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9.7.10

Poema número doze


Cais de cimento, hoje em ruínas
(ano de 2002)


Ferros polidos,
corrimão sem fim,
gasolinas atracados,
marujos escadaria
subindo...
Nossos bolsos
mancarra quente
queimando,
canelas com feridas
nas ondas sarando,
melado zimbrão
no botequim
a litro comprado...
Farol no ilhéu
piscando...
Luzes de vapores
horizonte azulado
riscando...
Ondas mansas
escadas acima
lambendo,
catraeiros,
no botes
verduras
metendo,
negócio na baía
procurando...
cigarros da estranja,
calças de ganga coçada,
vazias latas de biscoitos,
nos salões servidos...
Ao longe,
baloiçando,
botes vazios,
negros faluchos,
fantasmas,
contrabandistas,
lanchas de carvão,
lampiões,
no espelho de cristal
reflectidos...
Brilhantes pontinhos ...


Adriano Gominho
Cabo Verde

29.10.09

Poema número onze


(Às valentes mulheres-carregadeiras do Mindelo - 1950

Chamo-te Guida,
podias ser Chica,
Tánha, Bia ou Silvina,
valentes mulheres
Vejo-vos a todas
de ancas bamboleantes,
canhoto na boca,
saias p'la cintura,
por cordas presas,
no velho cais de madeira
à espera de fretes,
sentadas
milho branco de Angola,
bananas de S.Antão,
ou S. Nicolau!
esperando.
Tánha e Bia juntas,
Rua Lisboa acima
sobem,
sacas de milho
dente de cavalo,
às costas
transportando...
Suor nos rostos
escorrendo,
pés
no negro basalto,
figuras desenhando.
Mulheres de aço,
rijas como
negras rochas
de Cabo Verde,
do vulcão paridas
Tánha e Bia,
sorridentes,
Rua Lisboa acima
vão indo, andando,
com saca
de milho dente de cavalo,
às costas
transportando.
Suores e sorrisos
nos rostos sofridos...
Dura vida,
vida dura
da mulher-carregadeira,
de um S. Vicente
de outrora, (1950)
só no pensamento
dos mais velhos, como eu,
infelizmente ainda presente...


Adriano Gominho
Cabo Verde

A Timor

Díli, noite de Lua Cheia - 1963


"Beiros", luzes no mar de coral
Rubras acácias pingando pétalas
Vento quente vindo do litoral
Recurvadas palmeiras no "mangal".

Abeiro-me do Farol ainda quente
No cimento do banco estalado
O calor do dia ainda se sente
A Lua no Ataúro, mesmo ao lado!

Miro o horizonte distante,
Um rapaz do Verde Cabo ido
Lembro-me da Escola, diante
D'um Timor ao Minho entendido...

Balançam as palmeiras no espaço,
Sinto a brisa na face de rapaz
Vejo timorense de filho no regaço
Colhendo pétalas d'Amor e Paz.


notas:
"beiros" - barco típico de Timor,
"mangal" - vegetação costeira


Adriano Gominho
Cabo Verde