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13.2.11

Fiapos de Sonho



roçando
pelo teu rosto
tombou ao chão
a estrela cadente

guarda-a
é o ouro dos sonhos


Arlindo Barbeitos
Angola

24.7.10

Vem Ver



escuras núvens grossas de outros céus vindas
entrançando-se por entre asas de pássaros canibais
e
chuva de feiticeiro
em sopro
de arco-íris dependurada

irmão
vem vem
escuras núvens grossas
temem o sol de nossos olhos todos
pássaros canibais
a garra de nossas mãos todas
e
chuva de feiticeiro
se perde no ar de nossos copos todos
irmão
vem vem

(Angola, Angolê, Angolêma)

Arlindo Barbeitos
Angola

5.7.10

Vogando

vogando
vogando vem
um dongo
sem ninguém
cirandando
cirandando vem
uma menina
sem o seu bem
marchando
marchando vem
um soldado sem vintém
voando
voando vem
um pássaro que nem asas tem
vogando
vogando vem
um dongo
sem ninguém


Arlindo Barbeitos
Angola

1.7.10

NZOJI(SONHO)



o passado
é uma laranja amarga
a chuva
cai dos teus olhos
o vento
tem cabeça de galo
e
o jacaré
levou tua perna
pro palácio
de seu rei

*

por noites de outubro
almas de antepassados
acordam
lagartos adormecidos

riso
de menina só
quebra-se
nos cincos dedos da mão
que
almas de antepassados
por noites de outubro
não impedem de fechar

*

corvos de ronda
não sabem
quem matou o antílope
cor de vento listrado de chuva
e
pombos verdes
de vôo redondo
não sabem
por que o homem tatuado
caiu no feitiço das coisas de longe

*

por fendas
de máscara apodrecida
passam
tufos de capim de outubro

nos charcos
de teus olhos
pairam moribundos
espíritos de antepassados
e
pássaros d’água
fazem ninho
em cabeça de mologe

por fendas
de máscara apodrecida
passam
tufos de capim de outubro

*

a nuvem produziu um elefante
o elefante pariu o coelho
das orelhas do coelho saíram montanhas
as montanhas tornaram-se tetas duma cadela prenha
das tetas da cadela prenha caiu a chuva

Arlindo Barbeitos
Angola

29.5.10

Saudade



saudade
é o tempo de pacassas pardas
e macacos sem rabo servindo de administradores
quando o calor ia derretendo o céu
e a chuva se vendia na farmácia
do comerciante de cabelos de fio
saudade
é o tempo de patos bravos
e macacos sem rabo servindo de padres

quando o medo ia gelando a terra
e o pranto se dava de beber aos porcos
do comerciante de cabelos de fio

(Angola, Angolê, Angolêma)

Arlindo Barbeitos
Angola

30.4.10

Mão Frágil



em mão frágil de amarelo
se quebra o galho de gajajeira
pela tardinha vermelha em flor
sussurrar de vento
não é voz de capim crescendo
é murmúrio impaciente
de gentes
no azul de parte alguma
em mão frágil de amarelo
se quebra o galho da gajajeira
pela tardinha vermelha em flor

(Angola, angolê, angolêma)

Arlindo Barbeitos
Angola

27.3.10

Em Teus Dentes



Em teus dentes
o sol
é diamante de fantasia
a lua
caco-de-garrafa
e
a mentira
verdade vagabunda
errando de cágado
em torno da lagoa dos olhos da noite
na treva aveludada
de tua pele
os dedos curiosos
são estrelas de marfim
à busca
de um dia caprichoso
despontando de miragem
por detrás das corcundas de elefantes adormecidos

(Angola, angolê, angolêma)

Arlindo Barbeitos
Angola

28.1.10

Esperança



Por entre as margens da esperança
/e da morte
meteste a tua mão
e
eu vi alongados nas águas
os dedos que me agarram
em lagoa de um sonho
corpo de jacaré
é soturna jangada de palavras
/secas
por entre as margens da esperança
/e da morte

Arlindo Barbeitos
Angola

26.6.09

na transparência da tardinha


na transparência da tardinha
que
impávidos imbondeiros sombreiam

cantar de galinha do mato
é
eco de um tempo
em
que ilusão e verdade
cirandavam alheias ao mundo

a esperança medrava verde
verde
como rebento de capim de outubro

na transparência da tardinha
que
impávidos imbondeiros sombreiam


Arlindo Barbeitos (poeta angolano)

26.5.09

na leveza do luar crescente






na
leveza do luar crescente
sobe
a ilusão da felicidadeAdicionar imagem
que
teu gesto distraído
me dá

como se
plumas vogando suaves
na brisa
fossem
vida de pássaro apodrecendo
na
leveza do luar crescente


Arlindo Barbeitos (poeta angolano)


14.5.09

A identidade



a identidade
ou

o voo esquivo
de pássaros nocturnos
em torno da lua

identidade
é cor
de burro fugindo.


Arlindo Barbeitos (poeta angolano)

12.4.09

imersa em sereno de lusco-fusco



imersa
em sereno de lusco-fusco
e
suspensa em vazio

São-Tomé

carrocel de montanhas
carregador de nuvens
transportados de sonhos
irrompendo
de abismo de espuma
e
sumindo
em precipício de bruma

São-Tomé

suspensa em vazio
e
imersa em sereno de lusco-fusco


Arlindo Barbeitos (poeta angolano)

10.3.09

oh alambique...


oh alambique
de saudade

destilando
álcool de poesia
pára pára

oh alambique
de saudade

Arlindo Barbeitos (poeta angolano)

16.2.09

Borboletas de luz



borboletas de luz

esvoaçando
de cadáver em cadáver
colhem
o fedor dos mortos em
vão

e
pelos buracos da renda
dos dias
passam alacres
do mundo do esquecimento
ao país da indiferença
levando consigo
o pólen fatal
das flores da guerra

borboletas de luz

Arlindo Barbeitos (poeta angolano)

6.1.09

Oh flor da noite



Oh flor da noite
onde todo o orvalho se perde

teus olhos
não são estrelas
não são colibris

teus olhos
são abismos imensos
onde na escuridão
todo um passado se esconde

teus olhos
são abismos imensos
onde na escuridão
todo um futuro se forma

oh flor da noite
onde todo o orvalho se perde

teus olhos
não são estrelas
não são colibris

Arlindo Barbeitos (poeta angolano)

26.12.08

oh Angola dor mansa e bruta


oh Angola
dor mansa e bruta
de menina
descuidada e contente

desandando
em gargalhada teimosa
e
pé de dança atrevido
para
loucura de abismo

a compasso
de marimbas guitarras elétricas
e
minas

oh Angola
dor mansa e bruta
de menina
descuidada e contente

Arlindo Barbeitos (poeta angolano)
No tempo/em que as pacaças entravam



no tempo
em que as pacaças entravam
pelos povoados
o vôo alvoraçado das perdizes
carregava sonhos
que
a mãozinha inerme de criança
feliz
agarrava ao lusco-fusco dos muxitos
no tempo
em que as pacaças entravam
pelos povoados



Arlindo Barbeitos (poeta angolano)

26.10.08

na planura onde o capim secou

File:Zebras, Serengeti savana plains, Tanzania.jpg

na planura onde o capim secou

a poeira fina
cobre as carcaças
que
a morte caprichosa
foi espalhando

murchos estão os seios
que
o menino agarra
e
das árvores esquálidas
pendem papéis velhos e trapos

das esperanças promessas e palavras
de um tempo
sobra
o silêncio vazio e amargo
da morte

na planura onde o capim secou


Arlindo Barbeitos (poeta angolano)



26.9.08

na quietude cristalina da alvorada



na quietude cristalina da alvorada

como se imóvel o bando de patos bravos
cruzava o céu
o hipopótamo fendia silente o jade
das águas
o jacaré jazia inerte no limo opaco
a garça debicava a compasso sapos
no lodo
o canavial remexia suave as pontas
amarelas
a brisa afagava leve o capim ralo
das margens
o arvoredo sacudia gentil da folhagem
o sereno da noite
o fumo subia vagaroso dos quimbos
em redor
e
o tiro ribombava assassino

na quietude cristalina da alvorada


Arlindo Barbeitos (poeta angolano)

17.9.08


Casinhas pequenas


casinhas pequenas
abrigando
histórias das histórias da história
se fazendo
e inda outras
casinhas pequenas
abrigando
famílias das famílias da família
se fazendo
e inda outras
histórias das histórias da história
e inda outras
famílias das famílias da família
e inda outras
se emaranhando
em um novelo
que
cresce cresce cresce
em casinhas pequenas


Arlindo Barbeitos (poeta angolano)