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12.1.11

Bando dos Gambozinos


Menina dos olhos doces
adormece ao meu cantar:
Tenho menina de trapos,
Tenho uma voz de luar...

Os meus braços são a lua
quando ela é quarto crescente:
dorme menina de trapos,
meu pedacinho de gente.

Matilde de Araújo

1.12.10

Retrato de minha mãe


Minha mãe tem flores
nos olhos.
Sóis de estrelas
nas mãos, nos braços.
Luas brancas são
seus seios de seda.
E é grande como o Mundo
e eu chamo-lhe: Mãe!

Matilde Rosa Araújo

8.7.10

O Berlinde



Era uma vez uma pomba
Sem um ninho, sem um pombal,
Era branca como a Lua
E os seus olhos de cristal.

Era uma vez uma pomba
Que não sabia chorar:
O seu choro trrru… trrru…
Era um modo de cantar.

Era uma vez uma pomba
Que noite e dia voava:
Fosse noite, fosse dia,
Nunca a pomba descansava.

Era uma vez uma pomba
Que nos céus, longe, voava,
Seu coração um berlinde
Grande segredo guardava.

Era uma pomba tão estranha
Que voava noite e dia:
Quanto mais alto voava
Mais da terra ela se via.

Era uma vez uma pomba
Com penas de seda real:
Era uma pomba do Mundo
Com seus olhos de cristal.

Seu coração um berlinde
De vidros de sete cores,
Que do sol tinha o brilhar,
Um espelhinho de mil flores.

Um dia longe nos céus,
Viu um menino a chorar
Sentadinho sobre um monte,
Numa noite de nevar.

Não era branco nem negro
Assim na neve o menino,
Seu chorar era triste,
Tornava-o mais pequenino.

E a pomba logo o viu
Com seus olhos de cristal:
Logo desceu para o monte
– Era aquele o seu pombal.

Poisou nas mãos do menino
Com seu corpo, seu calor:
Mãos por debaixo da neve,
Ninguém lhes sabia a cor.


Dorme, dorme, meu menino…
Branco ou negro tanto faz:
Meu coração é um berlinde,
Tem o segredo da Paz.

E o menino já ria,
Podia dormir sem medo,
Sonhava com o berlinde,
Coração feito brinquedo.

Há quem diga que uma estrela
Fugiu do céu a correr,
Atravessou todo o mundo
Para o segredo dizer.

Escutaram-na os meninos,
Têm um berlinde na mão:
Seja noite de Natal,
Seja noite de S.João.

Matilde Rosa Araújo

7.7.10

História do Sr. Mar



Deixa contar…
Era uma vez
O senhor Mar
Com uma onda…
Com muita onda…

E depois?
E depois…
Ondinha vai…
Ondinha vem…
Ondinha vai…
Ondinha vem…
E depois…

A menina adormeceu
Nos braços da sua Mãe…

Matilde Rosa Araújo

Caixinha de música



Grilo, grilarim,
Tens um canto azul
Na noite de cetim!
Cigarra, cigarraia,
Tens um canto branco
No dia de cambraia!
Formiga, miga, miga,
Só tu cantas os nadas
Do silêncio do Sol,
Das estrelas caladas...

Matilde Rosa Araújo

1.11.09

Tocar



A Lua está lá no céu
Quem é que a vai tocar?
São duas mãos pequeninas
Que não se podem queimar
E as estrelas lá no céu
Quem é que as vai tocar?
São duas mãos com anéis
De brilhantes a brilhar
E os pássaros lá no céu
Quem é que os vai tocar?
Pássaros em liberdade
Ninguém os deve buscar.

Matilde Rosa Araújo
in As Fadas Verdes, Editora Civilização, Porto, 1994.

17.4.09

A Borboleta



Era uma vez uma menina
Tão cheiinha de calor
Abanava um abaninho
Como se fosse uma flor...

Como se fosse uma flor
Uma rosa ou uma violeta
E em volta dela voasse
Feliz uma borboleta.

E veio a mãe veio o pai
E disseram: Filha minha!
Não te canses a abanar
Ligamos a ventoinha!

Veio o avô veio a avó
Com um ar consternado:
Não te canses a abanar
Pomos o ar condicionado!

Param as mãos da menina
Uma rosa ou uma violeta
E em suas mãos pequeninas
Adormece a borboleta...


Matilde Rosa Araújo

12.3.09

Vida

Hebergeur d'images

- Mãe! O mundo é mau,
Torna a flor num lodo
E um pássaro num verme,
E eu não sabia...

- Filha! Semeia flores no lodo,
Empresta o teu canto ao verme.
Se as tuas mãos continuarem puras
E meigo o teu coração,
Acredita que o mundo é belo.
E saberás!

Matilde Rosa Araújo

12.2.09

Lucidez Desnecessária


Diante das estrelas
E do sol
Sabendo a morte
E a vida aranha
Disconforme
E concordante
Pronta a parar na teia
Envelheci
Mas posso olhar ainda
Ainda
Cravos de sangue e rosas da estrada
Como se eterna fosse
Mas tão tarde.

Matilde Rosa Araújo

9.12.08


Outra Margem



E com um búzio nos olhos claros
Vinham do cais, da outra margem
Vinham do campo e da cidade
Qual a canção? Qual a viagem?

Vinham p'ra escola. Que desejavam?
De face suja, iluminada?
Traziam sonhos e pesadelos.
Eram a noite e a madrugada.

Vinham sozinhos com o seu destino.
Ali chegavam. Ali estavam.
Eram já velhos? Eram meninos?
Vinham p'ra escola. O que esperavam?

Vinham de longe. Vinham sozinhos.
Lá da planície. Lá da cidade.
Das casas pobres. Dos bairros tristes.
Vinham p'ra escola: a novidade

E com uma estrela na mão direita
E olhos grandes e voz macia
Ali chegavam para aprender
O sonho a vida a poesia

Vinham de longe. Vinham sozinhos.
Lá da planície. Lá da cidade.
Ali chegavam para aprender
O sonho a vida a poesia

Matilde Rosa Araújo






12.11.08

Genérico


Junto destes olhos
Eu sou testemunha
Que a ternura nasce
Por coisa nenhuma

Por coisa nenhuma
Semente de nada
Dentro destes olhos
Espero a madrugada

Espero a madrugada
Espero o dia novo
Junto destes olhos
Raiz do meu povo

Por coisa nenhuma
Semente de nada
Junto destes olhos
Esperança do meu povo

Matilde Rosa Araújo

13.10.08

O sol no castelo de Almourol


Vi poisar o Sol
no castelo de Almourol.
E inventei uma história
com sombras e clarões,
príncipes e ladrões,
fadas e fadistas,
espadas e turistas,
reis e rainhas,
rios e tainhas,
água e aguardente
de medronho
a correr
no rio
do sonho.
Tudo isto,
quando o Sol
se pôs
no Castelo de Almourol,
que rima com rouxinol,
que rima com Sol.


Matilde Rosa Araújo

4.4.08


Olhar


Fecundante é o olhar
De quem somos amados
Pássaros de fogo
Na seara ardente
E depois atravessamos o chão sem futuro
Com uma capa de cinza nos ombros frios.


Matilde Rosa Araújo


16.3.08


Loas à chuva e ao vento...



Chuva, porque cais?
Vento, aonde vais?
Pingue...
Pingue... Pingue...
Vu... Vu...Vu...


Chuva, porque cais?
Vento, aonde vais?
Pingue... Pingue... Pingue...
Vu... Vu...Vu...


Ó vento que vais,
Vai devagarinho.
Ó chuva que cais,
Mas cai de mansinho.
Pingue... Pingue...
Vu... Vu…


Muito de mansinho
Em meu coração
Já não tenho lenha
Nem tenho carvão...
Pingue... Pingue...
Vu... Vu…


Que canto tão frio,
Que canto tão terno,
O canto da água,
O canto do Inverno...
Pingue...


Que triste lamento,
Embora tão terno,
O canto do vento
O canto do Inverno...
Vu...


E os pássaros cantam
E as nuvens levantam.


Matilde Rosa Araújo


26.2.08

Balada das vinte meninas friorentas


Vinte meninas, não mais,
Eu via ali no beiral:
Tinham cabecinha preta
E branquinho o avental.

Vinte meninas, não mais,
Eu via naquele muro:
Tinham cabecinha preta,
Vestidinho azul escuro.

As minhas vinte meninas,
Capinhas dizendo adeus,
Chegaram na Primavera
E acenaram lá dos céus.

As minhas vinte meninas
Dormiam quentes num ninho
Feito de amor e de terra,
Feito de lama e carinho.

As minhas vinte meninas
Para o almoço e o jantar
Tinham coisas pequeninas,
Que apanhavam pelo ar.

Já passou a Primavera
Suas horas pequeninas:
E houve um milagre nos ninhos.
Pois foram mães, as meninas!

Eram ovos redondinhos
Que apetecia beijar:
Ovos que continham vidas
E asinhas para voar.

Já não são vinte meninas
Que a luz do Sol acalenta.
São muitas mais! muitas mais!
Não são vinte, são oitenta!

Depois oitenta meninas
Eu via ali no beiral:
Tinham cabecinha preta
E branquinho o avental.

Mas as oitenta meninas,
Capinhas dizendo adeus,
Em certo dia de Outono
Perderam-se pelos céus.


Matilde Rosa Araújo


19.3.07


Golo


Os meninos
Que jogam à bola na minha rua
Jogam com o Sol
E os pés dos meninos
São pés de alegria e de vento
A baliza uma nuvem tonta
À toa
Na luz do dia
E eu olho os meninos e a bola
Que voa
E ouço os meninos gritar: Go…o…lo!...
E não há perder nem ganhar
Só perde quem os olhos dos meninos
Não puder olhar


Matilde Rosa Araújo