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14.3.10

Nem sempre aos poetas apetecem as estrelas




Apetece-me não sei porquê uma história de formigas
De formigas assexuadas negras nítidas e rápidas
Com olhos fantásticos colhendo miríades de imagens
E inúteis os olhos das formigas
Desenhadas como um oito ou como um sinal de infinito
Muitas corteses atarefadas prejudiciais
Clericais sociais subtílissimas pequenas
Formigando no chão
No chão onde florescem os cardos e as cores
No chão onde assenta a carne ansiosa das mulheres
E os joelhos dos homens
No chão onde ecoa a voz repugnante dos pregadores
E a voz das juras e dos negócios
No chão onde cai o suor dos aflitos
E o suor dos amorosos
E o suor dos operários
E o suor dos gordos
No chão onde andam os pés e estalam os escarros
No chão das guerras e das famílias correctas
E dos vasadouros e dos jardins
E do pus verde dos mendigos
E das chagas rendosas e das rendas custosas
E das doidas furiosas
E das rosas
E das airosas e das feias e dos bispos e dos triunfadores
E dos cretinos e das virgens
E dos remédios e dos males
E das vertigens e dos abismos
E das cismas
E dos sismos
E dos vermes do ventre e das sonecas
E dos ludíbrios e dos hábeis
E da força dos garantidos
E das sementes

Apetece-me não sei porquê uma história de formigas
A grande invasão das formigas multiplicando-se
Cobrindo a face da terra e a dos homens e das mulheres
Entrando-lhes pelos narizes para roerem os olhos por dentro
E fazendo bulir as coisas mortas e as vivas
Com o espantoso treme-luz irisado e magnífico
Dos seus reflexos negros e a substituírem todas as cores

Na grande montanha uma mulher enorme
Nua e infame
Tem as pernas escachadas sob as pregas do ventre
E sob as pregas do ventre seu sexo negro
É o grande formigueiro do mundo

Vive?

As formigas esvaziaram-na da enxúndia e substituíram-na
Só lhe deixaram a pele por fora para ainda haver branco visível
E como pêlos ampliados excitados e crescentes
Cobriram e desceram o vale
Enroscaram-se nas árvores
Desinquietaram a placidez das pedras
Forraram as aldeias e as cidades
Os animais e os homens

Que é do ciúme e das angústias?
Que é do amor e das palavras?
Que é das carícias e dos dentes?
Que é das renúncias e dos crimes?
Que é das tentações
Das promessas
Dos desejos
Dos apetites
Das fúrias?
Que é de todas as músicas?

O sol inútil cobre um mar negrejante onde os reflexos são como os olhos das moscas
E um silêncio tremendo finge de paz no mundo
Uma paz de silêncio com formigas

Formigas
Formigas
Formigas
Formigas


António Pedro
Cabo Verde

20.5.08


Ode ao Almada Negreiros


Maravilhosa plástica das coisas!
Tudo no seu lugar, as cores e os olhos
Lá no lugar de cada coisa, a vê-la
Com seu aspecto natural e próprio.

(Tudo para cada um, na variedade
Dos olhos de quem se admite na paisagem,
Ou como espectador,
Ou como actor,
Ambas as coisas uma, no concerto
Magnífico do mundo.)

...Sem memória, ou com memória a sê-la
Nos olhos a olhar completamente
Sem nenhum pensamento reservado:
- Olhos dados a cada coisa, ou tida
- Cada coisa p’los olhos que se deram!...

Vaivém de tudo e nada, desse nada
Profético de tudo - e o tudo enorme
De cada nada afeiçoado e olhado
À feição de quem olha possuindo
E possuído, na maravilhosa
Cópula grande dos Artistas todos...

Maravilha de ter-se e ter-se dado,
Em cada olhar olhado,
E em cada cor e em cada flor mantido,
Bolindo e vendo
O sonho de se ir tendo
Realizado.


António Pedro (poeta caboverdiano)

20.8.07

Chuva!

IX



Chuva!,
chuva que bonda!,
chuva que tomba
— bumba ! ...

Cheiro a chuva que embriaga…

Chuva que alaga,
e estraga
o mal do sol.

Esverdinharam-se os montes
— um poema! —
... foi em dois dias
um poema!...

Eram castanhos os montes
e as árvores esgalhadas,
e atormentadas,
e nuas...

Esverdinharam-se as árvores
e as bordaduras
das ruas.

E os meus olhos cansaram-se,
coitados!,
esverdinhados também:
... alargaram-se
verdes,
além do verde,
que tem
a cor do oiro que se perde,
e ninguém teve
nem
tem.

— Esverdinharam-se os montes:
(um poema!)
a sorridente angústia dum poema.


António Pedro (poeta caboverdiano)

30.4.07


Maresia


Neste mar à minha frente
O sol repoisa e os nossos olhos dormem...

— Caem saudades mortas como chuva miúda,
Ou sobem, trémulas, como o vapor das algas,
Ou ficam, extáticas como um bafo da areia,
Calmas, sobre a paisagem,
Como um véu de cambraia deixado...

Não sei se é o calor das algas,
Se é o bafo da areia que baila,
Ou se é a chuva miúda que cai neste dia de sol
Como um véu de cambraia deixado,

Sei que me lembram os signos do zodíaco
Em boa caligrafia,
Uns signos como nem sequer eu tinha imaginado!...

E este calor que dimana da terra e nos confunde com ela,
Nos aquece as pernas de encontro à areia, numa vida exterior
Com mais sangue que a nossa e, sobretudo, cheia
Duma inconsciência que se não parece com nada,
Esta respiração pausada como as ondas, de trás para diante
Fazendo, lentas, e desfazendo
A mesma curva humaníssima e sensível,
Faz-me escrever, devagar, e com letra de menino pequeno
Sobre o chão acamado, esta palavra

António Pedro (poeta caboverdiano)

23.4.07


Canção dum Mar ao Largo


Mar alto, mar alto,
Lá longe, distante...

Nas ondas sozinhas
Nem um navegante
Nem aves marinhas...

Lá muito afundados
Só peixes doirados
No fundo do mar...

Mar alto, mar fundo,
Lá longe do mundo
Sem nada a boiar...

Mar alto, mar alto,
Quem dera lá estar!

Nem almas... Só ondas,
Com nuvens no céu,
Parece que as nuvens
São alma das ondas,
E o resto morreu.

Bem longe da Terra,
No meio do Mar,
Mar alto, mar alto,
Quem dera lá estar...

Mar alto, mar alto,
Quem dera lá estar!


António Pedro (poeta caboverdiano)

16.4.07


XIII


Papaias
pias
repartem
os braços-puas
e partem
a negrura do caminho!

... Linho negro
dum bruxedo,
no brinquedo
dum fantoche!...

../tá doche
que diz a preta
de cambraias
tão bonito!...
... pirolito:
massaneta
de papaias!...

Sol a pino embriagado
que desmaia.

- Logo ao lado,
Sossegado,
O menino da papaia.


António Pedro (poeta caboverdiano)

9.4.07


XII


Brava mansa...
Névoa cínzea diluindo
a luz das lâmpadas acesas...
luz de rezas alumiadas,
névoa de rosas florindo,
envolvendo
o quietíssimo arvoredo.

... E o sol em vindo,
fazendo
de cada casa um brinquedo!...

Brava linda!:
Terra mansa...
Jardim d'alma num degredo.


António Pedro (poeta caboverdiano)

2.4.07


XI


Os brancos daqui
são mais modestos que os pretos:
os pretos chamam-se pretos,
os brancos chamam-lhe gente daqui,
e aqui...
há brancos e pretos...

António Pedro (poeta caboverdiano)

19.3.07


VII


E a morna
morna,
bole
mole,
já velha, sem ser antiga,
num compasso de cantiga
sexual.

Reminiscência dum fado
que, dançado
num maxixe,
tem a tristeza postiça
dum cansaço.

Um semi-civilizado
lasso
balanço
embalado
sobre o ventre dum fetiche.

António Pedro (poeta caboverdiano)


Vi um batuque,
baque,
bacanal!
E fiquei de olhos cansados
— pobres selvagens! —
a ver horas e horas
rolar a mesma dança
doida...

Mole e sensual
meneio de ancas e de ombros
num desvairo:
Bebedeira bamba
duma cópula carnal!:

Gemidos
idos
daquela
goela
que se enrouquece
nesse compasso
passo
dum contra-tempo,
tempo de outro compasso,
no passo da dança dela
que me extasia...

... A negra nua
e macia,
rolando pelo mole
desejo
dele...


António Pedro (poeta caboverdiano)


11.3.07


O anjo da guarda


Ai árvores ali
e duras!,... ai!:
e aqui

terra queimada
só.

Be!,

o pó
da ventania
Buf oca!
... Lá na baia
ou doca
ou o que é,
lá do vapor
parecia
melhor,
embora fosse careca
a terra seca,
e o sol queimasse
e adormentasse
já.


há mais do que calor,
há dor
do sol!

... e a preta
de lenço branco
lá no barranco
da achada
tem o ar de um sobressalto

... E andam sombras
pelas sombras
como havia no mar alto...

No entanto,
de não estar
habituado a encontrar
estas sombras aqui,
ainda não consegui
o meu encanto:
pasmar

— Paisagem, quem me adivinha? —

E andam sombras pelas sombras
enquanto a noite caminha,
dês que o luar dealbou...

Que tentaram ensombrar-me...
— Mas quem foi que me assombrou?

Quem me ensombra
não me assombra!
... Apenas me sobressalta
não ver os mortos da sombra
que me fazem tanta falta!...


António Pedro (poeta caboverdiano)


4.3.07


Se houve engano de olhos...


Se houve engano de olhos,
Nunca esta alma minha

Se levou dos olhos,
Bem amada minha.

Olhos de alma, claros
Pela tua graça
E onde o teu sorriso
Namorado passa.

- Meu sorriso, aberto,
Porque é derradeiro,
Este foi, decerto,
Meu amor primeiro.

António Pedro (poeta caboverdiano)