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11.12.10

Crescendo




Saborear-te a boca devagar,
como a um fruto raro e sumarento,
e cada rijo seio te apertar,
num misto de prazer e sofrimento.

Depois, beijar-te o ventre e deslizar
por ele, num tão macio movimento
que de ave mais parecesse um adejar
do que um afago húmido e lento.

E só, então, te possuir. amor,
teu corpo penetrando ferozmente,
nos braços te apertando com ardor,

até, no estrebuchar do frenesi,
imaginares que, em fogo, uma torrente
de lava, em ondas, desaguara em ti.


Nuno Bermudes
Moçambique

27.3.10

Mapa-Sexo


Nossos corpos desenharam nos lençóis
o mapa de um país imaginário
– e neles abrimos rios,
descobrimos oceanos,
erguemos, entre gritos e gemidos,
cumes de montanhas,
desbravámos florestas,
neles nos perdemos
e, depois, nos encontrámos,
deixámo-nos cair,
exaustos,
em abismos,
morremos
e ressuscitámos.


Nuno Bermudes
Moçambique

26.12.08

Marginal


Saborear-te a boca devagar,
como a um fruto raro e sumarento,
e cada rijo seio te apertar,
num misto de prazer e sofrimento.

Depois, beijar-te o ventre e deslizar
por ele, num tão macio movimento
que de ave mais parecesse um adejar
do que um afago húmido e lento.

E só, então, te possuir. amor,
teu corpo penetrando ferozmente,
nos braços te apertando com ardor,

até, no estrebuchar do frenesi,
imaginares que, em fogo, uma torrente
de lava, em ondas, desaguara em ti.

Nuno Bermudes
Moçambique

28.5.08

Desde que existo que te espero



Desde que existo que te espero
no vazio leito da minha solidão
a duas vozes
- duas vozes que disseram
tudo o que havia para dizer
e só por falta de coragem
nunca disseram não.

Por isso, vem a qualquer hora,
meu amor.
Vem, como se o nosso encontro
tivesse sido combinado
num outro encontro
antigo e verdadeiro
apesar de só imaginado.


Nuno Bermudes
Moçambique

19.4.08

Na dor da tua morte



Se as lágrimas se desprendessem
dos olhos dos poetas
e rosas dos seus dedos
e soluços dos seus lábios,
quem senão nós
derramaria lágrimas
e desfolharia rosas,
a quem senão a nós
rebentaria o coração,
na dor da tua morte
súbita e exacta?

Mas o Poeta, Reinaldo,
o Poeta não chora…
E cada um de nós
sobre o teu corpo
deixará cair
as flores de sangue e de amargura
que são os nossos versos
nesta hora.


Nuno Bermudes
Moçambique

2.3.08

Solidão a duas vozes



Desde que existo que te espero
no vazio leito da minha solidão
a duas vozes
- duas vozes que disseram
tudo o que havia para dizer
e só por falta de coragem
nunca disseram não.
Por isso, vem a qualquer hora,
meu amor.
Vem, como se o nosso encontro
tivesse sido combinado
num outro encontro
antigo e verdadeiro
apesar de só imaginado.


Nuno Bermudes
Moçambique

Canção do país de Cecília



Sou eu, irmãos e companheiros,
que regresso.
Eu e os velhos sonhos destroçados.
Eu, velho e vencido
antes do tempo.
Mas trago-vos poemas
e apelos
e angústias
e outros sonhos que nasceram
(Cecília, na tua terra!)
que serão
no meu céu de desespero,
o sinal aceso
de uma nova guerra.

2

Guerra que não quero,
a que prefiro o sonho
que a brisa e o luar embalam
na podre paz que tanto amo.
Mas não posso (Cecília, do país ausente!)
ver uma estrela baloiçar num ramo,
como um fruto maduro e inocente.

3

Por isso estendo as mãos para colhê-lo
e sinto um mar de fogo nos meus dedos.
É a guerra (Cecília, minha irmã)
- a guerra inevitável que não quero,
com o seu cortejo de fantasmas e de medos.


Nuno Bermudes
Moçambique

14.1.08

Natal em África


«Natal... Na província neva»
- Fernando Pessoa


Como no longe
europeu,
Natal -
mas na província não neva,
nem arde o fogo
nas lareiras,
nem a estrela dos Reis Magos
brilha neste céu.

Idênticos,
Só mesmo a solidão
e o cansaço.

- E toda a esperança,
como nas terras onde neva,
se perdeu.


Nuno Bermudes
Moçambique

Domingo



Em cada praça um aceno,
em cada rua um sorriso,
em cada esquina uma esperança.
O Pungué lembra-me o Reno,
Europeu é o chão que piso,
caminho como quem dança,
amo a vida porque sim.

Mas nem todos os domingos
são assim.


Nuno Bermudes
Moçambique