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30.7.11

Riso de Criança




De bicicleta pelo campo quando
a idade jovem se descobre, e espanta-se
e conversa secretamente com as searas ainda verdes,
as papoilas: do caminho de alcatrão
solitário, percorrendo debaixo das folhas
de árvore a sombra e a luz. Vem a imagem com
os passos no andar de cima, cair de água,
riso da criança. O verão aumenta,
a adolescente pela primeira vez
toca-se os seios,
a linha da pele na perna é densa, é clara.
cantam os sapos
de noite, o sentido da vocação não o desconhecem,
mastigam a escuridão e o silêncio.


João Camilo


29.6.11

A nostalgia



Ela queixava-se da sua distracção.
Como se fosse verdade que ele
não a amava como ela dizia que
o amava. Ele pouco ou nada
sabia do amor, por isso que
resposta certa podia sair dos
seus lábios? É verdade que
andara perdido pelas cidades
e por vários países durante anos.
Um dia ferira-o uma dor terrível,
marcara-o a perda de um amor
duradoiro. Quando ela falou e ele
pôde enfim prestar atenção ao
que ela dizia, confundiu-se no
seu espírito a memória desse
amor destruido com a nostalgia
do amor que não tinham ainda
vivido, ele e ela. Mais do que isso
que podia saber? Calou-se. Um dia
talvez pudesse habituar-se de novo ao
sentido aprendido e rejeitado do mundo.


João Camilo

20.6.11

Ausência



Tu dizes na tua última carta que as palavras
são pouca coisa e que só a circunstancia o poder
tocar-me com as tuas mãos evitaria que o cavalo
cinzento da ambiguidade comece a exigir um braço forte.
Mas eu sei o que tu queres dizer: que os teus seios
a linha das tuas pernas no veludo das calças
os fios loiros que no teu pescoço imitam
os quadros de Botticelli as violas de Vivaldi são
as papoilas vermelhas que deixaram de estar
no que eu digo quando falo das searas de oiro.


João Camilo

30.5.11

Que se passa?



Claro que não, de maneira nenhuma.
Estava sentada ao meu lado, o desejo
agitava-lhe o ventre, ela semicerrava
os olhos. De maneira nenhuma, assim não,
ainda não. Debrucei-me sobre o seu rosto
e beijei-a. Pousei a cabeça no seu peito
e esperei pelas suas mãos. Continuava,
lento, a ir devagar ao encontro do desejo.
Não tinha pressa. Ela apertava-me
contra si silenciosamente, parecia
dormir e repousava o seu corpo como
se a morte ou uma hibernação o tivessem
ocupado. A televisão passava um filme
de John Ford. Ela ergueu-se subitamente,
afastou-me. Que se passa, perguntei-lhe,
surpreendido. Nada, respondeu ela, mas não é
o filme de John Ford que acaba de começar?
Não o quero perder. De acordo, pensei eu.
Levantei-me, fui sentar-me na cadeira do outro
lado da sala. Acendi um cigarro. Lá fora
caíra a noite há muito tempo. Mas quem
tinha vontade de pensar no que se passava
lá fora? Um filme de John Ford, repeti em voz
baixa. Apaguei o cigarro e concentrei-me
na aventura irreal, nas cores magníficas do deserto.


João Camilo

30.4.11

À flor da pele



Acende o cigarro, rapariga. E olha para a
rua onde passam transeuntes desconhecidos.
A tarde vai avançando e nós morrendo nela
ou morrendo nela as nossas esperanças,
a ilusão de eternidade. A beleza o que é?
Braços nus, o ventre liso nu, os cabelos caídos
nos ombros. A desconhecida concentra em si
a atenção do homem desocupado. Para
distrair-se, ele olha para ela e recorda-se
da história antiga do amor, reconstrói
ficções que sabe serem apenas ficções. Assim
passa o tempo, depois irá para casa. Quem
sabe o segredo mais secreto da existência
de cada um? Todos nós temos uma
história. Uns calam-na, outros murmuram
entre dentes os episódios essenciais, outros
encontram palavras com que construir o
poema hermético. Que diferença é que faz?
De tudo se constrói a existência, se alimenta
o sentido. Camisa branca à flor da pele, a
rapariga levantou-se e foi lá dentro do café
comprar qualquer coisa. Palavras, deixai-me
celebrar o vão movimento dos ponteiros do
relógio, os episódios vãos, a nossa morte.


João Camilo

25.4.11

Segunda-Feira de Páscoa



Acendia todos os cigarros pelo lado errado,
as letras e o desenho desapareciam sob as cinzas.
Dando por isso interrogou-se: quem sabe
o destino que me está sendo anunciado na coincidência?
uma mulher a quem dissera palavras que magoam
passava com a multidão á tarde diante
da sua mesa de café.

E ele via-a, distinguia o seu rosto que lhe parecia pálido,
começava a interpretar o seu olhar
aborrecido e tão ausente.

Depois, como por acaso, descobria-a sentada noutro café
e pensando em continuar a última conversa
ia ao seu encontro e dizia-lhe boa tarde.
Mas ela olhava em frente e mal lhe respondia.
e ele, desiludido, dava dois passos e baixava a cabeça,
desaparecia no meio dos outros homens e mulheres.


João Camilo

30.3.11

O seu rosto branco


Em tantas casa e praias fui falando.
Estava de copo na mão a saber que me olhavam;
ao sol e quase nu de bruços no calor da areia.
Com os lábios perturbava a saliência de uma orelha,
na minha perna direita repousava, dócil, a face esquerda
de um rosto, pele misteriosa. Os convidados
da festa decidiam partir. Quebrava-se o andar da noite,
eu vi-me só, posta em perigo a minha sede, toda
a ternura. Perseguíamos o prazer, talvez a imagem
da infância, esperávamos pelo sentido dos dias.
A rapariga japonesa tinha-me dito: você quer beber?
E também ela partira, o seu rosto branco
levara para longe a sugestão das flores de cerejeira.


João Camilo

20.2.11

O mensageiro do amor



No andar de cima, do outro lado das escadas,
havia uma festa. Eu ouvia a música e os risos,
as vozes que se excitavam e enchiam o silêncio da noite
de desejos, de paixões. Depois a porta bateu, passos
nas escadas. Uma rapariga desceu, as palavras
saíam-lhe da boca com uma facilidade
tão cheia do amor da vida. À tarde,
no centro da cidade, uma outra rapariga esperava,
sentada à mesa do café, com a mala ao lado,
o mensageiro do amor. Estava
tão segura de si, tão convencida de que ele
acabaria por chegar. Eu olhei o seu rosto jovem,
os seus cabelos que o vento parecia ter desalinhado.
A sua espera comoveu-me. Depois continuei
o meu caminho. A chuva caía
sobre as ruas da cidade. Límpidas, nítidas,
as fachadas das casas enchiam o fim da tarde
com a sua presença silenciosa. A eternidade
não existe, mas enquanto é tempo de durar, as pedras
e a madeira das portas e janelas duram.
Pouco a pouco o ruído cessou, a casa adormeceu.
Os convidados da festa falaram alto na rua,
depois o ruído dos automóveis levou-os para longe.
Contemplei a parede branca, a capa de um livro,
a caneta em cima da mesa, ao lado do jornal.
E o sono desceu sobre os meus olhos.


João Camilo

30.1.11

Nunca sei



Aqui a vi os cabelos concertando;
ali, co a mão na face, tão fermosa;
aqui, falando alegre, ali cuidosa;
agora estando queda, agora andando.

Camões, «Quando o sol encoberto vai mostrando»



Às vezes sorris, às vezes gritas,
às vezes caminhas sossegada pela casa.
Às vezes acordas com o rosto no meu braço,
às vezes fere-me no sono o teu joelho.
Já te observei deitada à beira do mar,
contigo andei pela clareira das florestas,
pequei-te na mão e fomos ao cimo das montanhas.
A chorar estiveste deitada nos meus braços.

Nunca sei onde estás, onde tu foste,
nunca soube se conseguia inquietar-te.
Passam as estações por nós, tu envelheces.
Dos sítios onde estivemos ficou-me que recordação?
Um dia morrerás. E quem pode adivinhar
que por ser incapaz de entender o mistério
passei a minha vida a estudar os teus gestos?


João Camilo