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18.2.11

Colar de missangas


naquela rua da praça…

foi ali que a encontrei
e conheci
e gostei
de a ver passar
com a quinda na cabeça…

não notei as cores dos panos,
não notei o que levava
para vender.
só reparei
e gostei
do seu colar de missangas.

soube depois
que era recordação
dum homem com quem vivera…

um dia
- quantos já passados –
estava ela na baía
quando o guerreiro,
fogueiro
ou marinheiro
de cabotagem,
apareceu por ali.

encontrou-a
convidou-a,
ela foi
e ofereceu-lhe o colar.

depois seguiu a viagem
e a vida seguiu também.

meses passados
nasceu-lhe o filho.
gostou,
ficou contente.
Depois
morreu-lhe o filho.
chorou,
enlouqueceu de repente.

e agora
todas as manhãs
quem quiser a vê passar
a caminho da quitanda
com a quinda na cabeça.

e conta os dias
passados á espera do filho,
pelas missangas
rubras, da cor das pitangas,
que vai pondo,
dia a dia,
no fio do seu colar.
ontem
quando a vi passar
o colar
tinha dez voltas…


Aires de Almeida Santos
Angola

6.12.10

Poema da esperança


vozes vieram dos longes do mundo;
gritos soaram nos longes da noite;
braços se ergueram aos longes do céu:
homens partiram para os longes da morte;

… e os muros caíram!

as vozes se ouviram nos longes do mundo
cessaram os gritos
baixaram-se os braços
os homens voltaram.

as faces tisnadas sorriram de novo
os olhos nublados de novo brilharam.
Nas matas, as aves voltaram aos ninhos
E ao doce calor doirado do sol.

As rosas abriram!


Aires de Almeida Santos
Angola

18.11.10

Juro


Por tua culpa, Mulata,
Meu coração
Anda à toa
Sem saber onde se acoite.
Perdeu-se na escuridão
Dos teus olhos cor da noite.

Por tua culpa, só tua culpa,
Pois sei que foi causa disso
O feitiço
Do teu corpo.

Mas... Deus é grande
E... talvez
Ainda voltes outra vez
A abrasar-te em desejos,
Quianda dos meus amores.

Nesse dia
Hei-de cobrir o teu corpo
Com um vestido de beijos
E um manto de carícias.
Hei-de esmagar contra a minha
A tua boca vermelha.

Será nesse dia, então
Que terei onde me acoite,
Mesmo na escuridão
Dos teus olhos cor da noite.


Aires de Almeida Santos (Angola)

3.7.10

Tenho saudades


Tenho saudades do tempo
Em que corria descalço
Pelas areias do rio;
Comigo, os meus companheiros
Também descalços, correndo,
A correr ao desafio.

Tenho saudades do Largo
Onde estava a minha casa,
Com mulembas altaneiras;
Tenho saudades das sombras
Com que os seus ramos cobriam
Sempre as nossas brincadeiras.
(- Quem tem o canhé?
És tu!
Pescoço de ganso, monco de peru…
Quem tem o canhe?
Sou eu!
Diabo, diabo, vais p’ra o céu…)

Tenho saudades, meu Deus,
Tanta, tantas que nem sei
Como me cabem aqui;
Tenho saudades, até, Das saudades que senti.

II

No quintal da minha casa
Vestido de prata nas noites de luar,
As sombras das mangueiras
Eram rendas espalhadas
Pelo chão.
E as horas do serão
Corriam apressadas.
As moças a namorar,
As crianças a brincar
Rindo,
Cantando,
Chorando
Dum trambulhão;
As velhas, quase em surdina,
Contavam histórias do mato,
Do tempo da escravatura:
-Um branco, um coelho e um gato,
Outros bichos à mistura,
Bichos sabidos que falavam.
Depois, quando a lua descia
P’ra se esconder no Sombreiro,
Todos, todos se juntavam
Em redor da minha avó.
Havia quifufutila,
Havia pé de moleque…
…E a lua desaparecia
No Casseque!...

III

Onde está o meu quintal
Vestido de prata nas noites de luar,
Com rendas de sombras espalhadas pelo chão?
Onde estão esses meninos
Que riam chorando
Dalgum trambulhão?

A vida os levou p’ra longe de mim!

Agora, de tudo isso,
Só me ficou o feitiço
Desta saudade sem fim.
E quando a lua se esconde
No Sombreiro
Fico sozinho na praia
À laia
Não sei de quê,
Olhando o mar,
Carpindo saudades,
A olhar
A olhar…


Aires Almeida Santos (Angola)

1.6.10

A casa


A pedra, o pau, o barro,
Os alicerces
Da casa prometida
Sabida
Como certa.

A pedra dura
Madeira que se dobra
O barro que se molda
Coragem que perfura
A timidez que sobra
Paciência que se amolda.

Um bocado de sonho em cada mão,
Um resto de azul
No resto da manhã,
E amanhã,
De manhã cedo,
Sem medo,
A casa que te ofereço
Cercada de amizade.

Aires de Almeida Santos (Angola)

27.3.10

Queixa

In His Presence Art Print

Toda a noite te esperei.

Quando cheguei
Não estava ainda luar.
E fiquei
A esperar
Que viesses
Como tinhas prometido.

Toda a noite te esperei
E afinal não apareceste.

Fiquei esperando,
Esperando,
E as horas foram caindo,
Uma a uma,
Como gotas de cacimbo.

Entretanto,
Surgiu detrás da Igreja
O disco, em prata,
Da Lua.

Debaixo da gajageira,
Junto à valeta da rua
E sob a luz que me encanta
Vi nascer a madrugada
Da cor da semana santa
Vi como a noite fugia
E como raiava o dia.

Toda a noite te esperei
E afinal não apareceste...


Aires de Almeida Santos (Angola)

15.2.08

A Mulemba Secou


No barro da rua,
Pisadas, por toda a gente,
Ficaram as folhas
Secas, amareladas
A estalar sob os pés de quem passava.

Depois o vento as levou...

Como as folhas da mulemba
Foram-se os sonhos gaiatos
Dos miúdos do meu bairro.

(De dia,
Espalhavam visgo nos ramos
E apanhavam catituis,
Viúvas, siripipis
Que o Chiquito da Mulemba
Ia vender no Palácio
Numa gaiola de bimba.

De noite,
Faziam roda, sentados,
A ouvir, de olhos esbugalhados
A velha Jaja a contar
Histórias de arrepiar
Do feitiçeiro Catimba.)

Mas a mulemba secou
E com ela,
Secou também a alegria
Da miúdagem do bairro;

O Macuto da Ximinha
Que cantava todo o dia
Já não canta.
O Zé Camilo, coitado,
Passa o dia deitado
A pensar em muitas coisas.
E o velhote Camalundo,
Quando passa por ali,
Já ninguém o arrelia,
Já mais ninguém lhe assobia,
Já faz a vida em sossego.

Como o meu bairro mudou,
Como o meu bairro está triste
Porque a mulemba secou...

Só o velho Camalundo
Sorri ao passar por lá!...


Aires de Almeida Santos (poeta angolano)


29.1.08

Meu amor da rua onze



Tantas juras nós trocámos,
Tantas promessas fizemos,
Tantos beijos nos roubámos
Tantos abraços nós demos.


Meu amor da Rua Onze,
Meu amor da Rua Onze,
Já não quero
Mais mentir.


Meu amor da Rua Onze,
Meu amor da Rua Onze,
Já não quero
Mais fingir.


Era tão grande e tão belo
Nosso romance de amor
Que ainda sinto o calor
Das juras que nós trocámos.


Era tão bela, tão doce
Nossa maneira de amar
Que ainda pairam no ar
As vezes promessas, que fizemos.


Nossa maneira de amar
Era tão doida, tão louca
Que ainda me queimam a boca
Os beijos que nos roubámos.


Tanta loucura e doidice
Tinha o nosso amor desfeito
Que ainda sinto no peito
Os abraços que nós demos.


E agora
Tudo acabou
Terminou
Nosso romance


Quando te vejo passar
Com o teu andar
Senhoril,
Sinto nascer


E crescer
Uma saudade infinita
Do teu corpo gentil
de escultura
Cor de bronze
Meu amor da Rua Onze.


Aires Almeida Santos (Angola)