Mostrar mensagens com a etiqueta José Gomes Ferreira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Gomes Ferreira. Mostrar todas as mensagens

23.2.11

De eléctrico



(Num carro para Campolide. Dia Sexual)

Uma mulher de carne azul,
semeadora de luas e de transes,
atravessou o vidro
e veio, voadora,
sentar-se no meu colo
na nudez reclinada
dum desdém de espelhos.

(Mas que bom! ninguém suspeita
que levo uma mulher nua nos joelhos.)


José Gomes Ferreira

16.2.11

Rei




Nasci rei de um reinado sem rei,
Num castelo sem cor e sem ponte,
Meus comandos nos quadros da lei
Mergulharam na cálida fonte.

Meus soldados de escudo no braço,
Nunca espada tiveram na mão,
Os tambores batidos no espaço
Percutiram lembranças em vão.

A princesa do rei tão silente
No castelo vivia sem dor,
Mas o reino do rei diferente

Tinha a cor do castelo sem cor.
Nasci rei de um reinado sem rei,
Sem comando, sem povo e sem lei.


José Gomes Ferreira

31.3.10

Poeta




Poeta o que é?
Um homem que leva
o facho da treva
no fundo da mina
- mas apenas vê
o que não ilumina.

José Gomes Ferreira

21.8.08

Ah! Como te invejo

Hummingbirds with Lilies Art Print by T. C. Chiu

Ah! Como te invejo,
pássaro que cantas
o silêncio das plantas
- alheio à tempestade.

Vives sem chão
ao sol a cantar
a grande ilusão
da liberdade...

(...com algemas de ar.)

José Gomes Ferreira

9.7.08

Comício


Vivam, apenas.

Sejam bons como o sol.
Livres como o vento
Naturais como as fontes.

Imitem as árvores dos caminhos
que dão flores e frutos
sem complicações.

Mas não queiram convencer os cardos
a transformar os espinhos
em rosas e canções.

E principalmente não pensem na Morte.
Não sofram por causa dos cadáveres
que só são belos
quando se desenham na terra em flores.

Vivam, apenas.
A Morte é para os mortos!


José Gomes Ferreira

7.6.08


Nostalgia


Longe de mim está o sonho.
Dos lugares onde existi.
Das correrias que partilhei.
Dos gestos trocados por sílabas;
formas de carinho retiradas das sombras;
no granito das paredes;
nos passos na calçada;
escutando a luz do sol;
esperando gota a gota que a água refresque as palavras.


Longe de mim está a minha alma.
Nunca terei partido.
Nunca terei chegado...
Reencontro imagens de outrora.
Nem sei se existem!
Sei que partem em cada romagem ao cemitério.
São sepultadas na memória de uma nova ausência.
Uma vida desfeita em suor;
suportada na saudade;
no desfazer da lágrimas.


Perto de mim está a multidão.
Gemendo em lamentos invisíveis.
Suportando a descompostura da indiferença.
Neste labirinto me procuro.
Não desisto da solidão.
Atiro-me para este grosseiro ruído.
Finjo que é silêncio.


José Gomes Ferreira


5.4.08


Entrei no café com um rio na algibeira


Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
-onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.


José Gomes Ferreira

26.3.08


Se eu pudesse iluminar por dentro as palavras de todos os dias

(O soneto que só errado ficou certo)



Se eu pudesse iluminar por dentro as palavras de todos os dias
para te dizer, com a simplicidade do bater do coração,
que afinal ao pé de ti apenas sinto as mãos mais frias
e esta ternura dos olhos que se dão.

Nem asas, nem estrelas, nem flores sem chão
mas o desejo de ser a noite que me guias
e baixinho ao bafo da tua respiração
contar-te todas as minhas covardias.

Ao pé de ti não me apetece ser herói
mas abrir-te mais o abismo que me dói
nos cardos deste sol de morte viva.

Ser como sou e ver-te como és:
dois bichos de suor com sombra aos pés.
Complicações de luas e saliva.


José Gomes Ferreira

20.3.08


O Camponês


Ó camponês,
não me dês
os bons-dias.
Nem tires o chapéu
à morte dos dias.

Berra!

Não queiras o céu
antes da terra.


José Gomes Ferreira


18.3.08


Viver sempre também cansa.

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul
ora é cinzento, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada

O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem riem e digerem sem imaginação.

E há bairros miseráveis sempre os mesmos
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe
automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à morte!

Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando
e recomeçar depois
achando tudo mais novo?

Ah! Se eu podesse suicidar-me por seis meses
morre em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do norte.

Quando viessem perguntar por mim
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
«Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.»

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a morte ainda menina no meu colo...


José Gomes Ferreira

12.3.08


Dá-me a tua mão


Deixa que a minha solidão
prolongue mais a tua
— para aqui os dois de mãos dadas
nas noites estreladas,
a ver os fantasmas a dançar na lua.

Dá-me a tua mão, companheira,
até o Abismo da Ternura Derradeira.


José Gomes Ferreira


7.3.08


Ah! estas árvores! Estas árvores!

Cheiram a princípio do mundo.
Um mundo de seiva

Que não foi criado com lágrimas
Nem soluços de deuses,

Mas com espadas de fogo
fundas como terramotos

a fenderem o pasmo dos vulcões
E queres tu criar não sei o quê

Com o espírito que paira nas
lágrimas dos pobres


José Gomes Ferreira

26.2.08

O amor que sinto



O amor que sinto
é um labirinto.

Nele me perdi
com o coração
cheio de ter fome
do mundo e de ti
(sabes o teu nome),
sombra necessária
de um Sol que não vejo,
onde cabe o pária,
a Revolução
e a Reforma Agrária
sonho do Alentejo.
Só assim me pinto
neste Amor que sinto.

Amor que me fere,
chame-se mulher,
onda de veludo,
pátria mal-amada,
chame-se "amar nada"
chame-se "amar tudo".

E porque não minto
sou um labirinto.

José Gomes Ferreira

25.2.08

O general

O general ("Depois de fortemente bombardeada, a cidade X foi ocupada pelas nossas tropas.")


O general entrou na cidade
ao som de cornetas e tambores ...
Mas por que não há "vivas"
nem flores?
Onde está a multidão
para o aplaudir, em filas na rua?
E este silêncio
Caiu de alguma cidade da Lua?
Só mortos por toda a parte.
Mortos nas árvores e nas telhas,
nas pedras e nas grades,
nos muros e nos canos ...
Mortos a enfeitarem as varandas
de colchas sangrentas
com franjas de mãos ...
Mortos nas goteiras.
Mortos nas nuvens.
Mortos no Sol.
E prédios cobertos de mortos.
E o céu forrado de pele de mortos.
E o universo todo a desabar cadáveres.
Mortos, mortos, mortos, mortos ...
Eh! levantai-vos das sarjetas
e vinde aplaudir o general
que entrou agora mesmo na cidade,
ao som de tambores e de cornetas!
Levantai-vos!
É preciso continuar a fingir vida,
E, para multidão, para dar palmas,
até os mortos servem,
sem o peso das almas.


José Gomes Ferreira

22.2.08

E se, de repente…


E se, de repente,
Voassem dos teus olhos
Duas pombas azuis?

Então sim, poeta,
Cairia pela primeira vez no mundo
O espanto da primavera completa.


José Gomes Ferreira

17.2.08


Vai-te, Poesia!


Vai-te, Poesia!

Deixa-me ver friamente
a realidade nua
sem ninfas de iludir
ou violinos de lua.

Vai-te, Poesia!

Não transformes o mundo
descarnado e terrível
num céu de esquecer
com mendigos de nuvens
famintos de estrelas
e feridas a cheirarem a cravos
enquanto os outros, os de carne verdadeira,
uivam em vão
a sua fome de cadelas
e de pão.

Vai-te, Poesia!

Deixa-me ver a vida
exacta e intolerável
neste planeta feito de carne humana a chorar
onde um anjo me arrasta todas as noites
[para casa pelos cabelos
com bandeiras de lume nos olhos,
para fabricar sonhos
carregados de dinamite de lágrimas.

Vai-te, Poesia!

Não quero cantar.
Quero gritar!


José Gomes Ferreira

16.2.08


Vem hoje um cheiro tão bom lá de fora do mundo!
Um cheiro a esponsais de primavera
com deusas de astros na fronte
e enlaces de folhas de hera
no cabelo voado...

(Ah! se eu encontrasse a ponte
que vai para o outro lado!)


José Gomes Ferreira


14.2.08


Liberdade
é também vontade.

Benditas roseiras
que em vez de rosas
dão nuvens e bandeiras.


José Gomes Ferreira

11.2.08

Província



Cala os olhos, vagabundo.

Não me digas
que há estrelas no mundo
sem urtigas.

Não me contes
que nascem astros nos vales
para além dos horizontes.

Não me fales
de haver poentes
com as cores ardentes
das penas dum galo.

Não me tentes,
vagabundo.

Não quero ver o mundo.
Prefiro imaginá-lo.


José Gomes Ferreira

6.2.08


Leva-me os olhos, gaivota,
e deixa-os cair lá longe naquela ilha sem rota...

Lá...
onde os cravos e os jasmins
nunca se repetem nos jardins...

Lá...
onde nunca a mesma aranha tece a mesma teia
na mesma escuridão das mesmas casas...

Lá...
onde toda a noite canta uma sereia
...e a lua tem asas...
Lá...


José Gomes Ferreira