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8.1.11

Uma obra imortal



Hoje, meu amor, quero confessar-te
a minha intenção de criar,
por palavras de sede, esconjuro e sonho,
uma obra onde imortalizarei
todos os teus gestos.

Por isso, peço-te, nos próximos anos não me
telefones, escrevas cartas, envies ramos de flores,
ou deixes recados no atendedor de chamadas,
sequer me surpreendas à saída do emprego.
Sabes como eu adoro surpresas,
como pouco aprecio a solidão, esse
refúgio de falsos guerreiros que
misturam o alcoól da tristeza
com a tranquilidade mansa da noite.

se fores capaz de cumprir este meu desejo
prometo que criarei uma obra
que os vindouros aclamarão.

Faz com que os teu passos
esqueçam o trilho dos meus
e eu possa finalmente escrever.

(Toca o telefone. Oh és tu de novo...
sim, deixa-me só tomar um duche,
mudar de roupa. Aonde é que vamos dançar?)


Jorge Gomes Miranda

29.7.10

À saída do cinema



Estou aqui a olhar para as tuas mãos
e de súbito tudo fica silencioso
os livros na sala ao lado
a máquina do café.

Há uma areia nas palavras
um cais onde se inclinamos a face
a dor emerge como um vento.

À saída do cinema pedi-te o telemóvel
para dizer que iria chegar atrasado
demasiado cedo para o que queria: beijar-te
distante dos difíceis campos devolutos,
atrás da árvore,
o cabelo espelhado na represa.


Jorge Gomes Miranda

9.6.10

Ao sair da infância



Não detivemos a pedra: um pássaro ferido;
não calamos o medo: um rasgão na pele;
não restituímos à luz a serenidade.

É certo que respirávamos,
abríamos as mãos,
esperávamos a noite diante de um livro muito sublinhado.

Até que alguém interrompendo o silêncio
abria a porta do quarto
e dizia: «Já que não sabes rezar
bebe ao menos um copo de leite
antes de te dares ao sono.»


Jorge Gomes Miranda

19.2.10

O errante



Um dia, tínhamos decidido
faltar às aulas, perguntou-me:
«o que fazes de noite
para estares sempre tão triste de manhã?»

A noite: ruas que retemos na memória:
a distracção para tudo o que não seja
o que lábios vêem
ou nada existir para lá do limite rugoso das

palavras, incessantes fulgores
mas que nada restituem
quando estrela alguma cinge o errante.


Jorge Gomes Miranda

26.7.09

Mola de roupa




Conservei-me afastada do estendal
durante algum tempo.
Sofro de vertigens, por isso
intimidava-me olhar para baixo,
o pátio vazio, restos de flores secas.
Um prédio com dez andares
e ele tinha logo que viver no último,
tendo como horizonte o mar
de terraços e antenas parabólicas.

Quando, chegado com a roupa
da máquina de lavar,
pega em mim,
de suas mãos eu deslizo para o chão.
Apressado, em vez de me apanhar
imediatamente, escolhe outra;
no final, atira-me para o cesto
de verga.

Não é que seja particularmente ardilosa,
mas verdade seja dita, preferia ser
mola de rés-do-chão,
dessas que faça sol ou chuva
sempre prendem a roupa numa corda
estendida no pátio.
O destino quis-me feita de plástico,
com um coração inclinado à melancolia.
Tenho, no entanto, como divisa
antes quebrar que torcer.

Sonho com o dia em que nas mãos da criança
serei um comboio.


Jorge Gomes de Miranda

10.4.09

A harmonia inquieta



Traço um círculo, a luz perdida
do luar, ao redor do teu nome,
da memória do teu rosto ausente por
campos de férias, rios que já não
devolvem a minha imagem.

Escrevo-te cartas. As maçãs apodrecem
na cozinha. Deito-me a meio da tarde
para descansar de não ouvir a tua voz.
Compromissos para esquecer o que
chegará um dia sem sabermos a dor.

Pelas mãos a água corre,
a fronte inclinada quase toca
a harmonia quieta do lavatório.

Por momentos escuto o canto de
um pássaro na varanda,
antes de a buzina de um carro
me arremessar para o terror da manhã.


Jorge Gomes Miranda