"A poesia é o eco da melodia do universo no coração dos humanos." Rabindranath Tagore
6.5.10
2.5.10
Meu país
De campos cultivados
De praias e montanhas.
É para ti meu canto
A minha esperança.
Ouço a tua voz triste
Oh, meu país sem culpa
Ouço-a nos dias mornos
No amanhecer cinzento.
E é para ti meu canto
A minha esperança.
Meu país onde a traição domina
E o medo assoma nas encruzilhadas
Meu país de prisões e covardias
E de ladrões de estradas.
Meu país de operários
Cavadores, marinheiros
Meu país de mãos grossas
Plebeu, sensual, resistente.
É para ti meu canto
A minha esperança.
Para ti meu país
Levanto a minha voz sobre o silêncio
Desta noite de angústias
E de medos.
Nada pode calar
O nosso riso aberto
Ei-lo que invade
A terra portuguesa
E vozes juvenis formam o coro.
Por isso é para ti meu canto
A minha esperança.
Já ouço passos,
Vêem na distância
Desfraldando bandeiras e cantando
E é para ti oh! meu país liberto
O seu canto de esperança e claridade.
30.4.10
Romance de Tomasinho Cara-Feia

Que é o mais que a terra dá,
Tomasinho Cara-Feia
vai prá pesca da baleia.
Quem sabe se tornará?
Torne ou não torne, que tem?
Vai cumprir o seu destinho.
Só nha Fortunata, a mãe,
Que é velha e não tem ninguém,
Chora pelo seu menino.
Torne ou não torne, que importa?
Vai ser igual ao avô.
Não volta a bater-me à porta;
Deixou para sempre a horta,
que a longa seca matou.
Tomasinho Cara-Feia
(outro nome, quem lho dá?),
farto de sol e de areia,
foi prá pesca da baleia.
— E nunca mais voltará!
Daniel Filipe (Cabo Verde)
29.4.10
A Ilha e a Solidão

E já saudade a vela, além.
Serena, a música esvoaça
na tarde calma, plúmbea, baça,
onde a tristeza se contém.
os pares deslizam embrulhados
de sonhos em dobras inefáveis.
(Ó deuses lúbricos, ousáveis
erguer, então, na tarde morta
a eterna ronda de pecados
que ia bater de porta em porta!)
E ao ritmo túmido do canto
na solidão rubra da messe,
deixo correr o sal e o pranto
- subtil e magoado encanto
que o rosto núbil me envelhece.
Cabo Verde
27.4.10
Quando eu morrer

e te sentes na cama como fazias antigamente.
Afasta-me os cabelos e olha-me nos olhos. Não me beijes
porque beijar um morto causa repugnância
e eu não quero que o nosso último encontro seja amargurado.
Depois, hás-de falar. Como outrora o fazias,
ao morrer melancólico da tarde,
quando vinhas e ficávamos a fitar-nos fixamente,
como se a Vida parasse para além dos nossos olhos,
e o mundo fosse o quarto e nós dois a humanidade inteira.
Hás-de falar, Amor. Não importa de quê
desde que o faças carinhosamente baixo...
Dir-me-ás qualquer coisa. Qualquer coisa, mas que sejas tu a dizê-la,
e eu possa ouvir-te, como outrora, extático e feliz,
mudamente, inexplicàvelmente deslumbrado...
E ouve, Amor, não chores. Que eu quero que no último encontro
o teu rosto conserve a beleza dos encontros antigos.
Olha-me nos olhos e lastima-me interiormente.
Eu estarei presente e, de algum modo, ouvirei a prece
que hás-de rezar no silêncio cálido do quarto.
Daniel Filipe, 1946
20.4.10
Canto e lamentação na cidade ocupada

É preciso cantar, é preciso sorrir,
encher a escuridão com árvores sem nome.
Estamos sós no mistério dos nossos quinze anos.
A tormenta passou. A comida arrefece.
A viagem sem história concede-nos a calma:
serenos existimos, ocultos, dominados.
Só o navio de fogo navega sobre as águas
(ponto negro no mapa que não teremos nunca).
No silêncio da espera, murmuramos palavras,
desfraldamos bandeiras, corrompemos o sonho.
Desejamos o amor, completo e derradeiro
como o cheiro do mosto nos lagares de Setembro
— mas olhamos o sexo e não compreendemos
a noite preenchendo um corpo de mulher.
E pura que ela fosse! Desfar-se-ia em bruma...
De mãos vazias vamos para o sono comum.
Um cavalo na estepe, o nosso vago anseio
marcando-nos temores na impúbera face.
Recolhemos o gesto, a flor primaveril,
o canal dos sentidos debruado de escombros
— e rígidos a planície inútil
com nervuras de sal no rosto imaginado.
Daniel Filipe (Cabo Verde)
11.4.10
Canto e lamentação na cidade ocupada

Não basta estender as mãos vazias para o corpo mutilado, acariciarlhe
os cabelos e dizer: Bom dia, meu Amor. Parto amanhã.
Não basta depor nos lábios inventados a frescura de um beijo doce e
leve e dizer: Fecharam-nos as portas. Mas espera.
Não basta amar a superfície cómoda, ritual, exacta nos contornos a
que a mão se afeiçoa e dizer: A morte é o caminho.
Não basta olhar a Amante como um crime ou uma injúria e apesar
disso murmurar: Somos dois e exigimos.
Não basta encher de sonhos a mala de viagem, colocar-lhe as
etiquetas e afirmar: Procuro o esquecimento.
Não basta escutar, no silêncio da noite, a estranha voz distante, entre
ruídos de música e interferências aladas.
Não basta ser feliz.
Não basta a Primavera.
Não basta a solidão.
Daniel Filipe (cabo Verde)
10.4.10
Canto e lamentação na cidade ocupada

Não fora o grito a faca
de súbito rasgando
a fronteira possível
Não fora o rosto o riso
a serena postura
do cadáver na praia
Não fora a flor a pétala
recortada em vermelho
o longínquo pregão
o retrato esquecido
o aroma da pólvora
a grade na janela
Não fora o cais a posse
do nocturno segredo
a víbora o polícia
o tiro o passaporte
a carta de Paris
a saudade da amante
Não fora o dente agudo
de nenhum crocodilo
Não fora o mar tão perto
Não fora haver traição
Daniel Filipe (Cabo Verde)
31.3.10
Canto e lamentação na cidade ocupada

Com ternura crescente, insone, canto.
Com simples flores de angústias,
canto.
Em termos de revolta, crise, sonho,
ergo, à mesa do café vazio e enorme,
meu sonho de viagem sem regresso.
Para enganar a solidão, o medo,
digo palavras, música, esperança.
Canto porque estou vivo e amarrado
à condição de ser fiel e agreste.
Porque em vão nos destroem a memória
com máquinas, rodísios, honorários.
Porque o sol torna fulvo o teu cabelo
e apetecem meus lábios os teus seios.
Canto para espantar o espectro indefinido
da besta apocalíptica, medonha.
Canto e louvo o teu sonho, amigo anónimo,
suando e trabalhando, algures oculto.
Canto a tua coragem, general,
confinado na prática e fora dela.
Canto como quem morde, ofende, esmaga
e, exausto, resiste e sobrevive.
Canto para saber que vale a pena
ter voz, músculos, nervos, coração.
A mesa do café, nas ruas, canto.
Nos jardins, nos estádios, sofro e canto.
No quarto abandonado, sonho e canto.
Nos pequenos cinemas, rio e canto.
Entre teus braços doces, choro e canto.
Descerro a aurora com palavras graves,
cantando. Reinvento a melodia,
o sol aberto, o amor pelas esquinas,
a marca sensual nos ombros nus,
a memória da infância, a tua face
— e canto.
Inutilmente embora,
canto.
Daniel Filipe (Cabo Verde)
30.3.10
Canto e lamentação na cidade ocupada

1.
Ei-la a cidade envolta em dor e bruma
Ei-la na escuridão serena resistindo
Hierática Estranha Sem medida
Maior do que a tortura ou o assassínio
Ei-la virando-se na cama
Ei-la em trajes menores Ei-la furtiva
seminua sensual e no entanto pura
Noiva e mãe de três filhos Namorada
e prostituta Virgem desamparada
e mundana infiel Corpo solar desejo
amor logro bordel soluço de suicida
Ei-la capaz de tudo Ei-la ela mesma
em praças ruas becos boîtes e monumentos
Ei-la ocupada inerte desventrada
com música de tiros e chicote
Ei-la Santa-Maria-Ateia maculada
ignóbil e miraculosamente erecta
branca quase feliz quase feliz
Ei-la resplendente de amor teoria
e prática nocturna mistério acontecido
doce habitável ah sobretudo habitável
vestido acolhedor café à noite
a voz distante e amada ao telefone
Ei-la a que fica e sobrevive
e reflecte neons nos lagos do jardim
mesmo quando partimos e as lágrimas inúteis
roçam de espanto a solidão crescendo
Ei-la a cidade prometida
esperamos por ela tanto tempo
que tememos olhar o seu perfil exacto
flor da raiz que somos
meu amor
Daniel Filipe (Cabo Verde)
2.2.10
Andorinha secreta de um verão
que só nós dois sabemos, te revelas.
De que longínqua e solitária estrela
vieste iluminar-me o coração?
De que planeta ainda inominado?
De que mistério astral, corpo solar,
patagónia celeste, ignoto mar,
provém o teu perfil sereno e amado?
9.12.09
Um amor como este
não pede mar ou praia:
somente o vento leste
erguendo a tua saia.
O resto é o futuro
além, à nossa espreita:
doce fruto maduro
na hora da colheita.
6.12.09
Recado para a amiga distante
Dorme Menino dorme
teu sonho quieto lúdico
enquanto longe estoura
a bomba no atol
Que outra coisa Menino
poderemos fazer
ante o inominado
desconhecido crime
que de entre as chamas nasce
no silêncio da noite?
Que palavra inventada
que rubro gládio pode
definir o temor
do começo do mundo?
Que estranho abjecto ritmo
em cogumelo alastra
sobre o teu sono puro
Menino sobre a esperança?
(Um tigre humano vem a cada esquina oculto no rumor
da manhã saciar-se de sangue)
16.7.09
Pequena Ode

À flor dos dias, teu sorriso
desce sobre a planície como chuva habitada
por um sol interior. Nada mais é preciso
para sermos, de novo, só Amado e Amada.
Nada mais é preciso? Uma rosa, talvez:
uma corola aberta na paisagem vazia,
polvilhando de cor o rústico entremez
de que somos actores
apenas por um dia.
Ó mar de sonhos e grades!
(Teu sorriso promete uma evasão sempre adiada).
Ó mar da quietação, ó glauco espelho liso!
Somos dois, outra vez, na praia desolada.
19.4.08
As ondas quebram na areia,
dizem segredos perdidos...
saudades da maré-cheia,
de barcos e tempos idos...
Segredos tristes, lamentos,
que o mar não pôde calar...
E foi dizê-lo aos ventos,
aos pescadores, ao luar...
As ondas dizem na areia
saudades de tempos idos...
Segredos da maré-cheia,
de barcos tristes
- perdidos.
Daniel Filipe (poeta caboverdiano)
2.3.08

Quem tiver sonhos, guarde-os bem fechados
— com naftalina — num baú inútil.
Por mim abdico desses vãos cuidados.
Deixai-me ser liricamente fútil!
Estou resolvido. Vou abrir falência.
(Bandeira rubra desfraldada ao vento:
“Hoje, leilão!”) Liquida-se a existência
— por retirada para o esquecimento …
Daniel Filipe (poeta caboverdiano)
29.1.08
É já saudade a vela, além.
Serena, a música esvoaça
na tarde calma, plúmbea, baça,
onde a tristeza se contém.
os pares deslizam embrulhados
de sonhos em dobras inefáveis.
(Ó deuses lúbricos, ousáveis
erguer, então, na tarde morta
a eterna ronda de pecados
que ia bater de porta em porta!)
E ao ritmo túmido do canto
na solidão rubra da messe,
deixo correr o sal e o pranto
- subtil e magoado encanto
que o rosto núbil me envelhece.
Daniel Filipe (Cabo Verde)
24.1.08
30.7.07
No exacto automóvel
No exacto automóvel, viajamos.
Em corpo e nervos, sal, angústia, grito.
Suor, temor da noite, aonde vamos?
Direita, esquerda? (Cruzamento) . Hesito.
Onde? Por onde? Somos dois, calados.
A chuva alaga o universo à volta.
A beira d'água, acenam-nos soldados.
Soam no escuro os passos de uma escolta.
Finco as mãos no volante. Derrapagem
ou medo apenas do que vai comigo?
Já está próximo o termo da viagem.
Apertamos as mãos. "Saúde, amigo".


