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20.1.11

O medo e a esperança


Tranquilo e devagar entro na aldeia
de mão ao alto aberta em sinal de paz
Desertas e contudo palpitantes
se encontram ainda as palhotas

No único rosto presente é visível
o medo está atento procurando antecipar-se
nos meandros da incómoda adivinha

Falo e sorrio e entreteço pontes de caniço
e não sei estendê-las até à outra margem:
fechado e atento o rosto em frente do meu
entremeia um rio sem vau e sem barcos
de águas opacas e demasiado largo

Procuro na memória de distantes avós
autênticos e críveis sinais de paz
e ao fazê-lo acordo aves de lembranças
de ventres pejados de sangue e ódios
e apenas avivo o rosto em frente as cores do medo

Olho o meu braço estendido e nu
inofensivo e pronto à espera do acolhimento
e no rosto em frente projecta-se uma sombra
a dolorosa sombra-lembrança de um chicote
E o medo ganha relevo no rosto escuro
atento e vigilante à porta da palhota:

pergunto aos teus olhos e às tuas costas
à tua carne e ao abismo dos teus olhos
onde e quando brotou a fonte desse medo
— como se eu fosse o deus vivo do raio
e fizesse empalidecer o teu rosto cor de noite
a ti que nunca me viste e contudo és valente
e já viste de perto a fome de feras em liberdade

Quero perguntar de frente aos teus olhos
e a tua cabeça pende como um ramo
ameaçado de morte com o peso dos frutos
prestes a perderem-se inúteis em chão batido
Quero perguntar-te e não sei os gestos
nem as palavras mágicas ou compreensíveis
para conjurar a mancha de medo
que ensombra o teu rosto esculpido em negro

Não sei os gestos e as palavras mágicas
e todavia não desisto e procuro
certo de haver uma ponte praticável
entre os meus e os teus olhos erguidos.

Fernando Couto
Moçambique


10.12.10

Tronco de palmeira


Tronco de palmeira,
ó frágil e comovente negação
do deserto em volta.

Aprumado grito,
apesar da fúria dos ventos,
alto e límpido,
apesar da solidão.

A copa se rasga em desespero
em suas folhas palpitando
aos mais delido bafo de brisa
no seu reflexo do sol e do luar.
Por isso te chamo,
enternecido,
minha palmeira dp deserto
e banho num olhar de nostalgia
a tua desesperada floração.


Fernando Couto
Moçambique


21.11.10

A lua



A lua,
tua irmã africana,
irrompeu dos teus ombros,
esplendorosa e suave.

E ao gesto diáfano das tuas mãos
incendiou-se a noite.


Fernando Couto
Moçambique



20.11.10

Raiz de labareda flameja



Raiz de labareda flameja
e crepita em sua cor e chama —
a flor de acácia rubra te copia,
ó meu amor do instante do cio
solto e aberto.
E o delido rendado da folhagem
imita as frescas carícias dos teus dedos.

Fernando Couto
Moçambique


16.11.10

O rumor da água na tua voz



O rumor da água na tua voz
e um fio de música no teu andar.
Indecisa a pele entre o bronze e o cobre
e a terra da tua boca ainda a calcinar.

Fernando Couto
Moçambique

26.3.10

De súbito



De súbito,
a tristeza nasce no teu rosto,
suave, densa e silenciosa
– céu da África ainda sem noite nem dia

A lua,
tua irmã africana,
irrompeu dos teus ombros,
esplendorosa e suave.

E ao gesto diáfano das tuas mãos
incendiou-se a noite.

Fernando Couto
Moçambique

23.3.10

Feições para um Retrato



Na agreste paisagem de dunas
expira a vastidão da savana.
No areal se sepulta o choro do mar
em seu clamor e seu soluço
e a fúria do vento largo
veste de saliva os arbustos sobreviventes.

Mangal de raizes nuas
doí-me o desespero dos teus dedos
ainda longos e cravados à terra.
Na orla do tempo, as aves marinhas
contemplam os despojos com olhos tranquilos
e nos conturbamo-nos à vista
dos despojos e do jeito dos pássaros.

Aqui, só nos vemos
a delgada fímbria do encontro
da morte e da vida
e conturbamo-nos.
E, amando-nos,
avivamos o traço esguio e sinuoso
dessa fímbria de encontro de morte e da vida.

Fernando Couto
Moçambique

7.1.09

Paisagem africana




Em chamas de amarelo e rubro íntimos
inquietas deliram as flores de acácia

fofas e tépidas as dunas impudentes
imitam feminis curvas em consentimento

da terra solta-se o hálito escladantes
de sequisoas bocas em beijo interrompido

Verdes-escuras as folhas dos arvoredos
turvas pesam como um desejo insatisfeito

denas as florestas odorantes a húmus
respiram o ácido cheiro do suor de cópula

crestado o capim estremece compacto
como a epiderme ocorrida por um frémito

brutais os rios rasgam a carne das planícies
como soldados invasores às filhas dos vencidos

e à brutal excitação de um sol desumano
a terra de África abre a flor de duas pétalas rosáceas

Fernando Couto
Moçambique

14.4.08

Olhos deslumbrados


São estes ainda,
os olhos da infância,
deslumbrados,
deslumbrando-se
aos milagres da vida:
a intacta pureza das crianças,
os luminosos rostos feminis,
a limpidez das nascentes,
as cambiantes do fogo...
tudo, tudo quanto é beleza
ou lhe deslumbra beleza
os olhos deslumbrados.


Fernando Couto
Moçambique

8.3.08

A plácida cor deste hálito envolvente,


A plácida cor deste hálito envolvente,
a tangível paz de calor e da savana,
o céu enfeitiçado de azul sem mácula,
a modorra só quebrada pelo canto
e o mar - um velho cão adormecido.

Fernando Couto
Moçambique

27.2.08

Tempo das glicínias


Rejuvenescia o granito
do muro tão antigo
sob a luz das glicínias!

Adoçava a austeridade
do granito a suavidade
da cor das glicínias.

Eram frescura e colorido
a primavera e as flores.
Banhavam de luz e de ternura
as glicínias do velho muro.

Era o tempo das glicínias,
era o tempo da primavera,
era a primavera da tua vida,
o seu insuspeitado começo.


Fernando Couto
Moçambique

14.2.08

Pergunta a Paul Robeson


Que rios te correm na voz
Paul Robeson?
Que marulhantes graves e longos
rios é o teu canto
Paul Robeson?
É o Congo ou é o Mississipi
com manchas de sangue indissoluto?
Ou são os afrontosos rios
da humilhação impotente
Paul Robeson?
Ou é o Nilo ou o Missouri
cavando às cegas o leito
nas terras da hostilidade?
Ou será a mágoa sem fundo nem tempo
náufraga sem morte dos barcos de negreiros
soluçando nos campos de algodão
dos diversos estados da Carolina do Sul
Paul Robeson?
Ou será a incomparável curva doida do Níger
rompendo a caminho do mar?
Ou será apenas o lento pesado arrastar de pés
dos teus irmãos de raça
Paul Robeson?
rompendo a caminho do mar?


Fernando Couto
Moçambique

15.1.08

Na agreste paisagem de dunas



Na agreste paisagem de dunas
expira a vastidão da savana.
No areal se sepulta o choro do mar
em seu clamor e seu soluço
e a fúria do vento largo
veste de saliva os arbustos sobreviventes.

Mangal de raizes nuas
doí-me o desespero dos teus dedos
ainda longos e cravados à terra.
Na orla do tempo, as aves marinhas
contemplam os despojos com olhos tranquilos
e nos conturbamo-nos à vista
dos despojos e do jeito dos pássaros.

Aqui, só nos vemos
a delgada fímbria do encontro
da morte e da vida
e conturbamo-nos.
E, amando-nos,
avivamos o traço esguio e sinuoso
dessa fímbria de encontro de morte e da vida


Fernando Couto
Moçambique

Verão Africano



A plácida cor deste hálito envolvente,
a tangível paz de calor e da savana,
o céu enfeitiçado de azul sem mácula,
a modorra só quebrada pelo canto
e o mar - um velho cão adormecido.


Fernando Couto
Moçambique

Impala




Elegância devia ser o teu nome
ou mesmo graça e harmonia
ou ainda leveza, etérea leveza.

Saltas e o arco nasce da terra
com o fulgor do voo do colibri.

O airoso ganha todo o esplendor
no diáfano contorno do teu corpo.

Vestem-se os reflexos do sol
nos vários areais desertos,
os seus variados reflexos.


Fernando Couto
Moçambique