Mostrar mensagens com a etiqueta Ruy Guerra (Moçambique). Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ruy Guerra (Moçambique). Mostrar todas as mensagens

13.1.11

Carta



Nunca estive tão sozinho
nos caminhos da tristeza
nos campos de outra nobreza
nos lagos de tanto vinho

Nunca estive tão sofrido
nos trilhos da solidão
nas carreiras da paixão
nas dentadas desse pão

Nunca estive tão cansado
nas calmarias de um bar
nas paradas de um olhar
nas tatuagens de um fado

Nunca estive tão assim
tanta rama e tanta gana
tão maduro e tão sem cama
tão seguro e tão sem fim


Ruy Guerra

11.1.11

Último retrato



Eu vi o teu cabelo se soltar, cair
E o teu vestido se enroscar
Teu corpo desbotado na moldura da janela
E longe aquele fado ranhado na vitrola
Desse bar perdido aonde nós.

Cruzamos nossos olhos como dois cristais
Batemos nossos corpos sem saber por quê
Juntamos nossos sonhos, calamos nossos gritos
Dançamos noite afora, grudados quase aflitos.

Agora nesse quarto frio, nesse hotel
Teu vulto ai parado me faz mal
E para sempre o teu jeito perdido
Ficou colado no meu olhar.


Ruy Guerra

21.11.10

Marcha fúnebre



Quis imitar as cigarras
E cantar à vida um Hino claro.

Um jovem macilento
que lia o meu poema
esmagou-o com um tractor.

Não.
Vou passar a inventar.

Para começar,
ouçam a fábula fabulosa
daquele milionário fabulosamente rico
que dava todo o dinheiro em esmolas.

Ruy Guerra
Moçambique

8.4.10

A brisa virou nuvem, e parou



Flores,
gemem anémicas em vasos pintados.

Canários
cada vez mais amarelos
cantam sem convicções músicas surrealistas.

Os relógios das Catedrais
(e mesmo os outros também)
continuam batendo 12 badaladas para a meia-noite.

Tudo parece imóvel,
contra a vontade de Heráclito.

(Só de Heráclito?)

Os peixes
nos Aquários,
estão bêbados de tanto rodar.

Mas será mesmo,
e para sempre,
que todos os caminhos vão dar a Roma?

Ruy Guerra
Moçambique

28.3.10

Um poema anti-lírico




Olga:

Hoje
não há mais poesia em mim.

O sol,
o céu de nuvens claras,
mantêm juntos promessas falseadas.
Um avião sem raça
caiu longe,
onde florestas riem das debulhadoras,
dos "buldozers"
e o arado é palavra sem sentido.

Os trinta e tantos passageiros
já não são.

E aqui perto
— tu sabes —
aquele nosso colega
ficou sob as rodas dum machimbombo,
colorido de reclames.
Ah! Olga,
porque,
em face disto tudo
esta vontade constante de gritar
pêlos vivos?

Ah! Hoje,
não há mais poesia
em mim,
nem na natureza colorida.
Não pela queda
do avião
ou do homem solitário.

Na Coreia,
os milhares não são mais números,
mas cadáveres,
marcados por bombas,
baionetas,
granadas
e não sei mais quê.

Multidões,
digladiam-se,
algures,
de petróleo nas veias.

E lá,
onde homens abriram a braço um canal,
estudantes trocaram os livros
por pedras
e viram personagens bíblicas
frente ao pecador.

Ah! Olga
hoje não há mais poesia em mim,
que te vou deixar.

Mas os caminhos
de todos os cantos,
chamam-me.
Como ficar parado
junto a ti,
Olga,
sabendo que mais além
a nossa paz
é comprada,
com sangue que não é nosso?

Hoje, Olga,
não há mais poesia em mim,
porque te quero
e não te posso ter.

Hoje
não há mais poesia,
mas esta certeza
da necessidade de lutar
junto aos que lutam...

Ruy Guerra
Moçambique

24.2.08

Banalidade


Vou cavar uma tumba
coser uma cruz de madeira
semear um punhado de flores

Para aquele cachorro vadio atropelado na rua

Que eu perdi a força
para abrir covas
aos homens mortos que semeiam a cidade e os campos


Ruy Guerra
Moçambique

10.2.08

Tatuagem


Quero ficar no teu corpo feito tatuagem
Que é p'ra te dar coragem
p'ra seguir viagem
Quando a noite vem
E também p'ra me perpetuar em tua escrava
Que você pega, esfrega, nega
Mas não lava

Eu quero brincar no teu corpo feito bailarina
Que logo te alucina
Salta e te ilumina
Quando a noite vem
E nos músculos exaustos do teu braço
Repousa frouxa, murcha, farta
Morta de cansaço

Eu quero pesar feito cruz nas tuas costas
Que te retalha em postas
Mas no fundo gostas
Quando a noite vem
Eu quero ser a cicatriz risonha e corrosiva
Marcada a frio, ferro e fogo
Em carne viva

Corações de mãe
Arpões, sereias e serpentes
Que te rabiscam o corpo todo mas não sentes


Ruy Guerra
Moçambique

31.1.08

Círculo Vicioso




As flores rareiam nos campos

Não faz mal
Desfolharei um pavão
no jogo do malmequer

E qualquer que seja a resposta
muito, pouco, nada
darei uma gargalhada
pela vaidade dos homens e dos bichos.


Ruy Guerra
Moçambique

22.1.08

Herança



Respiro
20 séculos de cultura
em cada litro de ar.

Os tratados de Genética
afirmam à priori a existência
dumas quantas veias poéticas no meu corpo.

Para não desmentir toda a Ciência
expiro os meus poemas débeis,
marcados em cada palavra
pelo ar viciado.


Ruy Guerra
Moçambique