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10.7.11

Os teus cabelos


Os teus cabelos escrevem-se com sorrisos de deusas
Tocam-se em laranjas e gomos de guitarras
Bebem-se nas águas das vogais do olhos
Que só tu e eu despimos em estrelas fulgentes
E tu amor, quando me estendes os teus braços
E eu corro como uma criança aturdida para o teu colo
Os teus cabelos voam-me, mas não se dizem com os lábios
Senão com corações que batem desenhados sobre nuvens
Sentem-se como húmidos bejos nas asas de pássaros
Amam-se com a terra e a chuva que sedentos se gretam
Cada fio é um pedaço de voz nas mãos quentes do sol
São uma pedra susurrada onde guardamos perfumes
Onde nascemos e morremos todos os dias como o tempo
Enquanto nossas bocas trémulas se põem na letra c
E todos os outros caracteres são os lençóis de nossa cama!


Manuel Feliciano

6.7.11

Horas abertas



Batem horas curvadas cheias de figos
É tempo de nascer numa boca seca
Comer sem fome caminhos tortuosos
Lamber a terra até te encontrar no grão
Ah amor é na mísera procura que me sabes
A uma laranja de sumo a arder ao sol
Degolei todos os Invernos despidos
Escarrei nos dias submissos que em arrastam
Escrevi a felicidade numa pedra de gelo
Mas com caracteres de ferro em fogo
Amo-te tanto que quebrei o aço dos braços da terra
E os telhados são cardumes de peixes no estômago
Finquei os olhos nas ventoinhas inertes dos montes
E a minha voz limpou as névoas com o teu nome
Não acho que a vida é para engelhar num bolso
A minha língua pinga no mel dos figos
Acendem-se pedras ao esmagar-me os dedos
Não quero que me cubram com guardas-chuva
A vida amassa-se com dedos nos verbos da lama
Eu vou seguir pelo mar no barco de mim mesmo
Foda-se se fizeram greve no porto de Lisboa
Cansei-me de mãos amputadas sem um arranhão
De um charlatão vendendo-me sonhos à porta
Da tinta velha que cobre o céu esfarrapado
Dos olhos impressos nos papeis húmidos das paredes
Que me importa um homem de gravata numa rua
Como quem está pendurado num estendal de roupa
A vontade impressa em passaportes caducos
Duas nuvens dar-me-ão os braços sem carne
Até que os teus seios me queimem com amor a boca
Nem que uma flor pense com força eu e tu de mãos dadas
Sobre burilares de ondas ao som vermelho das línguas
Timbradas na espuma de seda que desfaz entre os dentes
Onde o teu vestido se solta em alvoradas de azuis!


Manuel Feliciano

10.6.11

O Corpo é um verme



Um fato no qual não caibo
De que importa ser belo
Se me aperta no colo
O verme que o sol vomita
Bordado a pão de ló na lapela
Fujo para que não me encontre
Porque quero ser outro desenho
Que ninguém custurou em Paris
Enquanto lhe cuspo o pó da traça
Que trás dentadas de um cão
Desconheço quem mo deu
Não mo passem a ferro
Que a vida é engelhada
Mas se mo deram com gosto
Deixa-o chupar o desgosto
No céu estrelado do chão
Desaperta-mo em gritos de gozo
Em chuva lambendo-o tão bem!


Manuel Feliciano

10.5.11

Os grandes amores



Os grandes amores só são grandes porque são cegos
Nenhum ser amaria se realmente visse
Os corpos e as almas deturpadas dentro de anjos

As mulheres que me diziam sobejamente belas
Vi-as naturalmente em leitos imundos
E as mais feias tinham requintes de deusas

Não falo daquelas que colhi nas têmporas das nuvens
Nem em verdes silvados de amoras
Senão com quem troquei beijos de saliva e carne
Escritos com a tinta húmida dos cabelos

Os quais descongelaram estátuas de mármore
E nos prenderam com as mãos voando em aves
Numa ilha inacessível de condenados!


Manuel Feliciano

10.4.11

A riqueza



A riqueza! A tão célebre riqueza
É-me o sol parido na boca
A minha alma no bico dos pássaros
As minhas costas pasto de ovelhas
É um ribeiro seco de sorrisos cheio
O meu cérebro em gargantas amargas
As minhas mãos prenhas nas pedras
Os meus olhos vestidos de vênus
Os meus pés dançando nas vagas
O meu corpo despido nas árvores
Sangrando aneis fulgentes de estrelas.


Manuel Feliciano

10.3.11

A tua mão branca


Dá-me a tua mão branca
A que chora com olhos à janela
Aquela que ninguém vê da rua
Beijada pelo sal dos astros
Que diz anjos com os lábios fechados
Na que ninguém semeia os dedos
E deita o rosto cansado
Que existe e é de mar e lua
E que os invisuais vêem nitidamente
Dá-me a tua mão branca
E acredita que também é minha
E deixa-me escutar os deuses nos nódulos
E auroras que outras mãos esmagam
A que dá frutos sem precisar de terra
De beijos lábios e sorrisos
E voemos em asas de adorinhas.


Manuel Feliciano

10.2.11

Horas abertas



Batem horas curvadas cheias de figos
É tempo de nascer numa boca seca
Comer sem fome caminhos tortuosos
Lamber a terra até te encontrar no grão
Ah amor é na mísera procura que me sabes
A uma laranja de sumo a arder ao sol
Degolei todos os Invernos despidos
Escarrei nos dias submissos que em arrastam
Escrevi a felicidade numa pedra de gelo
Mas com caracteres de ferro em fogo
Amo-te tanto que quebrei o aço dos braços da terra
E os telhados são cardumes de peixes no estômago
Finquei os olhos nas ventoinhas inertes dos montes
E a minha voz limpou as névoas com o teu nome
Não acho que a vida é para engelhar num bolso
A minha língua pinga no mel dos figos
Acendem-se pedras ao esmagar-me os dedos
Não quero que me cubram com guardas-chuva
A vida amassa-se com dedos nos verbos da lama
Eu vou seguir pelo mar no barco de mim mesmo
Foda-se se fizeram greve no porto de Lisboa
Cansei-me de mãos amputadas sem um arranhão
De um charlatão vendendo-me sonhos à porta
Da tinta velha que cobre o céu esfarrapado
Dos olhos impressos nos papeis húmidos das paredes
Que me importa um homem de gravata numa rua
Como quem está pendurado num estendal de roupa
A vontade impressa em passaportes caducos
Duas nuvens dar-me-ao os braços sem carne
Até que os teus seios me queimem com amor a boca
Nem que uma flor pense com força eu e tu de mãos dadas
Sobre burilares de ondas ao som vermelho das línguas
Timbradas na espuma de seda que desfaz entre os dentes
Onde o teu vestido se solta em alvoradas de azuis!



Manuel Feliciano

6.6.09

Há uma mulher à minha espera


Há uma mulher à minha espera
Num barco de nuvem
De lança de aurora e de núpcias
Metafísica de longínquos cabelos de seda
E um cavalo azul atravessa o céu
De líquidos dedos e sons aromáticos
Por detrás das rosas com bocas de carne
Oh ânsia de um Deus vivo
Oh natureza sensorial respira
E diz palavras para que todos oiçam
Oh carros e máquinas assassinas
Fiquem humanos
Oh homens sejam carros nessas ruas
Metalizai o vosso ego e orgulho
Pelo menos um cão
Nesses Lassos olhos como a noite
Ladre a podridão
Nesses ferros, nessas prisões
Que a inteligência humana pariu
Um rato no esgoto não queira ser homem!


Manuel Feliciano