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19.8.09

Azul e vermelho



Em azul morrerei um dia
envolto em ramos de tamarindos...
Azul como azul do meu azul,
serenamente...
Vermelho como o vermelho do meu vermelho
ardente...

Figueiras da índia da «Ilha dos Galegos»
dizei-me:
que contam das ondas à beira-mar?...

Azul dos olhos das sereias,
que emprestam às vagas
a cor...
Vermelho como o desejo flamejante
do sol-pôr...

Orlando de Albuquerque

19.3.09

Sobre o vento noroeste



Sobre o vento noroeste
galopam negros cavalos
de longas e soltas crinas
perdidas na noite escura.

Saltam ladrões ao caminho
dos homens desprevenidos
e anavalham corações
sobre o vento noroeste.

Choram meninos perdidos
em velhas encruzilhadas,
enquanto pelas estradas
galopam negros cavalos.

E em desespero nocturno
os cavaleiros de fumo
se agarram desesperados
às suas longas e soltas crinas.

Porque o vento noroeste
vai deixando pelos campos,
pelos prados, pelos vales,
lamentos desesperados
dos cavaleiros perdidos
em raivas e desesperos
sobre o vento noroeste.

Orlando de Albuquerque

12.3.09

Chove insistentemente!




Chove insistentemente
com a persistência bruta
das coisas tropicais...

Jamais
consigo identificar-me com a chuva
nesta minha África abandonada.

Todo o instante é fugaz, é nada
perdido no oceano dos desejos
e ansiedades.

Possa a verdade
ainda um dia vir à tona da água
e sejamos nós, então, realidade
mesmo à custa da nossa mágoa.

Orlando de Albuquerque

24.2.08

Rosa no asfalto


O carro deslizou lentamente
no asfalto negro molhado de chuva…
De dentro dele
a mão menina deixou cair,
silenciosamente,
uma rosa branca, entreaberta…

Uma rosa branca
perdida
no asfalto negro molhado de chuva…


Orlando de Albuquerque

20.2.08

Buganvílias para a menina de Benguela

(para a sua esposa, Alda Lara)

Trago em meus braços ramadas de buganvílias vermelhas para a última morada da que foi a Menina de Benguela e se está tornando a Menina de Angola.
Bem sei que os ramos de buganvílias têm espinhos, que laceram a carne fundo.

Mas nem por isso, ou talvez por isso mesmo, poderei deixar de trazer estas buganvílias vermelhas, de que tanto gostavas...

Vermelhas como o sangue que os nossos corações têm chorado...

Vermelhas como o sangue que a inveja (até depois da morte a inveja não te deixa) está fazendo brotar da nossa tristeza...

Menina de Benguela toda sonho e ternura...
Sonho que uma manhã tropical cortou cerce, como uma flor arrancada violentamente de uma haste...
Aceita estas buganvílias vermelhas, que te trago num momento de desespero e de revolta.
Revolta contra o destino...
Revolta contra a vida...

Revolta contra a inveja...

Não mais poderei estar ausente, quando a tua lembrança clamar por uma presença nas primeiras linhas...

Seria cobardia fugir.

E eu não quero ser cobarde.
Aqui estou, pois, com este ramo de buganvílias e de coração sangrado pelos espinhos.

Mas estou!
E o que é preciso é estar.

Que as buganvílias se tornem no símbolo do teu querer e do teu sonho...
Que os espinhos me lacerem, quanto mais as aperto contra o peito.

Mas que importa?...

Que importa o desespero, a raiva, se somos?...

Se trazemos até ti este punhado de buganvílias, de que tu tanto gostavas?

E eu aqui estou...

Que nesta noite de tristura o vivo das flores seja uma nota de coragem.

Agora, mais do que nunca, a coragem é necessária.
A coragem de sermos...
A coragem de estarmos...
A coragem de trazermos nos braços, rasgados pelos espinhos, um braçado de buganvílias...
Buganvílias para ti...
Buganvílias para a Menina de Benguela, para a Menina de Angola, toda sonho, coragem e ternura...

Aqui te deixo a Esperança nas flores que te trago...

A Esperança que nunca faltou no teu coração...

Adeus, Menina de Benguela...

Menina de Angola...

Adeus...

Até sempre!...

Orlando de Albuquerque

22.1.08

Rigor



Quando passa e aí devotamente se demora
o erudito na volúpia dos contornos subtis
para televisionar durante uma hora
o que se pratica e mais o que se diz
não pense que dispensamos o rigor da geometria
e da linguagem que nos faz a fala.

Sabemos como se desenha e pronuncia

cada sílaba de palavra nova
porque o escrúpulo gramatical é a verdade que o prova
assim um corpo no amor outro possui e dá-se

e a mulher pariu um filho e o embala.

Sim usamos régua, esquadro e compasso
e o vocabulário e a sintaxe
para medir a minúcia de cada traço
e formar o sentido exacto de cada frase
não leccionados. E se for preciso que se arrase
o antigamente caiado e agora decrépito muro
onde mão privilegiada escreveu
em nome da metrópole cerebral
«decreto: quem sabe e dita sou eu.»
Hoje temos o mar e o nosso próprio sal.


Orlando de Albuquerque

20.1.08

Romance do negro que não voltou


1

Um dia
mãe negra começou a inchar
a inchar, a inchar.

Ih!
Sua barriga ficou assim,
grande cuma quê...

Depois
nasceu negro.
E barriga de mãe negra
ficou piquena
outra vez.

Nasceu negro
e barriga de mãe negra
ficou piquena outra vez.

2

Negro quando nasceu
era branco.
Mas depois
ficou negro.


Meu Deus!
Num sei qui lh'aconteceu.

Negro era branco
e ficou negro.

3

Veio seu Padre
lá da Missão.
Deitou água nele
e baptizou.
Antão
negro piqueno
ficar cristão.

Mas ficou sempre
negro cuma quê...

4

Lá no mato
negro brincou,
cresceu.

Lá no mato
negro crescia,
panhando gala-gala,
tingolé
e maçala.

Caçando passarinho,
roubando ovos do ninho
da galinha
da muiér do soba Kutulú.

E negro crescia
cum outro piqueno.
E negro num via
qu'ele era negro,
negro cuma quê...
Mesmo quando tomava
banho no rio,
olhando jacaré
era sempre negro
negro cuma quê...

5

E negro piqueno ficou grande.

Mais nada.


Orlando de Albuquerque


Orlando de Albuquerque Ferreira, nasceu em Lourenço Marques (Maputo) em 1925. Estudou medicina e esteve ligado à Casa dos Estudantes do Império. Organizou em colaboração com Vítor Evaristo a antologia Poesia em Moçambique considerada um marco na historiografia literária do País. Faleceu em 1997.


6.1.08



- África!
Ergue-te e caminha!
A luz é bela e espera.
Corre em teu corpo a seiva bruta
dá vida ao Homem e alimenta a fera.
- África!
Ergue-te e caminha!
para a tua luta!

Teu corpo há muito que é prostrado.
Jovem tronco negro e musculado
quando chegar a nossa hora.
África!
A vida é tua e minha.
- Vamos!
Ergue-te e caminha!


Orlando de Albuquerque