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23.9.08

Desabafo


Oh! Que bom seria transformar
Os falcões em pombas
E fazer as pombas sorrirem na Primavera
Oh! Como gostaria eu
De beijar na boca a madrugada
E afagar com os meus dedos
os cabelos do futuro
para que a paz e a liberdade
fossem universais.

Vasco Cabral (poeta guineense)

23.8.08


Aos Poetas



poeta
a vida
é o melhor
poema

faz do verso
a charrua
de mil braços

queremos ver a terra fecundada

Vasco Cabral (poeta guineense)

1.5.08


Os poetas gostam de alinhar
Versos e mais versos
E construir Universos
De palavras.


Vasco Cabral (poeta guineense)


Anti-holocausto


Se o Universo
coubesse
na linha de um verso
e se pudesse
transformar-se em prado
seria
uma felicidade
e também uma alegria
para a Humanidade

E em vez da guerra
só haveria a Paz
para todos o homem na terra!


Vasco Cabral (poeta guineense)


31.1.08


Esperança



É como se alguém me pisasse
e eu me risse
- uma alegria toda cor e luz.

É como se alguém me batesse
e eu cantasse
- um canto de amizade e paz.

É como se alguém me cuspisse
e eu passasse indiferente
- um caminho claro como o dia.

É como se alguém me apunhalasse
e eu o abraçasse
- um fogo de fraternidade humana.

Eu sei o teu nome, eu sei o teu nome
este vício secreto e interior
esta badalada do relógio da alma
este pulsar no coração do mundo
esta consciência duma ferida em chaga
este sentir a dor duma mulher pobre e faminta.

Eu sei o teu nome, eu sei o teu nome
Ó silencioso grito dos camponeses sem terra!
Ó vento da certeza que os carrascos temem!


Vasco Cabral (poeta guineense)


29.1.08

O último adeus dum combatente !


Naquela tarde em que eu parti e tu ficaste
sentimos, fundo, os dois a mágoa da saudade.
Por ver-te as lágrimas sangrarem de verdade
sofri na alma um amargor quando choraste.

Ao despedir-me eu trouxe a dor que tu levaste!
Nem só o teu amor me traz a felicidade.
Quando parti foi por amar a Humanidade
Sim! foi por isso que eu parti e tu ficaste!

Mas se pensares que eu não parti e a mim te deste
será a dor e a tristeza de perder-me
unicamente um pesadelo que tiveste.

Mas se jamais do teu amor posso esquecer-me
e se fui eu aquele a quem tu mais quiseste
que eu conserve em ti a esperança de rever-me!


Vasco Cabral (Guiné)


24.1.08


Datas



Há datas que não são um número, um mês e um ano.
Há datas que vivem dentro de nós
Vivem com a nossa intimidade, o nosso calor.
São como a linfa do nosso sangue.
(A minha infância, o despertar!)

Há datas que falam como se tivessem boca
e deixam um traço cá dentro, na alma,
como uma cicatriz num rosto.

(A tristeza e a dor dos horrores da guerra!)

Um dia de chuva toda a gente esquece.
Mas um dia de cheia vive no coração dos pobres
como a melancolia das árvores desfolhadas no coração do poeta
Como um grito sem destino que furasse o céu
Viveria no coração dos homens!

Um dia de Paz parece um dia vulgar
Mas é como um canto de glória na voz da Primavera
Um dia de Paz não é nunca um dia vulgar!


Vasco Cabral (poeta guineense)