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11.2.11

Nós


Quem não quer vir, que não venha.
que o dó me faz perdoar
e persistir na campanha.
Talvez,
quando eu já for percebido,
se arrependam,
e a troça então se lhes mude
num sorriso constrangido.

Não venham, que eu vou por eles
e gritam por minha boca
suas bocas,
fechadas, ou por vergonha,
ou por orgulho, ou por falta
de aquela fé que me arrasta.


Descansem!....
Se eu lá chegar, faz de conta
que quem chegou foram eles;
e faço da multidão
a capa para os meus ombros;
e Deus, que não me distingue
(eu com todos me pareço),
pra não deixar-me sem prémio
há-de dar a cada qual
que eu só mereço.

Se eu lá chegar....
Mas eu chego!...
Nem que de aqui a três passos
se me cansassem os braços
e as pernas se me partissem
e a vida se me acabasse,
ali, na terra, caído,
eu já teria chegado:
tanto vale minha Esperança,
que o Céu começa onde quer
que eu solte a última voz;
e a Mão que as feridas me afague,
no gesto de as afagar,
deixou as portas do Céu
abertas de par em par.

Onde eu morrer, já cheguei.
As portas hão-de se abrir,
por Prémio que Deus me deu.
E eu vou entrar, arrastado
por todos vós, meus Irmãos,
tão convosco embaralhado
que ao ver-me dentro do Céu
não posso já precisar
qual de nós é que sou eu.


Sebastião da Gama

9.12.09

Presépio



Nuzinho sobre as palhas,
nuzinho - e em Dezembro!
Que pintores tão cruéis,
Menino te pintaram!

O calor do seu corpo,
pra que o quer tua Mãe?
Tão cruéis os pintores!
(Tão injustos contigo,
Senhora!)

Só a vaca e a mula
com seu bafo te aquecem.

- Quem as pôs na pintura?


Sebastião da Gama

7.12.09

Ao Menino Jesus

 (550x600, 817Kb)

Fiz a maldade e olhei Jesus.
Ele baixou os olhos e corou,
e toda a gente julgou
que quem fez a maldade foi Jesus.

E todos lhe perdoaram.

- Obrigado, Menino! Mas agora
tira os olhos do baile e vem brincar,
que eu prometo, p’ra naõ te ver corar,
já não fazer das minhas.
Anda jogar, ao pé das flores, no chão,
comigo, às cinco pedrinhas...
anda jogar, p’ra não esqueceres
o preço do meu perdão.


Sebastião da Gama

5.8.08


À Florbela



(em sua memória)


Sou eu, Florbela! Aquele que buscaste.
Falam de mim Teus versos de Menina.
Tua boca p’ra mim se abriu, divina,
mas foi só o Luar que Tu beijaste.

Hás-de voltar, Florbela!… Em débil haste,
por entre os trigos cresce, purpurina,
a mais fresca papoila da campina
que, só por me veres, não cortaste.

Eu tenho três mil anos: sou Poeta.
Surgi dos lábios secos dum asceta,
de uma oração que Deus deixou de parte.

Redimi tantos corpos, tantas vidas
neles vivi, que sinto já nascidas
asas com que subir para alcançar-Te
(…)

Sebastião da Gama

22.6.08


Viesses tu, Poesia



Viesses tu, Poesia
e o mais estava certo.
Viesses no deserto,
viesses na tristeza,
viesses com a Morte...

Que alegria mereço, ou que pomar,
se os não justificar,
Poesia,
a tua vara mágica?

Bem sei: antes de ti foi a Mulher,
foi a Flor, foi o Fruto, foi a Água...
Mas tu é que disseste e os apontaste:
- Eis a Mulher, a Água, a Flor, o Fruto.
E logo froam graça, aparição, presença,
sinal...

(Sem ti, sem ti que fora
das rosas?
Mortas, mortas pra sempre na primeira,
mortas à primeira hora.)

Ó Poesia!, viesses
na hora desolada
e regressara tudo
à graça do princípio...


Sebastião da Gama


19.6.08


O Papagaio de Papel


Deixem-no lá, deixem-no lá, o papagaio!
Deixem-no lá, bem preso à terra,
vibrando!

Aos arranques,
a fazer tremer a terra,
a querer voar
pelo ar
até pertinho do Céu…

Deixem-no lá, deixem-no lá, o papagaio!
Deixem-no lá viver a sua inquietação
e ser verdade aquela ânsia
de fugir.
Não lhe cortem o cordel!
Poupem o papagaio à dor enorme
de cair,
papel inútil, roto, pelo chão.

Não lhe ensinem,
ao pobre papagaio de papel,
que a sua inquietação
é a única força que ele tem.

Deixem-no lá,
naquela ânsia de fuga,
no sonho (a que uma navalha
pode dar o triste fim)
de fazer ninho no Céu:
Sempre anda longe da terra, assim,
o comprimento do cordel…

Deixem-no lá, deixem-no lá,
o papagaio de papel!...


Sebastião da Gama

12.5.08


Elegia segunda


Todos os pássaros, todos os pássaros
Asas abriam, erguiam cantos,
De Amor cantavam.
Todos os homens, todos os homens,
De almas abertas, de olhos erguidos,
De Amor cantavam.
De Amor cantavam todos os rios,
Todas as serras, todas as flores,
Todos os bichos, todas as árvores,
Todo os pássaros, todos os pássaros,
Todos os homens, todos os homens.
De Amor cantavam...

Sebastião da Gama


8.5.08


Plenitude


Sorri, sorriste. O Mundo era pequeno.
Mas bastava. Cabia nele, intacto,
o encantamento pleno
que te detinha ali, junto de mim,
que nos detinha ali, serenos, puros
longe da multidão, longe do Tempo
rio que passava ao largo e nós ficávamos.


Sebastião da Gama


30.4.08


Quatro mil soldados


Ra ta plá ta plá
quatro mil soldados
vão mecanizados
pela estrada fora.

Sereninha a hora,
manhã linda, linda,
mas os quatro mil
marcham indiferentes.

Ra ta plá ta plá
que bonito é!
Mas à volta há flores
e nenhum as vê.

Passam andorinhas,
dizem-lhes recados.
De olhos encantados,
passam raparigas.

Ondas lhes acenam.
Melros e pardais
fazem-lhes sinais
pela estrada fora.

Mas os quatro mil
vão mecanizados.
Passos acertados
pelo rataplã;

os ouvidos dados
só ao rataplã;
olhos cegos, cegos,
coração entregue

só ao rataplã
(Ra ta plá ta plá
Ra ta plá ta plá
Ra ta plá ta plá)

Que monotonia!
Que enfadonha letra!
Entretanto os melros
trinam de alegria.

Trinam, trinam, troçam.
Quatro mil soldados,
todos combinados,
negam a manhã!

Ra ta plá ta plá
Ra ta plá ta plá
Ra ta plá ta plá
Ra ta plá ta plá


Sebastião da Gama

4.4.08


Poesia depois da chuva


Depois da chuva o Sol - a raça.
Oh! a terra molhada iluminada!
E os regos de água atravessando a praça
- luz a fluir, num fluir imperceptível quase.

Canta, contente, um pássaro qualquer.
Logo a seguir, nos ramos nus, esvoaça.
O fundo é branco - cai fresquinha no casario da praça.
Guizos, rodas rodando, vozes claras no ar.

Tão alegre este Sol! Há Deus. (Tivera-O eu negado
antes do Sol, não duvidava agora.)
Ó Tarde virgem, Senhora Aparecida! Ó Tarde igual
às manhãs do princípio!

E tu passaste, flor dos olhos pretos que eu admiro.
Grácil, tão grácil!... Pura imagem da tarde...
Flor levada nas águas, mansamente...

(Fluida a luz, num fluir imperceptível quase...)

Sebastião da Gama


18.3.08


Poema da minha esperança


Que bom ter o relógio adiantado!...
A gente assim, por saber
que tem sempre tempo a mais,
não se rala nem se apressa.


O meu sorriso de troça,
Amigos!,
quando vejo o meu relógio
com três quartos de hora a mais!...


Tic-tac... Tic-tac...
(Lá pensa ele
que é já o fim dos meus dias.)


Tic-tac...
(Como eu rio, cá p'ra dentro,
de esta coisa divertida:
ele a julgar que é já o resto
e eu a saber que tenho sempre mais
três quartos de hora de vida.)


Sebastião da Gama


26.2.08

Toada do ladrão


A mim não me roubaram
Porque eu nada tinha.
Mas roubaram tudo
À minha vizinha.

Vejam os senhores:
Roubaram-lhe a ela
A filha mais grácil,
A filha mais bela.

Nem na sua casa,
Nem na freguesia,
Sequer no concelho,
Melhor não havia.

Prendada, bonita...
E depois... uns modos
De matar a gente,
De prender a todos.

Dizia a vizinha
Que era o seu tesoiro;
Que valia mais
Que a prata e que o oiro.

Que a não trocaria
Por coisa nenhuma;
Que filhas assim
Só havia uma.

Pois hoje um ladrão
Que há muito a mirava
Entrava-lhe em casa
Para sempre a levava.

É a minha vizinha
Dona de solares
E de longas terras
Com rios e pomares.

E de jóias raras
Que ninguém mais tinha,
Ei-la num instante
Pobrinha... pobrinha...

(Tem pomares ainda,
Tem jóias, tem oiro...
Mas de que lhe servem
Sem o seu tesoiro?)

- Vizinha e senhora,
Não me queira mal!
Se há ladrões felizes
Sou o mais feliz
Que há em Portugal.


Sebastião da Gama


19.2.08

Elegia para uma Gaivota



Morreu no Mar a gaivota mais esbelta,
A que morava mais alto e trespassava
De claridade as nuvens mais escuras com os olhos

Flutuam quietas, sobre as águas, suas asas
Água salgada, benta de tantas mortes angustiosas, aspergiu-a
E três pás de ar pesado para sempre as viagens lhe vedaram.

Eis que deixou de ser sonho apenas sonhado.
-: É finalmente sonho puro,
Sonho que sonha finalmente, asa que dorme voos

Cantos dos pescadores, embalai-a!
Versos dos poetas, embalai-a!
Brisas, peixes, marés, rumor de velas, embalai-a!

Há na manhã um gosto vago e doce de elegia,
Tão misteriosamente, tão insistentemente,
Sua presença morta em tudo se anuncia.

Ela vai, sereninha e muito branca.
E a sua morte simples e suavíssima
É a ordem-do-dia na praia e no mar alto.


Sebastião da Gama





6.2.08

O Menino Grande


Também eu, também eu.
joguei às escondidas, fiz baloiços,
tive bolas, berlindes, papagaios,
automóveis de corda, cavalinhos...

Depois cresci,
tornei-me do tamanho que hoje tenho;
os brinquedos perdi-os, os meus bibes
deixaram de servir-me.
Mas nem tudo se foi:
ficou-me,
dos tempos de menino
esta alegria ingénua
perante as coisas novas
e esta vontade de brincar.

Vida!,
não me venhas roubar o meu tesoiro:
não te importes que eu ria,
que eu salte como dantes.
E se eu riscar os muros
ou quebrar algum vidro
ralha, ralha comigo, mas de manso...

(Eu tinha um bibe azul...
Tinha berlindes,
tinha bolas, cavalos, papagaios...
A minha Mãe ralhava assim como quem beija...
E quantas vezes eu, só pra ouvi-la
ralhar, parti os vidros da janela
e desenhei bonecos na parede...)

Vida!, ralha também,
ralha, se eu te fizer maldades, mas de manso,
como se fosse ainda a minha Mãe...


Sebastião da Gama


3.2.08

A minha História


A minha história é simples
A tua, meu Amor,
É bem mais simples ainda:

"Era uma vez uma flor.
Nasceu à beira de um Poeta..."

Vês como é simples e linda?

(O resto conto depois;
Mas tão a sós, tão de manso,
Que só escutemos os dois.)

Sebastião da Gama

29.1.08

Pequeno Poema


Quando eu nasci
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais ...
Somente,
esquecida das dores
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém ...

Para que o dia fosse enorme
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos da minha Mãe ...


Sebastião da Gama





17.1.08


Somos de barro. Iguais aos mais.
Ó alegria de sabe-lo!
(Correi, felizes lágrimas,
por sobre o seu cabelo!)

Depois de mais aquela confissão,
impuros nos achamos;
nos descobrimos frutos
do mesmo chão.

Pecado, Amor? Pecado
fôra apenas não fazer do pecado
a força que nos ligue
e nos obrigue a lutar lado a lado.

O meu orgulho assim é que nos quer.
Há de ser sempre nosso o pão, ser nossa a água.
Mas vencidas os ganham, vencedores,
nossa vergonha e nossa mágoa.

O nosso Amor, que história sem beleza,
se não fôra ascensão e queda e teimosia,
conquista... (E novamente queda
e novamente luta, ascensão... ) Ó meu amor, tão fria,

se nascêramos puros, nossa história!
Chora sobre o meu ombro. Confessamos.
E mais certos de nós, mais um do outro,
mais impuros, mais puros, nós ficamos.

Sebastião da Gama

16.1.08

Cantilena



Cortaram as asas

ao rouxinol

Rouxinol sem asas

não pode voar.

Quebraram-te o bico,

rouxinol!

Rouxinol sem bico

não pode cantar.

Que ao menos a Noite

ninguém, rouxinol!,

ta queira roubar.

Rouxinol sem Noite

não pode viver.


Sebastião da Gama


O Sonho




Pelo Sonho é que vamos,

comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?

Haja ou não haja frutos,

pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos,

Basta a esperança naquilo

que talvez não teremos.

Basta que a alma demos,

com a mesma alegria,

ao que desconhecemos

e do que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

- Partimos. Vamos. Somos.



Sebastião da Gama


20.9.07




A verdade era bela,
como vinha nos livros.
À beirinha das águas
a verdade era bela.

Os que deram por ela
abriram-se e contaram
que a verdade era bela.

Quase todos se riam.
Os que punham nos livros
que a verdade era bela,
muito mais que os outros.

A verdade era bela
mas doía nos olhos
mas doía nos lábios
mas doía no peito
dos que davam por ela.


Sebastião da Gama