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26.1.11

Psicoalteração do Rato



rói o rato a roupa
na corda ao fim da rua
e arrota

num ror de razão o rato
rouba arroz ao porto do povo
e roto troca o troco
por trigo trancando-se atrás
do rasto raro e fica rico o rato
e por um triz não é trazido
de rastos pela rua a trote
mas chega ao trono e trás!
Rato sem roldana trás!... catrapuz!
Sem ruga roga a quem ri
rato rói rato até à raiz

mais radical a ratazana tradicional
num golpe de rins reluz ao raiar
de um enorme sol de luz
e ao farejar o rumorejar do país
corre pr'o Rand
pela ração sem retalhos
e quando regressa rola ruela
à risca e acende o rastilho
e não se rala por quem se roa

o rato resignado recolhe a rede
e rema rompendo as rugas
do mar sem rumo
e aí sem renitência reina
sem rusga nem ratoeira
e não se rala o rato roedor
rói até rédea
rato recto faz do rito revolução

Guita Júnior (Guita Jr.)
Moçambique

26.11.10

Por uma sereia de treva



sem segredos melhor que nós
ninguém sabe a morte a dois
e como heróis subterrâneos que somos
procuramos a vida por entre as trevas
navegamos algas ao amanhecer
para encontrar um irmão pelas mãos

empresta-me a tua máscara quero saborear
esta melodia ter nos olhos a cor
e antes que o dilúvio se propague
nademos nas profundezas do asco
talvez surja uma sereia de treva
onde possamos pousar o coração
que em fragmentos se dissolve no iodo
da atmosfera que transportamos às costas

sem segredo melhor que nós
ninguém por entre a fresta da porta
da noite apalpa este enigma:
prestar contas ao silêncio dos olhos
e conter a náusea por um instante
ultrapassando o passado hóspede da masmorra
da presente folia ardente transeunte

Francisco Xavier Guita Júnior (Guita Jr.)
Moçambique

29.5.10

Por uma sereia de treva


sem segredos melhor que nós
ninguém sabe a morte a dois
e como heróis subterrâneos que somos
procuramos a vida por entre as trevas
navegamos algas ao amanhecer
para encontrar um irmão pelas mãos

empresta-me a tua máscara quero saborear
esta melodia ter nos olhos a cor
e antes que o dilúvio se propague
nademos nas profundezas do asco
talvez surja uma sereia de treva
onde possamos pousar o coração
que em fragmentos se dissolve no iodo
da atmosfera que transportamos às costas

sem segredo melhor que nós
ninguém por entre a fresta da porta
da noite apalpa este enigma:
prestar contas ao silêncio dos olhos
e conter a náusea por um instante
ultrapassando o passado hóspede da masmorra
da presente folia ardente transeunte

Francisco Xavier Guita Jr
Moçambique



6.3.09

dói-me estar na angústia desta gente que me povoa



dói-me estar na angústia desta gente que me povoa
e ter que quedar à terra os olhos
para que cada instante passe e pareça
o terminus ciclónico de uma avalanche de eternamentes
esse cada agora réstia no fundo salutar mói-me
questiono aos deuses os porquês da mesma hora

de cada minuto da eternidade de cada mísero segundo
tacteia-me a brisa dos séculos e quero ser brisa
sem tacto e despido de tempo e de origem
as manhãs seriam os oceanos plenos pela tarde
alcançaria os pólos nulos e ao anoitecer polvilharia
o sono dos meninos de sonhos numa aguarela em tons lilás

para os mais adultos a mesma paz embalada numa canção
de treva sem sexo por entre as estrias da insónia
ao mínimo sinal da alvorada azul marinha navegaria
avassalando a um certo hábito de desatenção aguardando
o óbito meu teu eu sóbria brisa ao sabor do tempo nosso
tu tempestade na algibeira de cada eterno segundo meu


Guita Jr.
Moçambique


7.11.08

Deixar tudo e partir


deixar tudo e partir

e
sem rota nem bússola
sem mapa nem nada
sem álibi nem compaixão rasgar o vento
como se rasga o lábio
na sofreguidão so último minuto de partir

e
em cada relâmpago na noite incendiado
ter o caminho talvez para o norte
quem sabe para a morte


Guita Jr.
Moçambique


24.10.08

No confrade ranger de dentes




vagueio pelas predilecções mais próximas
ocorre-me neptuno e não transito
para além do simples significante
assim sendo mais próximo estou de saturno
mesmo sem acesso a todos os seus deuses
como os meninos do Gilé

antes de se abrir o sol pela manhã
mergulho incólume na brisa matutina
e torna-se-me dever saborear a comédia da morte
e nas garras negras de cada flagrante devo
desmentir a dor por turnos e constante
a todos os meninos do Gilé

o conformismo ou a dignidade violentada
anulam as provas que seriam para depois
e sem tumulto três de cada um de nós
vão em serapilheira desnudos a enterrar
sem nada que se ore nem canções nativas
pelos meninos do Gilé

agora sem credo zomola patarão
extingue-me também esta pele e ossos
a mente não permite que me dissolva no espaço
o tempo apagará o remorso teu c’uma salva
de palmas e kanimambos muitos – não
dos também teus anónimos meninos do Gilé


Guita Jr.
Moçambique

14.6.08

Mãos sobre o farrapo



mas vamos reconstruindo o país aos impostos
uns menos puros outros mais ilícitos
outros antes porém aos encontrões com mulalas
a verterem-nos da carne o hematozoário
mais emergente que o donativo mais escasso

fazemos sauna nós mesmos sem idades
em busca da purpúrea metamorfose legal
mas é verdade que há ainda motobombas
comprometidas com o dever de necessitar
é verdade
e discursam-se mais dogmas e mitos
as alturas e a vontade submissa

agora estou a pedir cinquenta
para perpetuar o farrapo e a esmola
e para evitar falar de bares e copos
vai uma coroa de flores para os heróis
sempre nos satisfaz mais uma gorgeta
para desarraigar as vontades abdominais


Guita Jr.
Moçambique