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14.7.09

As palavras




Lina,
distante dezanove dias de água,
milhas marítimas que só a lembrança vence,
teus desvanecidos traços tento definir
pois de ti só possuo, intensamente, a imagem
de um lenço branco, acenando no cais.

Assim, te completo com as quase delidas faces
dos companheiros de infância,
verdes rostos moldáveis na memória,
e os gestos e os moldes e as falas
de todos os que, vivos ou mortos, se cerro os olhos
vejo e ouço...
Deste modo, escuto ainda
o trilo de flauta que,
no recôncavo da mata à beira do córrego,
pastorzinho negro ingenuamente improvisava,
a restolhada bravia dos dedos longos do vento
lascivamente despenteando a margem verde dos canaviais
— e vejo as barbudas figueiras bravas de ao pé do pomar
onde, nas tardes de Verão, a cega-rega das cigarras
nos ficava zunindo nos ouvidos.

E os rouxinóis...
Não, não e não!
Só sei dar a tudo, coisas vivas ou inanimadas,
aves, folguedos, frutos, instrumentos, localidades,
os saborosos nomes que juntos aprendemos, e não outros:
bokota, shikumbela, timbila, Zavala,
pois, só assim, poderei evocar
com as palavras mesmas que no alvoroço da descoberta
à boca nos acudiam
(Lina, Lina, uma gala-gala naquela mafurreira!)
as nossas «grandes e terríveis aventuras».

Quando um dia, amiga, com doces termos
tivermos baptizado, escrito pela primeira vez
o nome de bichos e aves, rios e ruas,
gentes e gestos, danças e doces, frutos e factos
e os quisermos preservar na Arca-de-Noé da Poesia
será mais rico o colorido do nosso canto
pois nós, gémeos no amor da transfiguração,
pegando numa irisada palavra
a voltearmos nas mãos como precioso diamante
ou como irmã mais nova
já que do ventre da nossa mãe a recebemos.

Fonseca Amaral
Moçambique

18.6.09

Mormaço



Tarde riscada de formigas voadoras
para uma voraz geometria de bocotas e chivauvaus
assim espessa de mormaço e tremulinas
quase helénica
— se as tardes gregas fossem húmidas
como esta.
Nítidas
três cigarras em uma barbuda figueira brava
perto
febris de malária ou doutro mal lá delas
fretenem metálicas e verrumantes
— enquanto no peito vegetal de encephalartos horridus
entre verdes puas aceradas
um coração de acendido fogo
pulsa e — desmedidamente — cresce.

Quedou-se assim o tempo
tolhendo com as mãos ambas o discorrer do dia
decidido a conservar este xivito
tão de mim e tanta coisa...

Fonseca Amaral
Moçambique

6.5.09

Colono

à memória de João Luís do Amaral

Quase perdida a memória das frias águas
escorrendo pelas encostas
bíblico fitavas esta chuva
estes ventos
estas árvores de grandes sombras.

Os caminhos da juventude entre Douro e Minho
a casa velha a quinta dos invernos
— tudo palavras de um livro arrumado na estante
que (para o manter vivo)
de longe em longe passava pelos olhos.

Pão levedado de erros e grandezas
aos dentes da vida te deste inteiro
enquanto a cidade nascia sob os teus pés
crescia
e as raízes da rotina milímetro por milímetro
se iam afundando.

Partiste
sem te despedires
para a licença ilimitada mais definitiva
mas entre Chamanculo e Xipamanine
o chão que pisaste
retém teu nome para sempre.

Fonseca Amaral
Moçambique

2.4.09

Nudez



As lágrimas
Deixaram rastros molhados
E depois partiram para Além;

Os sentimentos
Fizeram-se em pó,
Que o vento dispersou por aí;

As minhas ânsias loiras
Calçaram as sandálias de viajante
E partiram para longe

Oh! todos estes ingratos fugitivos
Me deixaram assim nu
No Grande Cruzamento!

João Fonseca Amaral
Moçambique

19.3.09

Para um velho rapsodo



Canta, Muringana, canta,
na noite comprida do Chamanculo:
Ai, o Xivito que eu tenho,
a minha impala não veio hoje beber.
Kina, Kina, Kina
W psala nwana, Muringana,
W psala nwana!
A muchem te roeu o coração
e fez dele um monte de areia seca,
uma casa na solidão.
Kina, Kina até ao cansaço,
à copa das árvores até às raízes.
Bailando voas, bailando te afundas,
o chão dos mais engeitas.
Nesse ventre de homem um filho se gerou
- é o Xivito que te aperta o peito,
rouba o fôlego e entontece.
Ê - lê - lê - lê! Faz tremer o chão
Com raiva e os pés.
Chocalha esses guizos dos artelhos,
iradamente dança, ê - lê - lê - lê!
A azagaia da morte não te apanhará desprevenido.
Quando a Grande Caçadora por ti vier,
tu, em pleno salto,
morrerás no ar como so pássaros mais altivos,
Muringana, Muringana.


Fonseca Amaral
Moçambique

4.3.09

Poema



Longe da cidade:
braços decepados,
olhos vasados,
perdido,
perdido.

É outro o caminho,
é outro o destino.
Teu olhar ferido
jamais saberá
do caminho seguido...

A vereda nova
outros a talharam
enquanto dormias,
lagarto pintado
que ninguém pintou.

E quando acordaste
sem olhos nem mãos,
estavas perdido.


João Fonseca Amaral
Moçambique

26.2.09

Praia



O mar trouxe-me escombros,
Mastros, velas,
Farrapos de coisas belas,
Fantasias, assombros...

Tudo o mar me trouxe
Até uma lágrima de mulher
Guardada em desgastado relicário!

...........................................................

Vinde coisas corroídas,
Vinde à minha praia
Que eu vos esperarei alvoroçado.

João Fonseca Amaral
Moçambique

19.6.08

S’Agapo



Penélope,
nascida e criada no Alto-Maé,
filha do Kristos da cantina,
neta do Aristóteles da padaria,
vizinha de Karimo o monhé
da esquina,
irmã da helénica Sophia,
vai tecendo
e destecendo
- até ao pôr-do-sol –
tua renda de lençol
- pálida sombra do mito –
enquanto esperas
teu primo Ulisses,
o noivo aflito,
lá do Chibuto,
para as lautas bodas
no Ateneu.

Pois eu,
sem os direitos do grego astuto,
vou gritar no Largo Albasini
- ágora perfeito para tais intentos –
os meus profundos sentimentos
e lamentos.

Que os conheçam
a Polícia
a Milícia
os motoristas
as floristas
os maviques
os caciques
dos buicks
os poetas meus amigos
os colonos, dos antigos,
a casuarina
da esquina
e o cajueiro
do terreiro
- que é quintal
cá para a gente.

Penélope,
vou gritar,
sem cessar,
sem ática contenção,
até enrouquecer
de fazer dó:
S’AGAPO
S’AGAPO
S’AGAPO.


Fonseca Amaral
Moçambique

8.6.08

Poema

Para o R.G.


Na carteira, junto ao peito,
«a mais maravilhosa fotografia da nossa adolescência»:
é o mar ao fundo, as casuarinas de religioso jeito
e a nossa juvenil independência

Estranhos hoje se sentam à mesa,
bebem o vinho e mancham a toalha:
não há novidade que apague e valha
o tecido sagrado da firmeza
O ruído insidioso não conseguiu varrer
os estilhaços de vidro na memória
e a picada fina da distância, já história,
é a cidade-flor-areia,
por esquecer

Do ímpeto e da delicadeza
trazes fotografia por medalha:
é óleo puro, serena certeza,
contido em firme, bem humana talha.


Fonseca Amaral
Moçambique

13.4.08

Passagem de nível



Para o R.K.


Ali a nossa Pátria mal nascia.
A água salgada, o lodo, a maresia
eram o cuspo, o barro, o olor
com que um Deus jovem e faceto,
ao mesmo tempo urbano, pastoril e marítimo
(Seria branco ou preto?)
nos moldava de todas as cores:
pila ao léu
a verter para o céu
ou prós comboios,
a provocar os mabunos,
lá do Godine,
das entranhas reluzentes.

Shitimela shi ku psá...
Mas a ira deles, tão loiros,
seria só da nossa adâmica nudez
de machinhos inocentes?
A praia do Nhike-Panze
foi um ar que lhe deu...
Joãozinho, você não venha agora
com as suas manias,
que eu bem conheço,
evocar o que não é jamais.

O aterro está muito bem assim.
Cinco chagas!,
Você pode ficar certo duma coisa:
não só lá enterrámos a infância
mais a roupa (tão leve!)
que a envolvia.

Fonseca Amaral
Moçambique

1.4.08

Longe embora cidade paráclita


Longe embora cidade paráclita
a língua se nos cola ao céu da boca
se vier o olvido.

Banhas-te connosco em águas de desterro
flutuas sempre por nossa boca
nas praias da memória.

Nos dias mais soalheiros da diáspora
és tu quem materna vem dizer «aqui estou»
à emoção que nos habita.

Marulham outras águas aqui
mas quando as invocamos é Baía do Espírito Santo
o nome que nos corre à boca.

São lembranças que viajam para ti
mãe estuante que nos deste o leite e o mel
hoje por tão longe dissipados.

Fonseca Amaral
Moçambique

15.3.08

Para um barco que apodrece a meio da baía


Ship of the Body, Ship of the
Soul voyaging, voyaging, voyaging.
- Walt Whitman


Velho Liberal, zarcão e ferrugem ao lume de água,
cansado desta costa, tua conhecida como a palma do convés,
encostaste-te a um canto da Baía e ancoraste no sono.
Já não te desperta a malta acenando com o palhinhas
às belas marrusses das vilas costeiras,
nem o tempo em que, a escarrar e a tossir,
(Estibordo, bombordo, tantas braças, toda a estaléca àvante!)
à força de pulso, à chicotada de hélice,
lá ias, mastreado de positivismo e lírica retórica,
varando a Costa, corpo de mulher cingido de água.

Mundo familiar aquele: Funcionários, machambeiros,
magaíças, a casada por procuração,
a alacre gente ribeirinha de Inhambane e Mossuril,
a fumar com o lume dentro da boca,
e um poeta que trazia, de contrabando,
três mancheias de bruma e um rouxinol.
Quantos não fecharam já o definitivo e secreto périplo,
desembarcando lá onde não se exigem
malas, mantas, trouxas, esteiras nem cartas de chamada?

Para ti, meu navio de cabelos brancos, velho colono do mar,
vieram o cansaço, o caruncho a roer-te o casco e as articulações,
o catarro roubando-te galhardia aos silvos
que faziam saltar, bater as palmas
às gentes daqui até à Mocímboa.

Foste amarra de emoção passada entre mar e terra,
mas cansaste-te, meu velho.
Olha, arrasta-te, reumático, ao Cemitério dos Navios
e, «com vossa licença, cidadãos»,
ao lado dos mais aderna um tanto,
ajeita a chaminé debaixo da cabeça,
cerra as pálpebras das vigias,
deixa-te morrer, tristemente morrer,
com esse teu nome a evocar descabelados conluios carbonários,
muito medo para o ganho e imensos lunares de suor.

Prometo-te que nós,
deste cais onde viscoso nembo a viagem nos tolhe,
macilentos, impaludados, te acenaremos, todos os dias,
com um lenço e um sorriso de irónica simpatia.

Farewell my old ship! A água te seja leve.


Fonseca Amaral
Moçambique

L'aprés-midi d'un gala-gala





Aí vai, em espiral,
pela mafurreira acima.
De capuz azul celeste,
estreitos lombos de cinza,
seu ventre quase de nácar
arrima-se às moças. Moscas,
quero eu dizer, na verdade.

Não se importa mesmo nada
com este odor machambeiro
a massala, milho velho,
capim seco e gasolina.
Só com a árvore conta
- mais um pedaço de terra,
para as pequenas surtidas.

Mesmo pequenas surtidas?
Também tem disso, também.
Coisas da vida terrena
de um bicho tão colorido,
solteiríssimo, tristonho...

Gala-gala, gala-gala,
diz que sim, que sim, que sim,
gala-gala!

"Conversa de jaca mole",
coaxam muchachos duros.
"Temos um réptil rampante,
heroicamente falemos.
Em ramada, em campo verde,
é dragão, raio, uma espada.
Sua justa guerra às moscas,
monstros de sete mil olhos,
merece um outro poema,
muito, muito sublimado!"

Gala-gala, gala-gala,
diz que não, que não, que não,
gala-gala!
Mesmo do seio do mato,
vem Mufana, a assobiar.
Topa logo o gala-gala.
Aventa rija pedrada,
e lá se vão para as malvas
o lagarto e o poema.

Fonseca Amaral
Moçambique

27.2.08

Exílio




Longe embora cidade paráclita
a língua se nos cola ao céu da boca
se vier o olvido.

Banhas-te connosco em águas de desterro
flutuas sempre por nossa boca
nas praias da memória.

Nos dias mais soalheiros da diáspora
és tu quem materna vem dizer «estou aqui»
à emoção que nos habita.

Marulham outras águas aqui
mas quando as invocamos é Baía do Espírito Santo
o nome que nos corre à boca.

São lembranças que viajam para ti
mãe estuante que nos deste o leite e o mel
hoje por tão longe dissipados.


Fonseca Amaral
Moçambique

24.2.08

Impressionismo




Menina negra foi a enterrar
em caixão branquinho
enfeitado com uma cruz vermelha.
O branco falava da virgindade
e o vermelho do sangue d'Aquela
cujo sangue também coagulou.

O sol entornava amarelo
e o verde-verde dos ciprestes
não falava de esperança.

Naquele falso bailado de cores
menina negra foi a enterrar.

Fonseca Amaral
Moçambique

14.2.08

Evocação



Lembras-te, Lina,
Do beijo roubado entre girassóis
Ou de quando íamos
De mãos dadas, meninos,
Ouvir as barcarolas
Do marinheiro negro da praia?

Mamana Cellina
Não mais voltou à esquina da rua
Com suas badgias picantes e castanhas de caju
E o negro coxo que jogava futebol
Morreu numa noite de bebedeira.

Lembras-te, Lina,
do moleque Fabião que nos trazia do mato
Maçalas e amendoim?
É agora um velho alquebrado
À porta da palhota
Embrulhado numa réstea de sol.

Os nossos companheiros de outrora
Se dispersaram também:
Os meninos brancos trabalham nos escritórios
Zé mulato sonha Brasis e ritmos de samba
E o Gungunhana
Vende frutas numa banca do bazar.

Lembras-te, Lina,
De quando quedávamos amarrados
Ao sortilégio que nascia
Duma marimba gemendo na noite
Ou de quando ouvíamos atentos
Negro Fabião bêbado, a cantar?

Do bairro novo que aqui nasceu
Fugiram as timbilas chopes
E moleque Fabião não tem mais
Força para cantar…

Lembras-te, Lina?


Fonseca Amaral
Moçambique

17.1.08

Penitência




Vou expor-me a um Vento
Vou expor-me a uma Chuva
Sem um lamento.

Vou expor-me a uma Chuva
Para te lavar, ó corpo vil,
Para te livrar da densa bruma
Que sinto dentro em ti
Tão dentro, tão dentro
Que é quase fora de ti.

Vou expor-me a um Vento,
Para tu, Alma, voares bem longe
E só voltares
Depois de o corpo expurgado
Clamar por ti.

Fonseca Amaral
Moçambique

7.1.08

Karamchand



O Guru, de olhos tão antigos,
tem seu miúdo comércio
numa loja de penumbras
Sorri
e as mãos, magros insectos amestrados,
tudo apertam num retrós de perfeição.

Se a um curto gesto
a um milimétrico acto
impõe sacralidade,
os lábios escravos, esses,
salmodiam o cântico de compra-e-venda:
(Buísa mali! Teka basela! Buísa! Teka!)
- rio múrmuro que sua barca
- tem, solarmente, de percorrer.

Escurece. Fecha a porta, Mestre.
Enquista-te, aranha, no canto mais obscuro.
Não te torças,
sicómoro batido de vento.
Não te espreguices,
felino de olhos acendidos.
Mas tu, Mestre, lança essa teia,
saliva irisada de palavras,
agita os braços, distende os músculos,
à espera de bala ou pedra ou eco...

Chega-se a hora de, por teu discorrer,
se escancararem, para alguns de nós,
imprevistos corredores, arcadas e portões.
Karamchand tornam-se, a partir daí,
todas as coisas tão imponderáveis,
germinando sagradas, abissais,
sob o resfolegar asmático do petromax!

O mundo maya é ilusão,
insistes petrificado, madrugada adentro,
rasgando-te a boca o cinzel verbal do Lakavatara.
Mas Karamchand, Mestre, desperta,
já te deu o sol no rosto.

Passa a mão e uma púcara de água
por esses olhos tão antigos,
volta aos panos, agulhas e linhas
- tua habitação diurna -
por detrás do sórdido balcão.

Será mesmo de sombras o mundo maya,
ó meu guru iludido,
sombrio baneane de raízes ao vento,
lingam murcho, frio,
já sem amoroso porto a demandar

Fonseca Amaral
Moçambique