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27.1.08

Sofrimentos


A dor que em mim mora
não é o mal no meu corpo
carne destinada à terra húmida
última guardiã do sofrimento

pois esse já fiz oferenda
ao mais Homem de todos os Homens
mumificado pela injustiça humana
que estrangula o nosso ser

a dor que em mim mora
é a que vi em Bissau
é a que viveram na travessia para Dakar
é a que viveram na travessia para Cabo Verde
é a que vejo no corpo dos outros


Carlos-Edmilson M. Vieira (poeta guineense)


24.1.08


Poeta


Não!
Não me chamem poeta... porque
aquele de barriga grande
cheia de nada

Tem poema no corpo

Não!
Não me chamem poeta... porque
aqueles olhos perdidos de desespero
cara de criança sem infância

Tem poema no rosto


Não!
Não me chamem poeta... porque
aqueles pés descalços
que caminham léguas de esperança
na ânsia de sobreviver

Tem poema na alma

Não!
Não me sinto poeta...porque
aquele que na tabanca
com engenhos de trapos faz brinquedos a
toda sua vida
são poemas
dedicados a quem nunca os lê


Carlos Edmilson Vieira (poeta guineense)