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1.3.10

Canção de uma tarde qualquer




Em S. Paulo da Missão
quando o sol se apagava
na areia vermelha
(nos fundos por trás
da quitanda)
a negra Arminda abria devagar
a cancela
de madeira
e sozinha
sem ajuda de ninguém
ia no Burity ou no Sô Santo
beber.

Muitas vezes
ela 'tá ficando
tarde toda
sentada na esteira
os olhos longamente postos
no vago
contando
história do tempo antigo
em jeito de assombração.

A garotada em roda dela
escuta só
E suspensa vê
vê mesmo
correr a vida
nos olhos sem vida
da velha Arminda.

João Maria Vilanova (Angola)

27.11.09

Canção do navio negreiro



Depois da chuva
os meninos em bando
largavam a lagoa
vinham brincar a navegação
Do pequeno porto
saíam então gasolinas dongos
navios de grande calado até
feitos uns de bimba
mafumeira
outros de tampa
de cartão.
Vovô Bartolomeu
gostava de parar
a olhar esses navios
como que em maravilha
estivesse vendo
sei lá
um mar todinho verdade.
Um dia Juca Mulato
lhe procurou
que barco era esse
navegando ao largo
com formigões na proa
e grandes velas
pandas.
«Esse - disse o velho coçando
o queixo - é mesmo
navio negreiro.

João Maria Vilanova (poeta angolano)

18.4.09

Canção para Joana Maluca



Para eles
eras unicamente a suja
a piolhosa
colhendo beatas
á porta do Nacional

E lestos
enquanto o sol brincava
no ombro alcantilado
das encostas
seus rafeiros te lançavam
de dentro dos quintais.

Joana
eles sabiam tua mão
e a temiam
(tua mão espinho-de-piteira
tua mão ngana-acusadora-mesmo
ah! kikata kikata muene)
até quando
estendida tua mão
pedia.

Na escudela da noite
entre cassuneiras e muxixis
uma pobre escura flor
adormecia...

João Maria Vilanova (poeta angolano)

18.2.09

Revolucionando



meu corpo suspenso da gávea
meu corpo
meu corpo colhido sob o látego
meu corpo
meu corpo levado no portão do negreiro
meu corpo
meu corpo linchado no Alabama
meu corpo
meu corpo despedaçado em Guernica
meu corpo
meu corpo despedaçado em Auschwitz
meu corpo
meu corpo mutilado em Hiroxima
meu corpo
meu corpo tombado n’água em Bate-pa
meu corpo
meu corpo aprisionado em Kasanji
meu corpo
meu corpo segredado em Shaperville
meu corpo
meu corpo baleado em Attica
meu corpo
meu corpo trespassado em My Lai
meu corpo
meu corpo metralhado em Siglo Veinte
meu corpo
meu corpo massacrado em Wiriyamu
meu corpo
meu corpo torturado em Santiago
meu corpo
meu corpo inviolável na voz do vento

João Maria Vilanova (poeta angolano)

29.4.08


Canção na morte de nga-Caxombo


Olho nga-Caxombo ali
na esteira
deitado morto
a todo comprimento

Vejo-o caminhar sem descanso
do Amboim ao Seles
do Seles ao quipeio
outra vez ao Seles
rotas sem rota mato longe
quem que sabia?

Tipoia o ombro pesava que pesava
duramente Zua
e voz de Kalandu
voz serena do sertão
ele a escutava
através do fogo
através da água
o geito sem raizes
de amar o coração das coisas.

Olho-o pela vez última
na luz rasante desse dez de Julho
a barba à monangamba
cavada sua negra face
morto
deitado morto
a todo o comprimento.


João Maria Vilanova (poeta angolano)


27.1.08

Canção da fruta amarga



Às seis da tarde
Dominga foi esperar
comboio do Bungo
mas Beto não chegou

Esperou na soleira do frio
sob a lâmina azulada da noite
acordada té de manhã
mas Beto não chegou


Até que Zefa
que sempre vendera fruta amarga
trouxe ela mesma a notícia:
Beto caíra esmagado
no porão do navio holandês


João Maria Vilanova (poeta angolano)