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29.6.11

Estou de novo no meu país



Estou de novo no meu país
ou num pedaço de terra exasperada,
que é o teu corpo,
com a mesma sede dos subterrâneos,
com a mesma ânsia do sol
que busca o poente debaixo do oceano.

Para ele parti todo dardejante
e sem deixar de colher o grito da noite,
Teu corpo onde me deito à noite
e atravesso de mar em mar
como quem procura o caminho súbito,
aqui que reside o ar, todo o calor, a melhor paz,
é o porto da chegada do vento, o céu dos pássaros j:
ou o verdadeiro vinho dos uvais,
ou mesmo o trigo.

Teu corpo,
só o teu corpo, meu amor, e mais nenhum,
tem flancos curvos, estradas profundas, algas livres,
estrelas marinhas, corais doces e ilhas e lagoas.

Porém cantar o teu corpo
é como se trouxesses a boca à beira do mar
e me contaminasses a saliva com o sabor do pão,
a luz e toda a sorte que procuro: o beijo,
os dedos, os corais, a cor da música e o uivar
das águas.


Adelino Timóteo
Moçambique

14.2.11

O que sabem recordar as minhas mãos



O que sabem recordar as minhas mãos
senão algumas facetas do teu corpo,
neste artifício vivido?

Eu já não sei se te amo quando te escrevo
ou se te escrevo quando te amo.
Mas o melhor seria esculpir-te!

Eu gostaria de esculpir-te
agora nesta página tão aberta ao relento,
mais vil metal fazer-te
ao coração o amor tão puramente gravado
para que permaneças sempre viva
e acesa às gerações,
essa vaidade sintam os outros
e gozes do privilégio de quem soube amar a felicidade.


Adelino Timóteo
Moçambique

19.11.09

Reparo o amor com virtude de um pássaro


Reparo o amor com virtude de um pássaro
que quer voar em direcção
à larga linha do horizonte,
com tanta gente aqui neste país que o anuncia
e o desperdiça a feri-lo em disputa,
a magoá-lo, a alvejá-lo,
quando o mesmo pode ser uma dilecta criação do peito

Um amor, por si só, vale tanto,
vale mais que nada, vale tanto como a vida,
exprime a cor da sua sede,
ao alto dois pássaros a voar.

O amor não merece as pedras
que todos os dias o atiramos.

Invés de acusares a inconsciência que o invocas
se amas, e não te correspondem,
desde já não uses travões nem borracha.

Pelo contrário,
desse pouco lucro que te dão as estrelas
contenta-te até,
que o amor é assim mesmo,
sempre a transportar a dor ao âmago.


Adelino Timóteo
Moçambique

17.9.09

É tão lindo e contagiante observarmos o país


É tão lindo e contagiante observarmos o país
a partir do alto, onde nos encontramos de momento.
Fico com a impressão ousada, ao tocar na tua boca,
que vivemos equilibrados em relação a
outras nações do globo. O amor não faz a regra,
de facto. Foi com ritmo que o imprimimos
ao iniciá-lo. Confesso que foi através desse
dinamismo que transpus a angústia, vivi e
reinventei as emersas paisagens desta pátria
martirizada por destroços de guerra.
O tempo ajudará a curar a nossa dor e a ferida
que foi a nossa renitente sobrevivência
sobre o espelho de fogo. É por cima desta prova
evidente que te ensino o quanto vale amar
nesta dialéctica de triste viver e ser pássaro,
dentro de uma ténue esperança.


Adelino Timóteo
Moçambique

20.7.09

Dói fitar-te assim de norte a sul



Dói fitar-te assim de norte a sul
nesta manhã
e ver como o teu corpo se incendeia
dentro dos meus olhos.

Dói fitar-te e de repente explanar-me de baba
mesmo sem pousar-te com as mãos,
nem fazer-te
enquanto a ferida se anuncia ao porto.

Se o dia não parasse de crescer,
escalava-te já as entranhas.
Mas agora não!
Guarda o calor que te mergulha nesta ânsia
para essa véspera que logo reprincipia.

Que o amor não sobrevive à expensa das armas
nem à força deste terror de vivermos iguais,
um na carne do outro.
É preciso guardarmos longe as armas.
As armas não prestam para o tipo de adoração
que te proponho agora.

Guarda tudo isto amor,
até que eu me inspire de novo
noutro voo ao pôr-do-sol!


Adelino Timóteo
Moçambique