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29.3.11

Cerimónia funesta



O corpo não responde
às vozes de comando,
como um cão estropiado
já desdenha os apelos
os antigos convites
às funestas moradas,
esqueceu-se do ponto
vai olvidando senhas
os códigos das grutas
acumulando lixos
as servidões austeras
diluem-se num canto
o corpo não atende chamadas
não estremece ao ruído da chave
não suporta
qualquer intromissão
secou num aterro,
os restos à vista
a memória escava
da lembrança os rastos
avidamente suga
de tal fausto os ossos,
de tão vitais cerimónias
nos tão secretos barcos
mesmo o pouco que resta
ainda se mastiga.


Fátima Maldonado

11.2.11

Quando ao adormecer...


Quando ao adormecer
partimos à procura
da face dos antigos
amores que sufocados
renascem provisórios,
como se vai à pesca
levando numa caixa a isca torturada
ou na boca a faca se transporta
antes de mergulhar à procura das ostras,
entre as pálpebras sustemos,
sem sombra de recuo
a fé de destrinçar por entre moribundos
os limos dos desejos, a folga da tensão,
as faces dos amados.
É sempre em quartos baixos
de vidros sobre as portas
ao fundo de corredores
que se inclina a face por entre os nossos braços
e quando os nomes saltam da boca em alvoroço,
os ternos nomes libertos dos esquifes
os lázaros no fim sempre ressuscitados
a cabeça ao fazer o gesto do encontro
acorda o corpo vivo que se sente enganado
e vai para a cozinha remoendo ameaças
deitar da cafeteira o jorro reluzente.


Fátima Maldonado

11.1.11

A noite progride puxada à sirga



«A noite progride puxada à sirga»
a sombra ao alastrar
nem por isso amansou
adolescência
é verdade
irritaste-me
até dizer basta
encenaste demais
assustaste de menos
mas a linha cruzando
nas artérias
aparava derrames
nas astúcias
às avessas da pele
operavas a meio
da comunicação,
entre patetas
discorrias dislates
menino Caravaggio
com a mão no pescoço
antevisão d’ataque,
o lobo derrotou-te
demais o provocaste,
a fala sem parança
a pressa
cortar a direito
na cadeirinha transportado,
criados aos varais
gritando que se afastem
para que chegue cedo
à gravação directa,
na dor ao domicílio
tinhas certa grandeza
idólatra, sentimental, português.
Agora que te foste
reconheço:
razão tinhas em expor-te
a pressa que levavas
em agarrar o pai
já muito adiantado
dava-te pouca trégua
mas tenho que dizer-te:
apesar dos colóquios,
da parva constrição
em volta do Pessoa,
sôfrega mania
sentado de cachecol
ao lado de imbecis
eras, poeta,
profeta do amor
que sempre interpelaste
capaz de manter
debaixo do teu mar
a leva das cabeças
imunes à ternura
ao lírico desmando
de amar perdidamente
a sombra de ti próprio
nos pobres mais devassos
nos olhos mais traidores
florbela te vinhas
tão cego lusitano
lá conduzisse a nau
à seda dos engates
os bairros, as calçadas
à esquina dos jardins
derramaste a mirra
nos príncipes reais
e vais-te de repente
e nós de boca aberta
sobre esta papelada
«porque onde termina o corpo
deve começar outra coisa, outro corpo».


Fátima Maldonado

9.12.10

A Adoração dos Magos



Aquela noite a três
foi como desenhar a maçarico
numa chapa de ferro
um vento fóssil, um vítreo monograma,
o rasto ao exceder o voo de uma carriça
cativo flutua no vidro de uma jarra.
Suspensos percorriam na polpa da vertigem
léguas sobre o abismo.
Pendentes do zinco da manhã
à espera do início
do seguinte espectáculo
dispersaram o sémen
nas chaminés da noite leprosa.
Nos terraços da luta percorreram
as danças mais funestas da ternura.
Num combinar astuto de referências
abriram-se os portais
e despediram galopes penitentes
os animais libertos
das tecidas mansões.
O unicórnio branco depôs sua cabeça
nos braços da senhora,
compadecida dama,
e lhe tocou fiando suas lãs
entre as unhas crivadas por metralha.
Sinto-lhes o assédio,
em cada joelho poisam
um queixo armadilhado,
a barba já cresceu desde o jantar.
«É a adoração dos magos» - murmuras tu –
fincando na ravina os dedos imanados
enquanto o tronco investe
a pele percorrida por venosas nascentes.
Olho por sobre um ombro
e surpreendo a treva
ofendida esgueirar-se
entre os dedos da porta.
O noctívago galgo
devora a escuridão às cegas no recinto.
Em breve a luz envolve
de opalinas unções as cabeleiras.
Iminentes desenham-se as saídas,
o croissant no prato, o garoto no copo,
o revestir a pele doutros fatos
a tragédia jazente nos horários.
Aquela noite a três foi sem remédio.


Fátima Maldonado

29.3.10

Quiseste-me


Quiseste-me e depois foste desmoronando
glóbulo a glóbulo
alteraste sistemas rebentando artérias
devassaste lugares
deixando vestígios de razão
como sobram nas neves mais eternas
as latas de cerveja os restos do fiambre
em papéis suados de gordura
é urgente fuzilar inúteis
o que invade e destrói o nosso próprio concentrado
campo
lógicas ordenam e revelam
organizam as cinzas do que não se mede
atrevem-se a manchar
sítios remotos
o que de cada ser faz parte incerta
na deriva real da procura
tentam riscar sagrados hipotálamos
com o ponteiro dos factos
a geometria a que te condenaste
vai encerrando os dados que precisas
para jogos de risco, outras encantações
e sempre mais couraças
inerme comandado por regras brutas
como escamas de aço
suturas bolas de natal
sem perceber que pouco tempo existem
irisadas subitamente estalam.


Fátima Maldonado