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3.3.11

Noite


Noite
a angústia dos teus lábios
esvoaça
pelo meu corpo
como fria aragem…

e toda a música
que os meus ouvidos ouvem
não é mais
que a dos loucos búzios enganadores

cerro as mãos
para guardar
esse murmúrio
quasi nada…

e com elas cerradas
permaneço até
que a madrugada
rompa…

Alda Lara
Angola

14.2.11

Círculo



todo o caminho é belo se cumprido.
ficar no meio é que é perder o sonho.
é deixá-lo apodrecer, no resumido
círculo, da angústia e do abandono.

é ir de mãos abertas, mas vazias,
de coração completo, mas chagado.
é ter o sol a arder dentro de nós,
cercado,
por grades infindas…

culpa de quem, se fiz o que podia,
na hora dos descantes
e das lidas?

ah! ninguém diga que foi minha!
Ah! ninguém diga…

minha a culpa,
de ter dentro do peito,
tantas vidas!...

Alda Lara
Angola

12.2.11

A Coimbra




minha cidade eterna e resumida,
como um sonho embrulhado
em névoa branca… e adormecida.
por outro sonho que a saudade quis
é que eu não sei agora
o que este engano diz.

a mão do “Só” me trouxe rio acima,
para beijar teu corpo imerso em sono…
e pura, debruçada sobre ti,
o mais que eu vi,
foi sempre este abandono…

e ainda é a mesma torre, sim…
e o casario.
e o jardim.
e a ternura infinda
da mesma capa ainda
ao vento solta!...

és tu, eterna em ti.
antero é que não volta.

agora,
na pedra nua deste longo dia
já ninguém chora…
e a dor que endoideceu,
é só quem anda pela noite fria,
à procura do sonho que morreu…


Alda Lara
Angola

28.1.11

A uma criança



as longas mãos, cobertas de silêncios
e de esperas
acariciam agora, outras mãos,
mais pequenas e mais belas…
e desse contacto tão distante,
que ainda é saudade,
e é já promessa,
nasce a íntima certeza
de que o sangue do meu corpo
corre para o teu,
como uma herança…

estão presas as minhas mãos,
às tuas mãos, criança!
e sobre a ponte frágil
dos nossos dedos confundidos
como cadeias de hera,
se ergue dia a dia
a esperança desta dor
e desta espera…

Alda Lara
Angola

19.6.10

Para ti


Olhos perdidos perscrutando o mar...
... Para lá... que horizontes se marcaram?...
– África d’oiro e sonho! a perdurar
lembranças d’outros dias que passaram...

O curso?... – Uma aventura!...
A vida?... – Um bem, firmado em grandes Ideais!...
Depois...
(que importa o que é «depois»,
quando se tem a certeza
de sermos sempre DOIS!?...)

Alda Lara (Angola)


27.4.10

Maternidade



Dentro de mim,
é que trago
a voz que se não cala,
e a força
que não mais se apaga...

Dentro de mim
é que o caudal-anseio alaga,
e correndo
há-de ir, de mar em mar,
levar
ao fim da terra,
um sinal de infinito...

Dentro de mim,
do meu sangue nutrida,
e sustentada,
é que a voz não é soluço
mas grito!

Dentro de mim,
eco de paz ou de alerta,
dentro de mim,
é que a eternidade é certa!...

Alda Lara (Angola)


7.10.08

Presença Africana


E apesar de tudo,
ainda sou a mesma!
Livre esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou,
Mãe-África!
Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou, a Irmã-Mulher
de tudo o que em ti vibra
puro e incerto...
A dos coqueiros,
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul...
A do dendêm
nascendo dos abraços das palmeiras...

A do sol bom, mordendo
chão das Ingombotas...
A das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas...

Sim!, ainda sou a mesma.
A do amor transbordando
pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11! ... Rua 11...)
pelos meninos
de barriga inchada e olhos fundos...

Sem dores nem alegrias,
de tronco nu e musculoso,
a raça escreve a prumo,
a força deste dia...

E eu revendo ainda, e sempre, nela,
aquela
longa história inconsequente...

Minha terra...
Minha, eternamente ...

Terra das acácias, dos dongos,
dos colios baloiçando, mansamente...
Terra!
Ainda sou a mesma.

Ainda sou a que num canto novo
pura e livre
me levanto,
ao aceno do teu povo!


Alda Lara (poetisa angolana)

9.4.08


Ronda



Na dança dos dias
meus dedos bailaram...
Na dança dos dias
meus dedos contaram
contaram, bailando
cantigas sombrias...

Na dança dos dias
meus dedos cansaram...
Na dança dos meses
meus olhos choraram

Na dança dos meses
meus olhos secaram
secaram, chorando
por ti, quantas vezes!

Na dança dos meses
meus olhos cansaram...

Na dança do tempo,
quem não se cansou?!

Oh! dança dos dias
oh! dança dos meses
oh! dança do tempo
no tempo voando...

Dizei-me, dizei-me,
até quando? até quando?


Alda Lara (poetisa angolana)

26.3.08


Quadras da minha solidão

Fica longe o sol que vi,
aquecer meu corpo outrora...
Como é breve o sol daqui!
E como é longa esta hora...


Donde estou vejo partir
quem parte certo e feliz.
Só eu fico. E sonho ir,
rumo ao sol do meu país...

Por isso as asas dormentes,
suspiram por outro céu.
Mas ai delas! tão doentes,
não podem voar mais eu...

que comigo, preso a mim,
tudo quanto sei de cor...
Chamem-lhe nomes sem fim,
por todos responde a dor.

Mas dor de quê? dor de quem,
se nada tenho a sofrer?...
Saudade?...Amor?...Sei lá bem!
É qualquer coisa a morrer...

E assim, no pulso dos dias,
sinto chegar outro Outono...
passam as horas esguias,
levando o meu abandono...


Alda Lara (poetisa angolana)

20.3.08


Rumo


É tempo companheiro!
Caminhemos...
Longe, a Terra chama por nós,
e ninguém resiste à voz
da Terra...

Nela,
o mesmo sol ardente nos queimou
a mesma lua triste nos acariciou,
e se tu és negro,
e eu sou branca,
a mesma Terra nos gerou!

Vamos companheiro!
É tempo...
Que o meu coração
se abra á mágoa das tuas mágoas
e em prazer dos teus prazeres
irmão:
que as minhas mãos brancas
se estendam
para estreitar com amor
as tuas longas mãos negras...
E o meu suor,
quando rasgarmos os trilhos
de um mundo melhor.

Vamos!
que outro aceno nos inflama...
Ouves?
É a Terra que nos chama...

E é tempo companheiro!
Caminhemos...


Alda Lara (poetisa angolana)

13.3.08


Regresso




Quando eu voltar,
que se alongue sobre o mar,
o meu canto ao Creador!
Porque me deu, vida e amor,
para voltar...

Voltar...
Ver de novo baloiçar
a fronde magestosa das palmeiras
que as derradeiras horas do dia,
circundam de magia...
Regressar...
Poder de novo respirar,
(oh!...minha terra!...)
aquele odor escaldante
que o humus vivificante
do teu solo encerra!
Embriagar
uma vez mais o olhar,
numa alegria selvagem,
com o tom da tua paisagem,
que o sol,
a dardejar calor,
transforma num inferno de cor...

Não mais o pregão das varinas,
nem o ar monótono, igual,
do casario plano...
Hei-de ver outra vez as casuarinas
a debruar o oceano...
Não mais o agitar fremente
de uma cidade em convulsão...
não mais esta visão,
nem o crepitar mordente
destes ruidos...
os meus sentidos
anseiam pela paz das noites tropicais
em que o ar parece mudo,
e o silêncio envolve tudo
Sede...Tenho sede dos crepúsculos africanos,
todos os dias iguais, e sempre belos,
de tons quasi irreais...
Saudade...Tenho saudade
do horizonte sem barreiras...,
das calemas traiçoeiras,
das cheias alucinadas...
Saudade das batucadas
que eu nunca via
mas pressentia
em cada hora,
soando pelos longes, noites fora!...

Sim! Eu hei-de voltar,
tenho de voltar,
não há nada que mo impeça.
Com que prazer
hei-de esquecer
toda esta luta insana...
que em frente está a terra angolana,
a prometer o mundo
a quem regressa...

Ah! quando eu voltar...
Hão-de as acácias rubras,
a sangrar
numa verbena sem fim,
florir só para mim!...

E o sol esplendoroso e quente,
o sol ardente,
há-de gritar na apoteose do poente,
o meu prazer sem lei...
A minha alegria enorme de poder
enfim dizer:

Voltei!...


Alda Lara (poetisa angolana)


11.3.08

Noite


Noites africanas langorosas,
esbatidas em luares...,
perdidas em mistérios...
Há cantos de tunguruluas pelos ares!...

Noites africanas endoidadas,
onde o barulhento frenesi das batucadas,
põe tremores nas folhas dos cajueiros...

Noites africanas tenebrosas...,
povoadas de fantasmas e de medos,
povoadas das historias de feiticeiros
que as amas-secas pretas,
contavam aos meninos brancos...

E os meninos brancos cresceram,
e esqueceram
as histórias...

Por isso as noites são tristes...
endoidadas, tenebrosas langorosas,
mas tristes...como o rosto gretado,
e sulcado de rugas, das velhas pretas...,
como o olhar cansado dos colonos,
como a solidão das terras enormes
mas desabitadas...

É que os meninos brancos...
esqueceram as histórias,
com que as amas-secas pretas
os adormeciam,
nas longas noites africanas...

Os meninos brancos...esqueceram!...


Alda Lara (poetisa angolana)

9.3.08

Momento


Nos olhos dos fuzilados
dos sete corpos tombados
de borco, no chão, impuro,
eis!
… sete mães soluçando…

Nas faces dos fuzilados,
nas sete faces torcidas
do espanto ainda e receio,
… sete noivas implorando…

E do ventre de além-mundo,
sete crianças gritando
na boca dos fuzilados…
sete crianças gritando
ecos de dor e renúncia
pela vida que não veio…

Na boca dos fuzilados
vermelha de baba e sangue
… sete crianças gritando!...

Alda Lara (poetisa angolana)

8.3.08

Trajectória




Agora sei,
que não sou mais
aquela,
que bebeu leite
no peito de minha mãe.
- a que tremeu de medo
pela escuridão
do velho quarto
e tambem
a que guardou
o segredo do amor
sem corpo
nas horas inteiras
só de um sonho...

Agora sei
que não sou mais.

Porque o amor bate temporais
nas minhas veias,
e o tempo nasce luas
e árvores, nos olhos comuns e fundos,
porque o meu corpo
é uma folha trémula e branca
desesperadamente pura,
sob a caligrafia firme
das tuas mãos
suspensas,

é que eu sei,
que não sou mais
aquela.


Alda Lara (poetisa angolana)

21.2.08

Testamento


À prostituta mais nova
do bairro mais velho e escuro
deixo os meus brincos, lavrados
em cristal, límpido e puro…

E àquela virgem esquecida,
rapariga sem ternura,
sonhando algures uma lenda,
deixo o meu vestido branco,
o meu vestido de noiva,
todo tecido de renda…
este meu rosário antigo,
oferece-o àquele amigo
que não acredita em deus…
E os livros, rosários meus
das contas de outro sofrer,
são para os homens humildes,
que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
esses, que são de dor
sincera e desordenada…
esses, que são de esperança,
desesperada mas firme,
deixo-os a ti, meu Amor…

Para que, na paz da hora,
em que a minha lama venha
beijar de longe os teus olhos,
vás por essa noite fora…
com passos feitos de lua
oferecê-los às crianças
que encontrares em cada rua…


Alda Lara (poetisa angola)





Miserere



Perdoai-me Senhor!

Perdoai-me, que eu não sabia...


No meu palácio

batido por todos os mares de coral,

encastoada em espumas,

e rendas,

e ouropéis,

coberta de cetins e de anéis,

no meu palácio de ilusão

onde cantam sereias pela noite dentro,

Senhor!

eu não sabia nada...


Foi preciso que o céu se cobrisse

de nuvens negras,

e a tempestade sacudisse

a solidão dos meus salões,

para que eu, transida de medo,

descesse aos subterrâneos do meu palácio,

em busca de protecção

e calor...


E nos subterrâneos...

só encontrei dor maior que a minha...

medo maior que o meu...

e loucura,

e suor,

e fome,

e ódio frio,

e revolta surda,

e o cheiro putrefacto dos corpos

que trouxe a maresia...


Ah! perdoai-me Senhor!

Perdoai-me...

que eu não sabia...



Alda Lara (poetisa angolana)




Apelo




Na outra margem do rio,
(e eu vejo-a!)
há campos verdes de esperança,
abandonadas ao calor de um sol eterno...
Na outra margem do rio,
onde não chega o inverno,
há campos ondulantes de searas maduras,
para os pobres matarem nelas
todas as fomes do mundo...
Na outra margem,
tudo se começa de novo
e não há dias passados
que amargurem os desgraçados...
Não há dinheiro,
e os homens dão-se as mãos
que pelo dia inteiro
ouvi as canções que os seus lábios entoaram...

Nem raivas mal contidas,
nem agonias perdidas,
nem dor...
Que na outra margem do rio,
há Amor...

......................................

E entre mim, e a outra margem,
esta terrível viagem.
Este rio caudaloso, imundo,
sujo de todos os calhaus,
que nele vomitou o mundo...
Entre mim e a outra margem,
o rio...

Ah! barqueiro
porque tardas?...
Não vês como faz frio?

Espero mas desfaleço...
Não tardes mais barqueiro
não tardes!...
Que é tão longe ainda
a outra margem do rio...


Alda Lara (poetisa angolana)


15.2.08


Poemas que eu escrevi na areia


I

Meu bergantim, onde vens,
que te não posso avistar?
Bergantim! Meu bergantim!
Quero partir, rumo ao mar...

Tenho pressa! Tenho pressa!
Já vejo abutres voando
além, por cima de mim...
Tenho medo... Tenho medo
de não me chegar ao fim.

Meus braços estão torcidos.
Minha boca foi rasgada.
Mas os olhos, estão bem vivos,
e esperam, presos ao Céu...

Que haverá p'ra além da noite?
p'ra além da noite de breu?

Ah! Bergantim, como tardas...
Não vês meu corpo jazendo
na praia, do mar esquecido?...
Esse mar que eu quis viver,
e sacudir e beijar,
sem ondas mansas, cobrindo-o...

Quem dera viesses já...
que vai ficando bem tarde!
E eu não me quero acabar,
sem ver o que há para além
deste grande, imenso céu
e desta noite de breu...

Não quero morrer serena
em cada hora que passa
sem conseguir avistar-te...
Com meu olhar enxergando
apenas a noite escura,
e as aves negras, voando...

II

Meu bergantim foi-se ao mar...
Foi-se ao mar e não voltou,
que numa praia distante,
meu bergantim se afundou...

Meu bergantim foi-se ao mar!
levava beijos nas velas,
e nas arcas, ilusões,
que só a mim me ofereci...

Levava à popa, esculpido,
o perfil, leve e discreto,
daqueles que um dia perdi.

Levava mastros pintados,
bandeiras de todo o mundo,
e soldadinhos de chumbo
na coberta, perfilados.

Foi-se ao mar meu bergantim,
Foi-se ao mar... nunca voltou!

E por sete luas cheias
No areal se chorou...

Alda Lara (poetisa angolana)


31.1.08



De longe



Não chores Mãe... Faz como eu, sorri!
Transforma as elegias de um momento
em cânticos de esperança e incitamento.
Tem fé nos dias que te prometi.

E podes crer, estou sempre ao pé de ti,
quando por noites de luar, o vento,
segreda aos coqueirais o seu lamento,
compondo versos que eu nunca escrevi...

Estou junto a ti nos dias de braseiro,
no mar...na velha ponte,... no Sombreiro,
em tudo quanto amei e quis p'ra mim...

Não chores, mãe!... A hora eh de avançadas!...
Nos caminhamos certos, de mãos dadas,
e havemos de atingir um dia, o fim...

Alda Lara (poetisa angolana)

24.1.08

Anúncio


Trago os olhos naufragados
em poentes cor de sangue...

Trago os braços embrulhados
numa palma bela e dura
e nos lábios a secura
dos anseios retalhados...

Enrolada nos quadris
cobras mansas que não mordem
tecem serenos abraços...
E nas mãos, presas com fitas
azagaias de brinquedo
vão-se fazendo em pedaços...

Só nos olhos naufragados
estes poentes de sangue...

Só na carne rija e quente,
este desejo de vida!...

Donde venho, ninguém sabe
e nem eu sei...

Para onde vou
diz a lei
tatuada no meu corpo...

E quando os pés abram sendas
e os braços se risquem cruzes,
quando nos olhos parados
que trazem naufragados
se entornarem novas luzes...


Ah! Quem souber,
há-de ver
que eu trago a lei
no meu corpo...

Alda Lara (poetisa angolana)