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2.5.10

Meu país

Meu país meu país
De campos cultivados
De praias e montanhas.

É para ti meu canto
A minha esperança.

Ouço a tua voz triste
Oh, meu país sem culpa
Ouço-a nos dias mornos
No amanhecer cinzento.

E é para ti meu canto
A minha esperança.

Meu país onde a traição domina
E o medo assoma nas encruzilhadas
Meu país de prisões e covardias
E de ladrões de estradas.

Meu país de operários
Cavadores, marinheiros
Meu país de mãos grossas
Plebeu, sensual, resistente.

É para ti meu canto
A minha esperança.

Para ti meu país
Levanto a minha voz sobre o silêncio
Desta noite de angústias
E de medos.

Nada pode calar
O nosso riso aberto
Ei-lo que invade
A terra portuguesa
E vozes juvenis formam o coro.

Por isso é para ti meu canto
A minha esperança.

Já ouço passos,
Vêem na distância
Desfraldando bandeiras e cantando
E é para ti oh! meu país liberto
O seu canto de esperança e claridade.


Daniel Filipe (Cabo Verde)



30.4.10

Romance de Tomasinho Cara-Feia


Farto de sol e de areia
Que é o mais que a terra dá,
Tomasinho Cara-Feia
vai prá pesca da baleia.
Quem sabe se tornará?

Torne ou não torne, que tem?
Vai cumprir o seu destinho.
Só nha Fortunata, a mãe,
Que é velha e não tem ninguém,
Chora pelo seu menino.

Torne ou não torne, que importa?
Vai ser igual ao avô.
Não volta a bater-me à porta;
Deixou para sempre a horta,
que a longa seca matou.

Tomasinho Cara-Feia
(outro nome, quem lho dá?),
farto de sol e de areia,
foi prá pesca da baleia.

— E nunca mais voltará!


Daniel Filipe (Cabo Verde)

29.4.10

A Ilha e a Solidão



E já saudade a vela, além.
Serena, a música esvoaça
na tarde calma, plúmbea, baça,
onde a tristeza se contém.

os pares deslizam embrulhados
de sonhos em dobras inefáveis.

(Ó deuses lúbricos, ousáveis
erguer, então, na tarde morta
a eterna ronda de pecados
que ia bater de porta em porta!)

E ao ritmo túmido do canto
na solidão rubra da messe,
deixo correr o sal e o pranto
- subtil e magoado encanto
que o rosto núbil me envelhece.

Daniel Filipe
Cabo Verde

27.4.10

Quando eu morrer


Quando eu morrer, Amor, quero que venhas ao pé de mim
e te sentes na cama como fazias antigamente.
Afasta-me os cabelos e olha-me nos olhos. Não me beijes
porque beijar um morto causa repugnância
e eu não quero que o nosso último encontro seja amargurado.

Depois, hás-de falar. Como outrora o fazias,
ao morrer melancólico da tarde,
quando vinhas e ficávamos a fitar-nos fixamente,
como se a Vida parasse para além dos nossos olhos,
e o mundo fosse o quarto e nós dois a humanidade inteira.

Hás-de falar, Amor. Não importa de quê
desde que o faças carinhosamente baixo...
Dir-me-ás qualquer coisa. Qualquer coisa, mas que sejas tu a dizê-la,
e eu possa ouvir-te, como outrora, extático e feliz,
mudamente, inexplicàvelmente deslumbrado...

E ouve, Amor, não chores. Que eu quero que no último encontro
o teu rosto conserve a beleza dos encontros antigos.
Olha-me nos olhos e lastima-me interiormente.
Eu estarei presente e, de algum modo, ouvirei a prece
que hás-de rezar no silêncio cálido do quarto.

Daniel Filipe, 1946

20.4.10

Canto e lamentação na cidade ocupada


5.

É preciso cantar, é preciso sorrir,
encher a escuridão com árvores sem nome.

Estamos sós no mistério dos nossos quinze anos.
A tormenta passou. A comida arrefece.

A viagem sem história concede-nos a calma:
serenos existimos, ocultos, dominados.

Só o navio de fogo navega sobre as águas
(ponto negro no mapa que não teremos nunca).

No silêncio da espera, murmuramos palavras,
desfraldamos bandeiras, corrompemos o sonho.

Desejamos o amor, completo e derradeiro
como o cheiro do mosto nos lagares de Setembro

— mas olhamos o sexo e não compreendemos
a noite preenchendo um corpo de mulher.

E pura que ela fosse! Desfar-se-ia em bruma...
De mãos vazias vamos para o sono comum.

Um cavalo na estepe, o nosso vago anseio
marcando-nos temores na impúbera face.

Recolhemos o gesto, a flor primaveril,
o canal dos sentidos debruado de escombros

— e rígidos a planície inútil
com nervuras de sal no rosto imaginado.


Daniel Filipe (Cabo Verde)

11.4.10

Canto e lamentação na cidade ocupada


4.

Não basta estender as mãos vazias para o corpo mutilado, acariciarlhe
os cabelos e dizer: Bom dia, meu Amor. Parto amanhã.

Não basta depor nos lábios inventados a frescura de um beijo doce e
leve e dizer: Fecharam-nos as portas. Mas espera.

Não basta amar a superfície cómoda, ritual, exacta nos contornos a
que a mão se afeiçoa e dizer: A morte é o caminho.

Não basta olhar a Amante como um crime ou uma injúria e apesar
disso murmurar: Somos dois e exigimos.

Não basta encher de sonhos a mala de viagem, colocar-lhe as
etiquetas e afirmar: Procuro o esquecimento.

Não basta escutar, no silêncio da noite, a estranha voz distante, entre
ruídos de música e interferências aladas.

Não basta ser feliz.

Não basta a Primavera.

Não basta a solidão.


Daniel Filipe (cabo Verde)

10.4.10

Canto e lamentação na cidade ocupada


3.
Não fora o grito a faca
de súbito rasgando
a fronteira possível
Não fora o rosto o riso
a serena postura
do cadáver na praia

Não fora a flor a pétala
recortada em vermelho
o longínquo pregão
o retrato esquecido
o aroma da pólvora
a grade na janela

Não fora o cais a posse
do nocturno segredo
a víbora o polícia
o tiro o passaporte
a carta de Paris
a saudade da amante

Não fora o dente agudo
de nenhum crocodilo

Não fora o mar tão perto
Não fora haver traição


Daniel Filipe (Cabo Verde)

31.3.10

Canto e lamentação na cidade ocupada


2.

Com ternura crescente, insone, canto.
Com simples flores de angústias,
canto.
Em termos de revolta, crise, sonho,
ergo, à mesa do café vazio e enorme,
meu sonho de viagem sem regresso.
Para enganar a solidão, o medo,
digo palavras, música, esperança.

Canto porque estou vivo e amarrado
à condição de ser fiel e agreste.
Porque em vão nos destroem a memória
com máquinas, rodísios, honorários.
Porque o sol torna fulvo o teu cabelo
e apetecem meus lábios os teus seios.

Canto para espantar o espectro indefinido
da besta apocalíptica, medonha.
Canto e louvo o teu sonho, amigo anónimo,
suando e trabalhando, algures oculto.

Canto a tua coragem, general,
confinado na prática e fora dela.
Canto como quem morde, ofende, esmaga
e, exausto, resiste e sobrevive.

Canto para saber que vale a pena
ter voz, músculos, nervos, coração.
A mesa do café, nas ruas, canto.
Nos jardins, nos estádios, sofro e canto.
No quarto abandonado, sonho e canto.
Nos pequenos cinemas, rio e canto.
Entre teus braços doces, choro e canto.

Descerro a aurora com palavras graves,
cantando. Reinvento a melodia,
o sol aberto, o amor pelas esquinas,
a marca sensual nos ombros nus,
a memória da infância, a tua face
— e canto.
Inutilmente embora,
canto.

Daniel Filipe (Cabo Verde)

30.3.10

Canto e lamentação na cidade ocupada


1.
Ei-la a cidade envolta em dor e bruma
Ei-la na escuridão serena resistindo
Hierática Estranha Sem medida
Maior do que a tortura ou o assassínio
Ei-la virando-se na cama
Ei-la em trajes menores Ei-la furtiva
seminua sensual e no entanto pura
Noiva e mãe de três filhos Namorada
e prostituta Virgem desamparada
e mundana infiel Corpo solar desejo
amor logro bordel soluço de suicida

Ei-la capaz de tudo Ei-la ela mesma
em praças ruas becos boîtes e monumentos

Ei-la ocupada inerte desventrada
com música de tiros e chicote

Ei-la Santa-Maria-Ateia maculada
ignóbil e miraculosamente erecta
branca quase feliz quase feliz
Ei-la resplendente de amor teoria
e prática nocturna mistério acontecido
doce habitável ah sobretudo habitável
vestido acolhedor café à noite
a voz distante e amada ao telefone

Ei-la a que fica e sobrevive
e reflecte neons nos lagos do jardim
mesmo quando partimos e as lágrimas inúteis
roçam de espanto a solidão crescendo

Ei-la a cidade prometida
esperamos por ela tanto tempo
que tememos olhar o seu perfil exacto
flor da raiz que somos
meu amor

Daniel Filipe (Cabo Verde)

2.2.10

Andorinha secreta de um verão



Andorinha secreta de um verão,
que só nós dois sabemos, te revelas.
De que longínqua e solitária estrela
vieste iluminar-me o coração?

De que planeta ainda inominado?
De que mistério astral, corpo solar,
patagónia celeste, ignoto mar,
provém o teu perfil sereno e amado?

Daniel Filipe (poeta caboverdiano)

9.12.09

Um amor como este



Um amor como este
não pede mar ou praia:
somente o vento leste
erguendo a tua saia.
O resto é o futuro
além, à nossa espreita:
doce fruto maduro
na hora da colheita.

Daniel Filipe (poeta caboverdiano)


6.12.09

Recado para a amiga distante




Dorme Menino dorme
teu sonho quieto lúdico
enquanto longe estoura
a bomba no atol

Que outra coisa Menino
poderemos fazer
ante o inominado
desconhecido crime
que de entre as chamas nasce
no silêncio da noite?

Que palavra inventada
que rubro gládio pode
definir o temor
do começo do mundo?

Que estranho abjecto ritmo
em cogumelo alastra
sobre o teu sono puro
Menino sobre a esperança?


(Um tigre humano vem a cada esquina oculto no rumor
da manhã saciar-se de sangue)

Daniel Filipe (poeta caboverdiano)

16.7.09

Pequena Ode


À flor dos dias, teu sorriso
desce sobre a planície como chuva habitada
por um sol interior. Nada mais é preciso
para sermos, de novo, só Amado e Amada.

Nada mais é preciso? Uma rosa, talvez:
uma corola aberta na paisagem vazia,
polvilhando de cor o rústico entremez
de que somos actores
apenas por um dia.

Ó mar de sonhos e grades!
(Teu sorriso promete uma evasão sempre adiada).
Ó mar da quietação, ó glauco espelho liso!
Somos dois, outra vez, na praia desolada.

Daniel Filipe (poeta caboverdiano)

19.4.08

Preia-mar


As ondas quebram na areia,
dizem segredos perdidos...
saudades da maré-cheia,
de barcos e tempos idos...

Segredos tristes, lamentos,
que o mar não pôde calar...
E foi dizê-lo aos ventos,
aos pescadores, ao luar...

As ondas dizem na areia
saudades de tempos idos...
Segredos da maré-cheia,
de barcos tristes

- perdidos.


Daniel Filipe (poeta caboverdiano)


2.3.08

Trespasse


Quem tiver sonhos, guarde-os bem fechados
— com naftalina — num baú inútil.
Por mim abdico desses vãos cuidados.
Deixai-me ser liricamente fútil!

Estou resolvido. Vou abrir falência.
(Bandeira rubra desfraldada ao vento:
“Hoje, leilão!”) Liquida-se a existência
— por retirada para o esquecimento …


Daniel Filipe (poeta caboverdiano)

29.1.08

Morna


É já saudade a vela, além.
Serena, a música esvoaça
na tarde calma, plúmbea, baça,
onde a tristeza se contém.

os pares deslizam embrulhados
de sonhos em dobras inefáveis.

(Ó deuses lúbricos, ousáveis
erguer, então, na tarde morta
a eterna ronda de pecados
que ia bater de porta em porta!)

E ao ritmo túmido do canto
na solidão rubra da messe,
deixo correr o sal e o pranto
- subtil e magoado encanto
que o rosto núbil me envelhece.

Daniel Filipe (Cabo Verde)


24.1.08

Em teu macio olhar...



Em teu macio olhar repousa o meu.
E na face polida assim formada
se reflecte e recria o próprio céu.


Daniel Filipe (poeta caboverdiano)


30.7.07

No exacto automóvel

shane_painting_small.jpg image by TheGudmen1

No exacto automóvel, viajamos.
Em corpo e nervos, sal, angústia, grito.
Suor, temor da noite, aonde vamos?
Direita, esquerda? (Cruzamento) . Hesito.

Onde? Por onde? Somos dois, calados.
A chuva alaga o universo à volta.
A beira d'água, acenam-nos soldados.
Soam no escuro os passos de uma escolta.

Finco as mãos no volante. Derrapagem
ou medo apenas do que vai comigo?
Já está próximo o termo da viagem.
Apertamos as mãos. "Saúde, amigo".

Daniel Filipe (poeta caboverdiano)

25.7.07

animation1.gif (upload by Uplofile)


Em tuas mãos obreiras nascem flores.
Em teu sexo germinam alvoradas,
manhãs de outono sem clarões de espadas
riso, perfumes, cores.

Daniel Filipe (poeta caboverdiano)