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7.2.11

Gatos



Ninguém como os gatos
sabe contar as estrelas e os duendes
que se evadem do labirinto das fábulas
para desassossegarem as virgens
das aguarelas dos quadros interditos.
Os gatos lavam-se
para que nada do que é impuro
macule a santidade
dos instantes que a memória não retém,
por serem felinos como o reverbero das pedras
preciosas da noite dos alquimistas.


José Jorge Letria

4.12.09

Outras tantas vezes morrerei no que não disse.



Outras tantas vezes morrerei no que não disse.
Esta palavra morte teima em não me sair
da boca. É antiga e grave como
um pressentimento ou uma cicatriz.
Olho-me nos retratos da distância
e tenho um nome feito de algas.
Toda a minha vida é um círculo inquieto:
os filhos no meio a brincarem com a areia,
a erguerem cidades no vento, e eu de pé,
atordoado pelo medo, a interrogar-me
sobre o amanhã das falas que me tiram
de enganos e temores. Desenho uma planície
branca ou uma casa indefesa e tudo
o que sei é um motim de sombras
à ilharga dos olhos na véspera de outras águas.

José Jorge Letria

24.11.09

Para que se possa salvar a Literatura



Gosto das personagens que morrem
antes do fim das histórias. É a vida.
As que sobrevivem estão condenadas
a um purgatório do qual
nenhuma ficção as resgatará.
As personagens devem ser como os remédios:
devem ter um prazo de validade.
Não gosto que se pergunte:
o que terá acontecido a Bernardo
e a Luísa depois daquele drama?
Há questões que a literatura não pode
nem deve deixar em suspenso. É fatal.

Hoje escreve-se já para a segunda edição,
para a cinta que proclama o êxito,
para a entrevista na revista do semanário,
para o império da banalidade.
A sofreguidão do novo leva o mercado
a chamar escritores a alguns transeuntes
que acidentalmente decidiram
fazer da literatura um rendimento fixo,
uma escada em espiral para a glória
dos consultórios de dentista.

Nestes casos particulares deviam ser as personagens
a exterminar os autores. Para quê?
Para que se possa ainda salvar a literatura.


José Jorge Letria

14.11.09

Havia as fogueiras e a dança das raparigas



Havia as fogueiras e a dança das raparigas
e o verão era um círculo luminoso
no centro do qual o canto todo se movia
como um pássaro ou um fruto
e que ninguém se atrevesse a dizer-me
que não podia ser aquilo a felicidade
com os seus outros nomes e rostos,
com as suas corolas incendiadas
e os seus aromas quentes fugidios.
A infância enchia as casas
com a tinta fresca dos risos e dos jogos
e era como se pintasse as paredes
como o azul limpo da festa irrepetível.
E eu acocorado num canto a contar as horas
que faltavam para setembro ser outono
e para a noite, a dos perturbantes achados,
manchar o soalho com a tinta morna dos temores.

José Jorge Letria

28.10.09

O deserto inominável



O deserto é um silêncio depois do mar,
É o êxtase da luz sobre o coração da areia.
Vai-se e volta-se e nada se esquece.
Tudo se oculta para depois se dar a ver
No ponto em que os ventos se cruzam
E as almas gritam no fundo dos poços.
Os cestos sobem e descem prometendo água,
Uma frescura que derrete a febre.
Não são as tâmaras que adoçam a boca,
É a beleza das mulheres dissimulando
O desejo como um pecado sob a escuridão dos véus.
As serpentes assobiam ou cantam
Conforme o veneno que lhes molda o sangue.
Enroscam-se sobre as pedras
como fragmentos de lua à espera da manhã.
E a sombra alonga-se nas dunas
Ondulando rente às palmeiras
Como a última cobra do medo das crianças.
Não há ruído maior que este silêncio
Que se serve com tâmaras e com chá
Na mesa rasteira, sobre a terra molhada.
É no que não se nomeia que está o infinito.


José Jorge Letria

24.10.09

Para que se possa salvar a Literatura



Gosto das personagens que morrem
antes do fim das histórias. É a vida.
As que sobrevivem estão condenadas
a um purgatório do qual
nenhuma ficção as resgatará.
As personagens devem ser como os remédios:
devem ter um prazo de validade.
Não gosto que se pergunte:
o que terá acontecido a Bernardo
e a Luísa depois daquele drama?
Há questões que a literatura não pode
nem deve deixar em suspenso. É fatal.

Hoje escreve-se já para a segunda edição,
para a cinta que proclama o êxito,
para a entrevista na revista do semanário,
para o império da banalidade.
A sofreguidão do novo leva o mercado
a chamar escritores a alguns transeuntes
que acidentalmente decidiram
fazer da literatura um rendimento fixo,
uma escada em espiral para a glória
dos consultórios de dentista.

Nestes casos particulares deviam ser as personagens
a exterminar os autores. Para quê?
Para que se possa ainda salvar a literatura.


José Jorge Letria

Quem me fez sem fé



Se Deus existe, fez-me sem fé,
Inapto para a crença e para a bondade da prece.
Infelicidade a minha. Miséria a de quem
nasceu assim, vazio de quase tudo
o que mereça um olhar apontado às estrelas,
uma devoção murmurada sob a forma de queixa.
Como posso eu implorar perdão
se não sei onde, como e por quem pequei?
Como posso eu pedir a dádiva da salvação
se nem sequer tenho a certeza de querer ser salvo?
Deve ser bom ter a quem rezar,
nem que seja às divindades múltiplas
e impalpáveis das águas, dos ventos e das luzes.
Eu nasci sem fé. Ponto final.
Talvez Deus se tenha esquecido de mim
na hora de distribuir pelos humanos
a oferenda imperecível da submissão e da crença.
Talvez eu estivesse a dormir ou, quem sabe,
não tivesse ainda saído do ventre materno.
Tudo é possível. Mas atrevo-me a perguntar:
e se Deus, simulando este imperdoável esquecimento,
me tivesse dado o verso para eu falar com ele
imaginando que é comigo que falo?
Só no fim de toda a escrita
poderei ter certezas a este respeito. Quem
estará lá à minha espera
quando já não houver mais palavras para dizer?


José Jorge Letria

5.3.09

Mãe, Eu Estou tão Cansado

Care Poster

Mãe, eu estou tão cansado e sinto nos ossos
o chamamento da água, o chamamento sibilino
que se confunde com o ranger das portas das casas
onde jamais voltarei: venha veloz o sono capaz
de me resgatar e que dentro dele se perfilem
as sombras e os gestos, exército dos meus medos
mais secretos, temores enrodilhados na roupa húmida
das camas. Mãe, a luz não se demora no meu quarto,
morre nas corolas das flores que trouxeste
para o riso não murchar, e eu fico doente só de olhar
os muros onde a hera é espiral de espanto, raiz
de uma enfermidade latente. Não voltarei
às actas do desespero, que são sombrias e magras
como os corpos dos amantes que definham sobre a areia
na fúria da maré, com uma gramática de murmúrios
escondida na solidão branca das dunas, mãe.

José Jorge Letria



18.2.09

O Cerimonial das Mãos

Femme Enfant (c.1920) Art Print

Mãe, onde foi que deixaste a outra metade,
a que anunciava o sol na turvação das noites,
a que iluminava a sombra no cerimonial das mãos?
Em que côncavo de rochas buscava abrigo
essa outra metade que eu via projectada
para fora de mim como um sonho evadindo-se
do círculo de medos em que a fúria se jogava?
Eu era gémeo de todos os assombros
e os meus segredos era com essa outra metade
que os partilhava à revelia das bocas
que em surdina me traçavam o destino.
Quanto de mim se perdia nessa metade
que me furtava o riso e me deixava a culpa,
que me feria o ventre e me fustigava a pele?
Quanto de mim me flagelava
sem que eu lhe conhecesse morada ou nome?
Mãe, eu pedia uma trégua ao vento
e um punhal à chuva e com ambos queria
separar de mim a metade incandescente
que à beira dos meus gestos
ganhava altura de nuvem e fulgor de estrela.
Mãe, eu vejo-me outro nesta cama
que guarda os instrumentos liquefeitos da insónia
e sei que não sou eu quem lá está,
que não sou eu que lá quero estar.

José Jorge Letria

8.1.09

Os Filhos São Figuras Estremecidas

Father and Son Art Print by Nora Hernandez

Os filhos são figuras estremecidas
e, quando dormem, a felicidade
cerra-lhes as pálpebras, toca-lhes
os lábios, ama-os sobre as camas.
É por mim que chamam quando temem
o eclipse e o temporal. Trazem nos cabelos
o aroma do leite e da festa das rosas.
Voam-me por entre os dedos, por entre
as malhas da rede de espuma
que lanço a seus pés. Reinam
num sítio de penumbra onde não
me atrevo sequer a dizer quem sou.

José Jorge Letria


9.11.08

A Sofreguidão de um Instante

Kiss in Paris Art Print by Talantbek Chekirov

Tudo renegarei menos o afecto,
e trago um ceptro e uma coroa,
o primeiro de ferro, a segunda de urze,
para ser o rei efémero
desse amor único e breve
que se dilui em partidas
e se fragmenta em perguntas
iguais às das amantes
que a claridade atordoa e converte.
Deixa-me reinar em ti
o tempo apenas de um relâmpago
a incendiar a erva seca dos cumes.
E se tiver que montar guarda,
que seja em redor do teu sono,
num êxtase de lábios sobre a relva,
num delírio de beijos sobre o ventre,
num assombro de dedos sob a roupa.
Eu estava morto e não sabia, sabes,
que há um tempo dentro deste tempo
para renascermos com os corais
e sermos eternos na sofreguidão de um instante.

José Jorge Letria

13.10.08

A Minha Saudade Tem o Mar Aprisionado

Sunset Art Print by Zingoni

A minha saudade tem o mar aprisionado
na sua teia de datas e lugares.
É uma matéria vibrátil e nostálgica
que não consigo tocar sem receio,
porque queima os dedos,
porque fere os lábios,
porque dilacera os olhos.
E não me venham dizer que é inocente,
passiva e benigna porque não posso acreditar.
A minha saudade tem mulheres
agarradas ao pescoço dos que partem,
crianças a brincarem nos passeios,
amantes ocultando-se nas sebes,
soldados execrando guerras.
Pode ser uma casa ou uma rede
das que não prendem pássaros nem peixes,
das que têm malhas largas
para deixar passar o vento e a pressa
das ondas no corpo da areia.
Seria hipócrita se dissesse
que esta saudade não me vem à boca
com o sabor a fogo das coisas incumpridas.
Imagino-a distante e extinta, e contudo
cresce em mim como um distúrbio da paixão.

José Jorge Letria

16.9.08

Ode ao Gato

Domestic Cat, Two White Persian-Cross Kittens, One Odd-Eyed Photographic Print by Jane Burton

Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.

José Jorge Letria

17.8.08

O Amor Tudo Mata quando Morre

Delicate Blossom II Photographic Print by Nicole Katano

Eu morro dia a dia, sabendo-o, sentindo-o,
com a morte do amor em mim.
Esvaiu-se, ensandeceu, partiu,
espécie de sol sepultado por mãos ímpias,
numa cratera de lua, algures,
ou na tristeza de um retrato emudecido
pela ausência de vozes em redor.
Sem ele, a casa ficou deserta
de risos, acenos e afectos, de tudo,
as mãos ficaram ásperas, secas,
a pele do rosto gretada, fria,
e o sangue tornou-se lento e espesso,
incapaz de dar vida às pequenas folhas
orvalhadas da imaginação das noites.
A erva cresce em redor de mim,
os limões ficaram ressequidos sobre
a toalha bordada, num canto da mesa.
O amor tudo mata quando morre,
detendo no seu movimento elementar,
a máquina que ilumina o coração do dia.

José Jorge Letria

24.7.08

Meditação Sobre os Poderes

Stone Reflections I Photographic Print by Nicole Katano

Rubricavam os decretos, as folhas tristes
sobre a mesa dos seus poderes efémeros.
Queriam ser reis, czares, tantas coisas,
e rodeavam-se de pequenos corvos,
palradores e reverentes, dos que repetem:
és grande, ninguém te iguala, ninguém.
Repartiam entre si os tesouros e as dádivas,
murmurando forjadas confidências,
não amando ninguém, nada respeitando.
Encantavam-se com o eco liquefeito
das suas vozes comandando, decretando.
Banqueteavam-se com a pequenez
de tudo quanto julgavam ser grande,
com os quadros, com o fulgor novo-rico
das vénias e dos protocolos. Vinha a morte
e mostrava-lhes como tudo é fugaz
quando, humanamente, se está de passagem,
corpo em trânsito para lado nenhum.
Acabaram sempre a chorar sobre a miséria
dos seus títulos afundados na terra lamacenta.

José Jorge Letria

28.5.08

Quando Eu For Pequeno

Explore: Child in the Rain Photographic Print by Nicole Katano

Quando eu for pequeno, mãe,
quero ouvir de novo a tua voz
na campânula de som dos meus dias
inquietos, apressados, fustigados pelo medo.
Subirás comigo as ruas íngremes
com a certeza dócil de que só o empedrado
e o cansaço da subida
me entregarão ao sossego do sono.

Quando eu for pequeno, mãe,
os teus olhos voltarão a ver
nem que seja o fio do destino
desenhado por uma estrela cadente
no cetim azul das tardes
sobre a baía dos veleiros imaginados.

Quando eu for pequeno, mãe,
nenhum de nós falará da morte,
a não ser para confirmarmos
que ela só vem quando a chamamos
e que os animais fazem um círculo
para sabermos de antemão que vai chegar.

Quando eu for pequeno, mãe,
trarei as papoilas e os búzios
para a tua mesa de tricotar encontros,
e então ficaremos debaixo de um alpendre
a ouvir uma banda a tocar
enquanto o pai ao longe nos acena,
lenço branco na mão com as iniciais bordadas,
anunciando que vai voltar porque eu sou pequeno
e a orfandade até nos olhos deixa marcas.

José Jorge Letria


19.3.08


Os Livros



Apetece chamar-lhes irmãos,
tê-los ao colo,
afagá-los com as mãos,
abri-los de par em par,
ver o Pinóquio a rir
e o D. Quixote a sonhar,
e a Alice do outro lado
do espelho a inventar
um mundo de assombros
que dá gosto visitar.
Apetece chamar-lhes irmãos
e deixar brilhar os olhos
nas páginas das suas mãos.


José Jorge Letria