
Eis-me buscando em mente uma maneira
De pagar o que devo em demasia.

E fico às vezes nisto todo o dia,
Um dia inteirinho em estúpida canseira.
Se busco distrair-me, de vigia,
Olha-me a rir a dívida grosseira.

E entretanto na rua vão passando
Carros de luxo, altivos salpicando
O lodaçal dos trilhos sobre mim…

E sinto, na revolta, o algarismo,
Do trono do brutal capitalismo,
A rir de nós, os bobos do festim!


Rui de Noronha
Moçambique

À luz do poente




Há pouco
Estando olhando o mar,
Tive um desejo louco
De nele me deitar.

A água tão quieta,
Tão limpa e cintilante,
Punha-me pena de não ser poeta
Um só instante,
Para montar-lhe o dorso e ir o mundo fora
Tangendo as leves ondas;
Cantando a luz da Aurora
As pálidas giocondas,
E a grande desventura
Dos que ela enfeitiçou
E numa noite escura
Sepultou…

Dourando-a de revés,
O sol descia lentamente,
E havia no poente,
De quando em vez
hesitações de ouro
Que punham um brando coro
De nostalgia
Nas folhas mais erquidas do arvoredo
Que oscilando a medo
Olhavam tristemente o fim do dia…

E então
mesmo vestido
Vencido o coração,
Vencido o meu sentido,
Eu fui entrando, pouco a pouco,
Lentamente…
E ali me pus nadando como um louco
À luz do poente…


Rui de Noronha
Moçambique

28.3.08

Lua Nova



“Quenguêlêquêze!... “Quenguêlêquêze!... (Lua Nova)

Surgia a lua nova,
E a grande nova]
— Quenguêlêquêze!...— ia de boca em boca
Traçando os rostos de expressões estranhas,
Atravessando o bosque, aldeias e montanhas,
Numa alegria enorme, uma alegria louca,

Loucamente,
Perturbadoramente...

Danças fantásticas
Punham nos corpos vibrações elásticas,
Febris,
Ondeando ventres, troncos nus, quadris...

E ao som de palmas
Os homens, cabriolando,
Iam cantando
Medos de estranhas vingativas almas,
Guerras antigas
Com destemidas impias inimigas
— obscenidades claras, descaradas,
Que as mulheres ouviam com risadas
Ateando mais e mais
O rítmico calor das danças sensuais.

“Quenguêlêquêze!... Quenguêlêquêze!...”

Uma mulher de vez em quando vinha,
Coleava a espinha,
Gingava as ancas voluptuosamente,
E diante do homem, frente a frente,
Punham-se os dois a simular segredos...
— Nos arvoredos
Ia um murmúrio eólico
Que dava à cena, à luz da lua, um que diabólico...
“Quêze!.Quenguêlêquêze!...”

... Entanto uma mulher saíra sorrateira
Com outra mais velhinha;
Dirigiu-se na sombra à montureira,
Com uma criancinha.
Fazia escuro e havia
Ali um cheiro estranho
A cinzas ensopadas,
Sobras de peixe e fezes de rebanho
Misturadas...O vento, perpassando a cerca de caniço,
Trazia para fora o ar abafadiço,
Um ar de podridão...
E as mulheres entravam com um tição:
E enquanto a mais idosa
Pegava na criança e a mostrava à lua
Dizendo-lhe: “Olha, é a lua”,
A outra, erguendo a mão,
Lançou direito à lua a acha luminosa.
— O estrepitar de palmas foi morrendo...
E a lua foi crescendo... foi crescendo...
Lentamente...
Como se fora em brando e afogado leito
Deitaram a criança, revolando-a,
Ali na imunda podridão, no escuro,
Lhe deu o peito...

Então, o pai chegou,
Cercou-a de desvelos,
De manso a conduziu p´los cotovelos,
Tomou-a nos seus braços e cantou
Esta canção ardente:

“Meu filho, eu estou contente!
Agora já na temo que ninguém
Mofe de ti na rua,
E diga, quando errares, que tua mãe
Te não mostrou a lua!

Agora tens abertos os ouvidos
Para tudo compreender;
Teu peito afoitará, impávido, os rugidos
Das feras, sem tremer...
Meu filho, estou contente!
Tu és agora um ser inteligente,
E assim hás-de crescer, hás-de ser homem forte

Até que já cansado
Um dia muito velho
De filhos, rodeado,
Sentido já dobrar–se o teu joelho
Virá buscar-te a Morte...
Meu filho, eu estou contente!
Agora, sim, sou pai!...”

Na aldeia, lentamente,
O estrepitar das palmas foi morrendo...
E a lua foi crescendo...
— Crescendo
Como um ai...


Rui de Noronha
Moçambique

11.3.08

Por amar-te tanto



Que culpa terei eu de amar-te assim?
Que culpa terás tu de o não saberes?
Quem adivinha o que se passa em mim?
Como hei-de adivinhar o que tu queres?

Oh! Corações secretos de mulheres!
Oh! Minhas ilusões, mágoas sem fim!
Porque hei-de eu ter só mágoas, não prazeres,
por tanto te querer, doce jasmim?

Tudo, que sob aluz do sol existe,
alegre é num momento e noutro triste,
só eu herdei apenas dor e pranto…

O mais humilde verme, que rasteja,
um outro tem, que o ama, afaga e beija
- e eu nada tenho por amar-te tanto…


Rui de Noronha
Moçambique

9.3.08

Vilancete


Em vossas mãos pequeninas,
Mãos fininhas, de criança,
Quero pôr minha esperança.

Mãos pequenas, de boneca,
Mãos de cera, transparentes,
Mãos de fada, doces, quentes
Tentadoras andorinhas,
Quem terá a dita um dia
De beijá-las com calor
E o seu coração depor
Em vossas mãos pequeninas?

Tão fracas, tão levezinhas,
Parecem duas janelas.
Quem me diz se através delas
Ver o céu se não alcança?
Por todo esse mundo fora
Raras têm, ainda as mais moças,
Mãos tão finas como as vossas
Mãos fininhas, de criança.

Mãos minúsculas, brinquedos
De chaminé de Natal.
Mãos tranquilas, mãos sem mal,
Mãos de amor e confiança.
Abri-me essas mãos celestes,
Essas mãos de anjo inocente,
Nelas doida e cegamente
Quero pôr minha esperança


Rui de Noronha
Moçambique

8.3.08

Natal


Quando eu era criança,
Ouvia os companheiros de folguedo
Cantarem do que achavam no sapato
Posto na chaminé
Na noite precedente à de Natal.
E um ano, na esperança
De achar também no meu um bom brinquedo
Uma corneta, um gato,
Lá pus cheio de fé
O meu velho chinelo de sisal.

E mal dormi a noite, ansioso, à espreita,
Não fosse o Velho entrar e às escuras
Não ver onde eu deixara,
Com uma moeda de cobre,
O meu chinelo de sisal velhinho.
Por uma fenda estreita,
Contava o vento estranhas aventuras
De bosques e montanhas que galgara,
Do frio que levara a uma criança pobre
No caminho.
Entanto eu tinha medo.
Se alguém, sem ser o Velho de Natal,
Pé ante pé entrasse e sorrateiro
Levasse o meu vintém,
E o meu chinelo, a rir, deitasse fora?
De facto, no arvoredo
Andava por sinal
Um vozear confuso e maroteiro...
Erguia-me à cautela e ia ver. Ninguém.
E outra vez, mais outra, até romper a aurora.

Saltei da cama à pressa, receoso,
Não fosse antes de mim alguém buscar as prendas.
No meu chinelo nada. Lume apagado em volta.
Por entre cinza fria o meu vintém.
Caí num choro imenso, angustioso,
Numa raiva brutal a todas lendas.
E dum sacão arremessei à estrada,
Num gesto de revolta,
O meu velho chinelo com desdém.

A criança que o vento me dissera
Ter visto no caminho
Envolta em trapos velhos,
Um sorriso nos lábios, mansa, humildemente,
Calçou o meu chinelo.
Então eu compreendendo a prenda que dera
O bom Velhinho
Levei outro chinelo e de joelhos
Calcei-lhe o pé e caridosamente
Levei-a para casa com desvelo.

Foi essa a minha prenda de Natal,
Nunca mais pus sapatos na lareira
À espera de presentes,
Porque esses dias há crianças nuas
Dormindo num desvão.
E agora peço a Deus que a minha prenda anual
Seja na vida inteira
Os pobrezinhos entes
Que passam em silêncio pelas ruas
Sem agasalho e pão.


Rui de Noronha
Moçambique

5.3.08

Passas leve…


a Jorge Netto


I
Passas leve,
Levezinha,
Como a minha
Tentação.
Quem me dera
Tão ligeiro
Teu inteiro
Coração...

II
Passas rindo,
Confiada,
Doce fada
Do sertão.
Não te prendam
Nos caminhos
Os espinhos
Da ambição...

III
Vais correndo,
Vão cantando,
Vão saltando,
Brandos ais
Os teus seios
Negros, duros,
Como obscuros
Madrigais...

IV
Os teus olhos
São pecados
Que cuidados
Dão a Deus,
Quem me dera
Confessá-los,
Comungá-los
Com os meus...

V
Sempre humilde,
Sempre obscura,
Que tortura,
Teu viver?
És tão linda,
Tão mimosa,
Negra, goza,
Que és mulher!


Rui de Noronha
Moçambique

14.2.08

Chuva Miudinha


Cai uma chuva gélida, miudinha,
Que mal soa nos zincos dos telhados.
Chuva que gela o corpo, gela a espinha,
E um dia inteiro deixa-nos gelados.

E cai, cai sem cessar, pó de farinha
Que nos deixa na rua enfarinhados.
Cai sem cessar, eterna ladaínha,
Nos nossos corações ajoelhados...

Um vento agreste as árvores perpassa,
Desenrolando um manto de desgraça
Sobre a paisagem húmida, encolhida...

E a chuva continua triste e mansa,
E na minha alma à mesma semelhança,
Cai-me o Passado em chuva comovida...


Rui de Noronha
Moçambique

À Tarde



Não sei o que há de indefinível, vago,
Na morna luz da tarde,
Que nos envolve de um etéreo afago
E como que nos arde.

De nós então parece que se evola
Um pouco de ansiedade
Que tímido cantando acende e rola
Em busca da verdade...


Rui de Noronha
Moçambique

1.2.08

Surge et Ambula


Dormes! e o mundo marcha, ó pátria do mistério.
Dormes! e o mundo avança, o tempo vai seguindo...
O progresso caminha ao alto de um hemisfério
E no outro tu dormes o teu sono infindo...

A selava faz de ti sinistro eremitério,
onde sozinha, à noite, a fera anda rugindo.
A terra e a escuridão têm aqui o seu império
E tu, ao tempo alheia, ó África, dormindo...

Desperta. á no alto adejam negros corvos
Ansiosos de cair e beber aos sorvos
Teu sangue ainda quente, em carne de sonâmbula...

Desperta. O teu dormir já foi mais que terreno...
Ouve a voz do Progresso, este outro Nazareno
Que a mão te estende e diz – "Africa, surge et ambula"


Rui de Noronha
Moçambique

27.1.08

Grito de Alma



Vem de séculos, alma, essa orgulhosa casta,
Repudiando a dor, tripudiando a lei.
Num gesto de altivez que em onda leva arrasta
Inteiras gerações de amaldiçoada grei.

Ir procurar, amor, nessa altivez madrasta,
Um gesto de carinho ou de brandura, eu sei?
Ao tigre dos juncais, duma crueza vasta,
Quem há que roube a presa? Aponta-me e eu irei!

Cruel destino o meu, que ao meu caminho trouxe
Na fulgurante luz do teu olhar tão doce
À mágoa minha eterna, a minha eterna dor.

Vai. Segue o teu destino. A onda quer-te e passa.
Vai com ela cantar o orgulho da tua raça
Que eu ficarei cantando o nosso eterno amor...


Rui de Noronha
Moçambique

22.1.08

Carregadores



A pena que me dá ver essa gente
Com sacos sobre os ombros, carregadíssima!...
Às vezes é meio-dia, o sol tão quente,
E os fardos a pesar, Virgem Santíssima!...

À porta dos monhés, humildemente,
Mal a manhã desponta a vir suavíssima,
Vestindo rotas sacas, tristemente
Lá vão 'spreitando a carga pesadíssima...

Quantos velhinhos já, avós talvez,
Dez vezes, vinte vezes, lés a lés
Num dia só percorrem a cidade!

Ó negros! Que penoso é viver
A vida inteira aos fardos de quem quer
E na velhice ao pão da caridade...


Rui de Noronha
Moçambique

Mavíkis


De manhãzinha, a mata ainda escura,
Ainda dormindo os colibris nos ninhos,
Partem cantando uma canção obscura,
Em variados grupos, ou sozinhos.

Segura a mão calosa a moca dura.
E eles a cantar pelos caminhos
Antigas tradições de ida bravura,
Canções obscenas, ritos de adivinhos.

Já fogem as estrelas derradeiras,
E acendem-se as grotescas maçaleiras
À luz do sol fecunda e abrasadora.

Já chegam à cidade, — mas o canto,
Que os trouxe de tão longe, irá entanto
Suavizando a faina o dia fora ...


Rui de Noronha
Moçambique

20.1.08

No Cais


Há vibrações metálicas chispando
Nas sossegadas águas da baía.
gaivotas brancas vão e vêm, bicando
Os peixes numa louca gritaria.

Escurece. Do largo vão chegando
As velas com a farta pescaria.
As bóias põem no mar um choro brando
de luzes a cantar em romaria.

E entretanto no cais as lides crescem.
Arcos voltaicos súbito amanhecem,
A alumiar guindastes e traineiras...

E ouve-se então mais forte, mais vibrante,
Os pretos a cantar, noite adiante,
Por entre a bulha e o pó das carvoeiras...


Rui de Noronha
Moçambique

13.1.08

Mulher


Chamam-te linda, chamam-te formosa,
Chamam-te bela, chamam-te gentil...
A rosa é linda, é bela, é graciosa,
Porém a tua graça é mais subtil.

A onda que na praia, sinuosa,
A areia enfeita com encantos mil,
Não tem a graça, a curva luminosa
Das linhas do teu corpo, amor e ardil.

Chamam-te linda, encantadora ou bela;
Da tua graça é pálida aguarela
Todo o nome que o mundo à graça der.

Pergunto a Deus o nome que hei-de dar-te,
E Deus responde em mim, por toda parte:
Não chames bela – Chama-lhe Mulher!


Rui de Noronha
Moçambique