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17.9.11

Antilírica heróica



o que é isto a voz suturada nas
quatro esquinas da boca o que é isto
são os olhos o corpo sua eterna
ebulição?

o que é isto as mãos as mãos crescem
como as folhas rompem a pele
rouca do clamor: sua
ferocidade?

o que é isto o que é isto fere-se
a larva o presságio dos vivos: terra
que estala atrás dos
lábios?

o que é isto o hálito a língua
do vento frequente no rosto na sombra
nas pernas do herói: e o herói vai
o herói vai morto.


David Mestre
Angola

7.9.11

Dedicatória


Teus dedos
vadios
colhendo flores
na renda
dos meus

recordarei de
pois quando
noutros dedos
tocava
os teus


David Mestre
Angola

18.8.11

King, Martin Luther

(in memoriam)

tua voz desliza como um pássaro aberto na lâmina do dia
ilha que se levanta e voa a partir do sol
lamento gritado da floresta por sua gazela perdida
choro grande do vento nas montanhas
ao nascimento de um escravo mais na história do vale

tua voz vem de dentro da cidade
de todas as ruas de todos os bairros e leitos da cidade onde houver um calor de pernas
contar o silêncio das horas guardadas a soco no sarilho dos ventres
com um jazz-man a assobiar na escuridão dos pares
a memória ácida dos chicotes
nos porões do mundo


David Mestre
Angola

27.2.11

Geopolítica do medo


à frente da história seguem os heróis
os santos e os poetas. e os que sobram
da provada culpa do vento, marinheiros
de cana rapados à venérea idade
do mar. e os que viemos depois
na cauda do açoite

mover os braços reter o corpo
para cá da barra, e a voz
de piratas trincados pela raiz.

daqui nos damos notícia, corsários
do medo auriculado na gengiva
dos séculos. e dos que partiram
sem barco de feição ou anel
para os dedos abertos no pródigo mês
da idade.

já nada nos destrói. nem a lágrima
encalhada na denticula vegetal para o amor.
nem ela.


David Mestre
Angola

19.1.11

Para Elisa


Embora
os passos partidos
no fundo
acaricio-te ainda
como se

inchados de beijar
o teu nome
os lábios em verso
pudessem
ainda acariciar-te


David Mestre
Angola

18.12.10

Salário de guerra


trazer a liberdade amadurecida nos dentes
trazer nos dentes a alegria do verde
a palavra força a estoirar na face
trazer uma lança atravessada nos cabelos

ser sábio de guerra, sorver o cachimbo
lentamente como um rio em seu falar
trazer a chuva num riso pequeno
amar a morte ferida
na armadilha

trazer uma fogueira na garganta
e beber o fogo com deleite, ser domador
do tempo e recebê-lo com respeito na
ponta da flecha
rasgar a noite com um punhal de estrelas
um dialecto vertical a pulsar na língua
trazer o inimigo morto de frente
a aprender nas crianças
o salário da nova gestação


David Mestre
Angola

16.10.10

Tambor


Tambor
tambor, vale bater-lhe
com a força das mãos, da voz
gasta na boca atirada por dentro
do grito

tambor, com os dentes
o nome da vida é
fala a rasgar-se contra
as paredes da pele: negra

tambor, nocturno interno nome
nas áreas baleadas do silêncio
quando os músculos se quebram na curva
dos ombros:
tambor, vale bater-lhe com a cara


David Mestre
Angola

26.7.10

Espera



Existo acento de palavra, carapinha
recordação áspera de monandengue,
mapa de conversas na visitação da lua,
grávida luena sentada no verso da fome.

aqui esqueço África, permaneço
rente ao tiroteio dialecto das mulheres
negras, pasmadas na superfície do medo
que bate oblíquo no quimbo quebrado.

num gabinete da Europa, dois geógrafos
vão assinalar a estranha posição
dum poeta cruzado na esperança morosa
das palavras africanas aguardarem acento.

David Mestre
Angola

19.2.10

Sinais de saliva



Sulco a terra
ouço
estalar
a som
bra das
palavras

Cavo
e des
cubro
raízes
adormeci
das

Procuram a
superfície
e dela
recebem
sinais de sal
iva

David Mestre (poeta angolano)

26.1.10

O sol nasce a oriente


Povo, de ti canto o movimento
teu nome, canção feita de fronteiras
lua nova, javite ou lança
tua hora, quissange em trança

Do longo longe do tempo
arde minha flecha, meu lamento
minha bandeira de outro vento
aurora urdida nos lábios de Zumbi

De ti guardo o gesto
as conversas leves das árvores
a fala sabia das aves
o dialeto novo do silêncio
e as pedras, as palavras do medo
os olhos falantes da mata
quando a onça posta a sua arte
nos fita, guardada em sua mágoa.

De ti amo a denuncia felina
das tuas mãos quebradas ao presente
a dança prometida do sol
nascer um dia a Oriente

David Mestre
Angola

28.12.09

O sapo



O sapo
sabe
saltar na lagoa

o sapo
sabe
que não voa

o sapo
chape
chape


David Mestre (poeta angolano)

24.11.09

Oh Calcutá



Teus pássaros
oh Calcutá

voam dos beirais em bandos
voláteis num alvoroço
de gritos roucos quase

humanos
contra a vidraça

Teus pássaros
oh Calcutá

um deus búdico nu
e sentado nos devolveu
num gesto vago

ausente solto
do nada

David Mestre (poeta angolano)

21.11.09

Blues




Tua voz desliza como um pássaro aberto na lâmina do dia
ilha que se levanta e voa a partir do Sol
lamento gritado da floresta por sua gazela perdida
choro grande do vento nas montanhas
ao nascimento de um escravo mais na história do vale

Tua voz vem de dentro da cidade
de todas as ruas bairros e leitos da cidade onde houver
um calor de pernas
contar o silêncio das horas guardadas a soco no sarilho
dos ventres
com um jazzman a assobiar na escuridão dos pares
a memória ácida do chicote
nos porões do Mundo

David Mestre (poeta angolano)

13.4.08

Ao sábado a cidade


Reapreender as normas do
discurso, por exemplo: ao Sábado
a cidade
ou seja: o primeiro da tua
voz entre frente e gente
repetes: ao Sábado a cidade
à ordem lambida dos
holofotes: a rusga
mal ferida no adobe exausto
da carne:
ao Sábado a cidade
transpira do transistor para a axila morna
dos salons: a catinga
interna do teu corpo sacudido na
areia devagar ao
sábado, a cidade
é: um resto de boca
no teu súbito
acordar.


David Mestre


8.3.08

O poeta deve


o poeta deve
manter-se perfilado
em andamento

respeitar o sinal
no cruzamento
manejar assim

o armamento
saber guardar
recolhimento

e não deve
tocar douvido
o instrumento

extraviar
o fardamento
com prometer

o comprimento
deste burocrático
regulamento


David Mestre
Angola

21.2.08

Portugal colonial


Nada te devo
nem o sítio
onde nasci

nem a morte
que depois comi
nem a vida

repartida
pelos cães
nem a notícia

curta
a dizer-te
que morri.

nada te devo
Portugal
colonial

cicatriz
doutra pele
apertada

David Mestre (poeta angolano)