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14.1.11

Foste para a América como um camponês


Foste para a América como um camponês
dum romance que li no avião
até à cidade onde me esperava
o teu amigo.
Tinha sido ontem.
Ninguém sabia ao certo, os andaimes
ao alto dos andares, talvez findasses
antes de bater no chão.
O cabelo loiro rasgado de sangue.

Um miserável vapor o corpo vai.
Um grau inferior e rutilante
findara.
Nunca mais sigo a teu lado
na ferida da adolescência.
Volto os olhos para o nome dos barcos,
a colina com árvores baixas,
sombras de mulheres com cestos,
gaivotas pousadas no armazém.
O lençol com que te taparam
leva contigo
a maldição dos movimentos reais.

Não te vás embora.
Aquele inverno foi o mais feliz,
pela primeira vez tinha uma lareira,
vinha a voz aceitadora do teu pai
trazer-me de manhã duas laranjas,
as galinhas no quintal a comer milho,
a lua sobre o mar no espelho da sala.

A solitária vida e o teu amigo
diziam-me para entrar naquele bar
com músicas de ninguém.


Joaquim Manuel Magalhães

16.6.08

Somos de natureza contrária


Somos de natureza contrária.
Um de nós pode destruir o outro,
mas só por fora, uma onda que vem
de muito longe, demora a chegar
à praia, ao sol que sossobra
no lugar onde nós estamos,
entregues, entristecidos. Dentro,
no interstício de silêncio
ameaçado pela despedida, sempre
de despedida ameaçado, nenhum
de nós será destruído nunca,
a memória da rua com plátanos,
o pólen mordente da primavera,
o cântico dos pardais. Não,
eu não quero esse amor indeciso
que sossobra num frio inebriante:
cada um com o outro tenta conservar
o seu ser, a identidade que sorri
na janela do quarto que fica por fechar.


Joaquim Manuel Magalhães

7.5.08


Que por ti perdi


O mar dentro da árvore, as nuvens
dentro da terra sem fim,
a luz. A luz dentro doutra luz
que limitava as mãos e as abria
para outras mãos dentro de um olhar.

Batem na fornalha os ventos.
Um cálice de vidro grosso com o licor
de fermentação caseira. Um prato
com avelãs e nozes e folhas de medronho.
Nas margens as portadas corridas
ganham um halo de candeeiros de rua
que se difunde na fluorescência do televisor,
na palidez rubra das pequenas luzes do rádio.

A última claridade do dia mistura-se
à primeira da noite.
Este vento na auto-estrada onde rebenta a chuva
não me vai forçar o coração; nem estas sebes
ladeadas de cimento suspenderão o voo
do que sou até ao que não és. Mas será
a carícia que no cinto treme, o calor do pescoço
descoberto, os vimes da cadeira donde te levantas
quando estou quase para me sentar.

Entre veios de relva desigual,
valados por cuidar abrigam
máquinas de desolação.
Formações de patos atravessam
o vidro polido do postigo.
O dia bate no jornal pousado
sobre a manta castanha que prende
os joelhos no silêncio de interior.
Outras vezes, as persianas já corridas,
um globo de lona ilumina o livro
na pequena mesa, um arame de flores
pendurado numa trave e o armário
com os objectos de estanho e meditação.

A vida acumulou-se em roldanas ao redor de tudo,
um fumo que sobe durante a noite sobre os mapas
enrolados na parede despida, há tanto nos esquecemos
de os desdobrar, de por eles chegar aos confins
do nosso mundo. E já estamos a desaparecer.


Joaquim Manuel Magalhães



15.4.08

Talvez Deus exista


Talvez Deus exista
para não haver terror.
Acordo além dos sedativos
com o que de mim não sei
no ferro dos pesadelos.

Os pombos entendem
quando vamos morrer,
atacam a janela,
o quarto ressoa
aos seus apelos,
plumagem rouca
na fraga fluvial.

E cumprimos o que somos
incapazes de ser.

Joaquim Manuel Magalhães

O lago


O lago, o salto

no alvo da água.
Setas de lume
nas escarpas.
Pequenas vagas
de salgueiros, veios
inseguros semeados
de batéis. Fisgas
em flor, risos
abrem o ar.

Veredas alvejadas
de voos, arroubos
dos 20 anos, fugas
ao que já findou.

Joaquim Manuel Magalhães

13.2.08


A taça vazia



De muitas das coisas, das que mais amo são as fogueiras.
Às vezes acendem-se à beira do mar, uma grade
quebra nos rolos de fumo onde podia agora a tua boca
curvar-se para a minha.
Cobrem o céu com a carlinga abrupta dos clarões,
semeiam a noite de inverno, a noite, ramagens, troncos,
a solidão das faúlhas, a granada que não vais lançar.

Quantas vezes ao encontrar um corpo, depois
das conversas espias que produzem o encantamento,
descubro que não encontrei ninguém.
Deitavas-te na banheira, só a água te prendia,
esse motim de cicatrizes navegantes
a que chamei nostalgia no bastião das ruas.
Tu sabes como cantam ainda, futuras, fortuitas,
a toalha, a colónia, o talco, tu sorris,
não é a mim mas ao que vem, ao golpe da cada um.

Vagas do fundo do céu afastam-nos do gatilho
da fogueira sem fim, a encina, o canavial,
primeiro incendiado, depois um mapa que desiste
alguém, nós dois, vê-se de alto a baixo rasgado.
Quantas vezes, depois de enredos furtivos, descobri
que nada nos teus olhos seguia o que meus olhos viam.
Cavalo e cavaleiro paravam no descampado de febre.
E já era tarde. A primeira geada, a harmonia da extinção.


Joaquim Manuel Magalhães


7.1.08


O cimento antes de secar


Estou a tentar abrir uma porta.
Não sei para que lado a chave vai quebrar
nem sei como chegou à minha tentativa
o interdito com que de novo procuro.
Alguma coisa está a ser calcada
no intertício dos gonzos, na dobradiça
cercada de estrelas mortas a fulgir.

Atravessou entre pinheiros.
O vento levantava areia,
enterrava-se no côncavo da represa.
Faltava a esse amor a ilusão
do amor. O céu mordente.
Esse rastilho quase animal.
Toda a explosão do mundo.

De golpe incendiaram-se as plantas,
as que de mês a mês vemos crescer
até às flores as que dão flor,
a novos ramos as que só dão folhas.
Mês a mês, ramo a ramo, flor a flor,
a mentira bate na lagoa e dança
no tecto com as venezianas corridas.

Ficámos a falar por muito tempo.
Tinha o corpo de betão.
Mostrei-lhe livros, discos, labaredas
que falham quando procuramos
as palavras que já os olhos disseram.
E há um silêncio entre gestos cegos.

O mármore pulsa com os pontos cardeais.
Parece o coração. Bátegas
de encontro ao fechamento, obscuras.
Escuta, continua a escutar, a treva
solta-se da terra inacessível
onde os diamantes prefiguram
a nossa petrificação.

Vivíamos no canal de lava da rua,
no último café a fechar,
as solas sobre um vidro em ebulição
e perdíamos.

É muito de amanhã. Acorda
a dor humana que me faz companhia.
Estou a sair de tua casa
a caminho de lugar nenhum,
a minha casa, esse vazio
com a música arrumada,
o cinzeiro, o aspirador, a cortina míope,
a gelatina na cama
onde não mais queria voltar.


Joaquim Manuel Magalhães

30.12.07


A cal e canto


Baila palhaça de cabra,
incha má noite sem espera,
estrela de cem pontas desenlaça-te.
Tanto o ganhador como o vencido
não passam de granizo
a que se segue um sol.

De dentro uma derradeira voz sem som
pela última vez chama e cai
na casa de banho. Desaparecia
e nem a dor final
contra a esquina de azulejo sentia.
O pé esfacelado, a rótula partida,
o lado aberto por uma costela,
a electricidade extingue-se de repente.
Levou tudo o que de fora se esfarela
para o chão que neutramente
é a sua nova moradia.

Sobre cada cabeça que passa,
ao lado de cada esgar e de cada gesto,
vida acompanhada pela aura da morte.
Tansportes, automóveis, motos
seguem para lugares que ninguém vê,
blocos enfaixados no barulho dos outros andares,
arrabaldes torcionários, a delapidação
cobre-os com sudários sujos.
A vida e a aura da morte, o desamparo
de pequenas camas de hospital,
lugares solitários onde se ocupam de nós,
seres de empobrecimento e de terror,
mal sabemos que não regressamos nunca.

Não a representação do que está
diante de mim, mas a expressão
que me destina. Segurava-lhe no braço,
envolvia com manchas de tintura
golpe arrancado. Cada gota de sangue
retida na compressa. Não basta condenar
o que se toma consciente
através de um pensamento feroz,
é melhor a intranquilidade
com as suas traves sem momento
para nos endurecer a humanidade.

Todas estas noites em que não durmo,
o carvão em redor dos olhos,
o gesso do sangue nas pálpebras
e os ruídos incolores que sobrevoam
para se despenharem dentro de um torno:
o cérebro que deixa de ver. Tudo
se funde em desarmonias que negam o teu olhar
cinzento à espera de um compromisso.
Ficam soterradas, tiram guelras
que vai o ar rasgar em canais,
em vias de aniquilamento.

A vontade hesita no desdém
da descrição, demora
além do que vai narrar. Farrapos
no gancho pronto a recolher
ossos esboroados, a infecção
que doía na trincheira
dessa vala comum da noite diária
sobre a auto-estrada urbana.
Põe no mais alto esses cantares que do passado
descem digitalizados nos discos compactos
e ocupam a fermentação do tráfico.

A sinceridade despedaçada não é
uma ética da devastação
para o que de mim permanece de pé.
Mas uma rugosa ruína que nos é comum,
um lixo donde tem de erguer-se
o que nos faz viver. Como cantava
Lucho Gatica na canção de Briz,
Mi suerte necesita de tu suerte.
Olhos cinzentos, que ninguém já diz
quanto eu os procurava.

Fecho-me e vejo tudo amarelo.
Ouço os passos que mais temo
e nem o quarto cerrado me esconde o dia,
é talvez a despedida que chega
embora eu escreva a poesia.
Enquanto escuto cada laje que range
sei que na linfa circulam entre célula e derrota
torções que podem reprender-me
ao que me arrancavam na anestesia.
Juntar palavras ou julgar-me sorte morta
é a mesma ironia.

Uma vez mais aqui estou entregue
ao cego, ao vago, à récua dos vocábulos.
Não vou vergar-me a este peso que nada consegue
mas eu procuro. Se a noite acorrentasse
a um muro a minha cabeça, desse partida
a todo o meu escuro no seu negrume,
num rebentamento me cortasse a pouca vida
de repente como se espalha o estrume,
ah palhaça de cabra,
eu seria um feliz vasilhame de tara perdida.


Joaquim Manuel Magalhães

25.11.07


Acendimento


Seria bom sentir no quarto qualquer música
enquanto nos banham os perfis ateados
pelo aroma da tília, sem voz, em abandono.
A entrada por detrás das ruas principais
onde a morrinha parece que nem molha
e se chega perdido onde se vai.
Não, não é só um beijo que te quero dar.

Quantas vezes nesta hora de desvalimento
vejo orion e as plêiades devagar no céu de inverno.
Mas hoje
com a calma inesperada de chuvas que não cessam
acordo já depois. Caí numa hibernação que não norteia
o desequilíbrio do sentimento.

Espelhos sem paz tocam-nos no rosto.
Na cega mancha de roupagem aconchego
cada intempérie com sua mentira
e depois sigo pela torrente, pelo enredo
dos outeiros, cada espelho continua
a caução pacificadora do engano.
É isso que te levo, isso que me dás
quando dizes, já sem o dizeres, eu amo-te.

Pela berma da humidade cerrada
um risco de mercúrio trespassa.
Na gravilha passos que não há
esmagam a música que ninguém escuta.
Sabiam de cor tudo o que falhava,
a insónia repentina, o entorpecimento.

Ouve a espessura dos nervos, a sua câmara
de conchas escavadas, a roseira azul do vime,
pastos químicos que transformam
o gradeamento acolhedor detrás do cérebro
na fauce lacerada
por onde o alibi imóvel parece fugir.

Ao lado cantam os arpões.
Eu passo com as mãos no seu cabelo.
E o passado é um tempo que não passa
em cada uma das dores que me pertence
e me roubaram.

Aquele que tem fome desconhece
o alimento, pede apenas folhas,
a farinha de um vestuário com uso
e desmedido.
Mas o que sempre comeu
não sabe os caminhos que sangram
e um dia a morte só lhe trará terror.

Acordei cansado com os sonhos.
O rosto que foi amado e se perdeu
cintilava na roldana de corrente cega,
a floresta em carvão acorrentava
o pavor agrícola da pobreza,
e dentro do sonho um sonho mais disforme
mãos que sabiam sempre agarrar tudo
o que não fosse qualquer outra mão.

Sorria para o asfalto. Com o casaco
desabotoado e o embrulho em cima da carrinha.
As nuvens corriam pelo chão de aguaceiro.
Findavam para si minúsculas assombrações.
Correu a mão sobre a testa, ergueu
o cabelo que fervia.
Vi-o inclinado sobre nada,
o pó fazia goma nos seus pés,
estava eu defrontado com um vulto
entregue à felicidade.

Quando me viu levou o embrulho
para o banco de trás e trancou as portas.
Tinha a cara azul, os olhos de vinho antigo,
fez-me um sinal desconhecido
antes de reabrir a porta e me fechar
na cidade inteira onde já não existia.

Um fato de flanela cai muito bem
numa tez esguia, batida pela neblina.
Cortei-lhe as calças com a lâmina pequena
e guardei a maior para a suavidade tardia
junto do empedrado
onde num clamor sem verdade
o morto caminho de volta diz
tristes de todas as coisas.

Os braços por cima do seu tronco
a lua nova as constelações o ruído da terra
um vivo círculo mortal em seu redor.


Joaquim Manuel Magalhães

28.10.07


Os últimos mortos da Pide


Do meio dos telhados donde gatinhava
o regime que fora de salões e enxovias
bolçava contra a rebentação da cidade
a pedrada de tiros do rancor acossado.
A biltre obediência das inquirições,
das negaças, dos traços toldados,
dos pátios chulos onde grimpavam torturas
como hera de sangue pelas mãos caladas,
ia ainda metralhar à queima-roupa.
Sobre ti, sobre o outro além, sobre a alegria de todos.
A sanha era qualquer um: matavam
esses últimos sinais do que tínhamos sido
Saíam em braços anónimos do erro nocturno
para a claridade que ninguém ainda conhecia.


Joaquim Manuel Magalhães



Amarelo quebrado


As casas ganham um ar mais mortal
na tristeza depois de não ter havido coito.
Vão depressa as nuvens, tão depressa, levam pombos
e telhados agudos com ardósia quebram
em radiações de treva na água aprisionada.

Já tínhamos falado de tudo na véspera,
do adiamento, da sufocação,
mas senti que não seria assim.
Com a garganta ao contrário da Holanda,
seca, incapaz de falar.

Vi os gráficos do sangue empresarial.
Na floração das vendas, o risco suspendia
câmbios de gasolina sobre mim.
Ao som do telefax, um visor de números
era agora o teu rosto.

Por cima do casaco hesitavam as mãos
de novo perdidas no medo de prender-se
ao metal tecido de milagre da saliva.
Eram mãos que não sabiam pousar.

A experiência agora é esta: chamar desamor
à emoção que não entende o que deseja,
confunde os sentimentos numa aridez tão pesada
que nem eu percebo como deixa voar um avião
por este sem fim de céu que traz o fim.

Mas foi horas antes que findou.
Ia a noite avançando, escurecia o hotel
e as mãos ficaram presas. Tanto tempo,
tanto tempo nenhum.


Joaquim Manuel Magalhães


30.9.07


Fogo, Felpa, Farmacopeia


A noite ficou branca uma vez mais.
Nesse luar vazio floresce a rocha,
a silva, o contorno do que nada acolhe.
Subo para a armação de ferro
e fungos e vírus e bactérias
esperam no pousio alagado,
relíquias celestiais, a natureza.
Tiro uma a uma cada roupa
na voltagem do frio, mudo o que fui
por detrás da noite, no pesadelo.

Esmago as folhas da hortelã-brava,
um odor carnívoro que se mistura
à bruma roída dos barcos na lagoa.
Tudo tarde nas toalhas que nos limpam,
o sândalo deitado nos lençóis,
a linfa da estopa escura contra a luz.
Cor da açafroa, esse cardo cuja veste
depois de morta é, como nos surge a noite,
macerada.

O arbusto aberto no muro, o varandim
e o trago da chama, o teu retrato. Uma espora
no cerro do penhasco. Dessas coisas
que se perdem antes de lhes tocarmos.
O luar cai além do vidro, no desaire,
no alto morro preto onde este cansaço
por vezes é o deus.

O feixe sombrio lança sobre socalcos
outros socalcos mais escuros, no tecto
de madeira ameaçada, a caminho do saguão,
direito ao que fica por dizer.
Quando atravessa o farol da alvenaria
ilumina-o para dentro, essa parte
partida da revolta de que somos o resto
calcinado, sem fundura, um volume
trazido pela escuridão à despedida
e que não cessa de louvar
nessa alegria lacerada.

É melhor que no outro quarto o corpo,
o meu, o deles, a gruta abafada
da parede sem o reboco final,
acenda a noite com suores cobertos
pela lâmpada diminuta.
Que no outro quarto eu esqueça
a languidez suicida, o halo de passos
junto de um sabor, o conforto da derrota
que nos avisa com o longe, o seu esquife,
o bacelo translúcido despedaçado
e a viagem do sono, sem mais querer voltar.

Irão faltar-te as cartas que eu deixava
para tu pôres os selos. Meu deus,
que mal faz a morte ao outro a quem
nos tira. Depois de nenhum mal nos fazer já
a nós.

Sempre que falo de noites assim
é o Douro visto da galeria. É Ariz. A minha avó
deu-me depois esta cadeira. Só lhe mudei
a lona. Apenas mudei eu. O pano cru
com a amarga simplicidade de tudo.
Cedro a cedro, a violência do que vai
diante de nós, dentro de mim.
Numa selha de zinco davam-me banho
e cantavam para eu não chorar,
é lá possível não chorar.


Joaquim Manuel Magalhães


26.8.07


Gelo com flores


Diziam no café que estava prestes
a ser servido, mas o quê?
A tua nuca? Essas mãos
desamparadas sobre a mesa puída
com nós embaciados de furtivos usos
e conversas engalanadas e malsãs?

Não posso dizer que tenho ainda,
sequer neste interior nocturno com abóbadas,
o ímpeto de dor que noutras ruas
à claridade do sul perto do mar
(como eu odeio a claridade, o sul e o seu mar)
me fez sossobrar ao segredo do álcool.
Mas porque não jurar-te - é o crepúsculo -
que certos fogos próximos do fim
ganham duma inércia consumida
o maior poder de cremação.

De repente um holofote mais baço
acendeu-se contra o alvo de centro perdido.
Atira o dardo, é a tua vez. Porque esperas?
Queres que seja eu, em tudo, a manejar?
E tu de mãos tão hábeis, o pulso grosso e mesteiral,
o cabelo farpado sobre as sobrancelhas de vinil.

Com as calças vermelhas, a camisa de riscas ferozes
e a gabardina abandonada num banco de balcão,
o tocador de alaúde saúda um tempo que passou,
alegra o tumulto contido do salão onde as bebidas,
as refeições ligeiras, os últimos encontros do dia
se preparam para amanhã, para um quase sempre
de entradas e saídas acompanhadas de risos
e olhares onde a ternura se esquiva para a rua.

Agora é tarde. Sobe para além da noite
o nevoeiro habitado na comporta
onde correm lamas e a ferrugem
de todas as coisas abandonadas.
Quando sorriste por entre os remos,
a convulsão viscosa dos detritos
cresceu em arbustos vermelhos
com as bagas crepitando na sombra;
e uma rede de pássaros invisíveis
cantou para ninguém, nos cimos,
na flutuação de chamas inesperadas

Joaquim Manuel Magalhães

15.7.07


Olhos cor de chicote


Fiz uma casa com traves funestas
e a casa estava toda em fogo.
À hora da tarde quando o canto dos melros
e dos tentilhões começa a enlouquecer.
Por vezes a chama fugia da casa
à espera de viragem que não vinha.

A distância naufraga em soro branco,
o arbusto recolhe na falésia a profecia,
na carcuma onde a poalha não tem fim.

Torna-se ainda mais convulso
o remorso que tomba, ouvia-se
cada um dos soluços, pisados
por todos os que passavam.

Um nome ganha temor, a penumbra, o cipreste,
a crepitação das coisas que dizimam.
Um jorro negro é a sua frente.
E tu dizes-me: vais deixar
de ouvir as ondas, o verão não voltará,
podes esquecer e ser feliz.

Mas já é tarde. Não valia a pena
cada lágrima, a casa calcinada,
o bosque ao abandono, a geada no bebedouro,
o regresso de mais um sonho.
Em todos eles se liquefazem as árvores,
o torreão afogado do caminho, o curral,
o saque da fruta por larvas de uma grade.

E continua a arder no quarto
que rebenta.
Tudo se acumula na representação.
Assim um sismo
retira cidades do que foi cidade.
Então o fogo, cada uma das suas homilias,
corre pelo vazio veloz de todo o fogo.

No corpo desmantelado chamamos
à ignorância que de dentro nos mata
o destino, a casa a arder,
a passageira ondulação final.
Incham os órgãos até à gangrena,
as mucosas apodrecem, os tendões
esmagam-se de encontro à terra
numa dança de cinza.

De vez em quando passam os cavalos,
vão pelo silêncio para o alto.
De cada vez os teus olhos pousam
na pradaria de silva e cana seca.
Passam os cavalos com o cavaleiro,
enredam arvoredos, o seu tropel sustém
tocas mineiras, muros derruídos, a tarde
uma canção em luta. Nada traz
nenhum aviso ao plaino ácido,
ao mundo sem açaime.

E chega o escuro
donde desapareceram os cavalos. A vigília
em ligadura, sufocações por trás do que não sabemos,
uma praga certa vez ouvida, incurável na recordação.
Líquidos que batem, molas que não agarram,
galhos donde evapora a seiva.
Uma casa arrasta para longe
do humano, a natureza traz-nos
ao que somos diante de coisa alguma.

Se eu tivesse uma máquina suspeita
que, de encontro ao pano da montanha
e do mar em seu redor, arrancasse
o que pelo sol fora abatido,
animais ominosos ouvir-se-iam de repente.
Assim, apenas em redor do meimendro
se debruçam os arcos rasteiros da amica.
Tanto tempo os confundi com as azedas
pelo campo desarticulado.

Na cremação viscosa dos telhados,
no cerco dos olhos incapazes de seguir,
no alarme do verdete da fonte,
no túnel donde escorre a fuligem,
no perigo de passeios com cadastro
perdi todo o trevo desses lábios
que sabiam prender-se com os meus.

Joaquim Manuel Magalhães

24.6.07


Páramo


Na varanda sem paz eu vejo o mar
mas já não vejo junto desses olhos
que viam o mar amordaçar-me.
A varanda, todavia, ainda traz
na ondulação, nas maresias
a ilusão de um silêncio
em que tu pretendias: aqui,
nesta lei tão dura, senti
que nada mais terei do que ser de ti.
A varanda continua a sua conjura,
eu continuo o desgaste do mar
só que noutra jura a tua vida dura
e até o mar te deixou de esperar.

O vário vento que vem e que voa
sobre argolas com vasos de gerânios
que tombam vagarosos e rosas
sobre ruas ruidosas de Lisboa
toca ao de leve no copo por que bebo
esquecido e sozinho ali
onde dantes vinhas com o maior apego
ouvir ao fim da tarde eu olhar para ti.

Ao alto dessas ruas que Lisboa já não tem
havia um andar quase arruinado
com o estilhaço, a cólera, o fermento
de quem se resignava também
a que não valesse a pena nada.
No vagar desse desmoronamento
essa ruína foi tua e foi minha,
o seu reboco de cal, a pele refém,
a cisterna petrificada.
Amávamo-nos entre eléctricos que passavam
do nascer do dia até ao nascer do dia.

Não há nada que se peça que nos seja dado
mesmo quando gritamos alto por perdão.
Merecemos tudo o que ficou fragmentado
no pensamento que não sabe inebriar-se
quando os sentidos perderam o condão.

Essas ruas de Lisboa que findaram
como findaram os dedos que prenderam
o bordão de ternura
que tantos outros nos cortaram.

Tal qual o prédio caímos
e apenas o pó
desenha entre o que nem persigo
um resto que sabe que está só
porque nenhuma solidão vem ter consigo.

Joaquim Manuel Magalhães


13.5.07


Juntamos toros e gravetos
para a lareira. Na mata

flutua o crepúsculo.
Marcos de luz a findar.

Vagas de zimbro, escórias
o arpão do esquecimento.
A súbita melancolia da casa.

As janelas abrem para o rio
e a barra e a ilha com névoa.
Podias ser tu de céu a céu.

A inquieta certeza da poesia
não admite questões. Descobre-se
ao virar da vinha, quando chegamos
ao tanque e não há ninguém.

Joaquim Manuel Magalhães


7.5.07


Abria o guarda-fatos e tirava
o casaco mais velho e as piores
calças de veludo cor de sombra
Ia ter contigo. Só o perfume

fazia pressentir o coração,
essa frágil ideia que batia
quando me sentava no café
muito antes da hora combinada.

As mãos quietas, o rosto debruçado
para o vidro sujo de tabacos
donde ao longe havias de chegar.

O chão coberto duma luz magoada,
de papéis amassados, cinzas
que teus pés vinham a calcar.

Joaquim Manuel Magalhães