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4.3.11

Três meditações junto ao mar




Para lá das vidraças as dunas,
e logo a noite fria e o mar sem horizonte,
a praia sem amantes.
Há quanto não se vêem deuses por aqui,
há quanto não os vejo eu?
Bastavam umas asas frementes
ou as marcas na areia do amor,
um rasto de cicios;
não me empolgam as vagas
nem o que imaginado
me trazem outras vozes;
empolga-me a lembrança dos deuses
que de noite habitam os areais
e unem o seu arfar ao arfar das ondas
sem outro nexo que esse,
apenas as estrelas rutilantes, as águas
e as janelas em terra
que fitam em silêncio o mar nocturno.

*

Deserta a praia, as dunas, os cardos,
o mar sem metafísica,
um barco que não leva ninguém,
talvez homens que suam e praguejam;
a manhã cinzenta é de hoje,
não da sonhada génese,
e a voz das ondas é a voz das ondas
e cresce com o som do vento.
No areal não se encontram marcas
ou ecos de palavras desconexas.
Do amor esvaneceu-se o rasto.
Só um deus e uma deusa dormem
na lembrança dos dias breves
sem que ninguém os possa despertar.

*

Talvez a eternidade seja ficar nas dunas
largando as lembranças a pouco e pouco,
e os nomes da infância e do amor
irem acabando até que convocá-los
se torne no céu branco que absortos olhos fitam.


Nuno Dempster

8.9.09

A lua



Tenho de repensar a minha vida,
disse-me, e acrescentou:
ser-se feliz é não ter esperança.
Lembrei-lhe o sol e o mar
que hoje vejo sozinho nesta praia,
e respondi não há quem viva assim,
ainda que a esperança não exista.
Mas vi-a olhar o céu,
dizendo que sorte é termos a lua
- rege-nos as marés e o corpo -,
e que amava o seu rosto claro,
um espelho de luz na noite
onde se olhava já sem sonhos.
Nem suspeitou ser isso a esperança,
a lua e os espelhos sem mais nada,
a música que ouvíramos
e o mar além, atrás das dunas.


Nuno Dempster

14.6.09

Talvez seja melhor ficarmos longe


Talvez seja melhor ficarmos longe,
descobrindo sozinhos os contornos
das coisas impassíveis e sem tempo:
a fachada da igreja que em granito
nunca se deu a homens ou a deuses,
gerada, nós sabemos, de pedreiras
e por mãos que morreram posta ali.
Mas os cedros talvez exijam menos,
os cedros que se elevam sobre a igreja:
contemplo-os para lá dos vidros, cedros
sem mais inquietações e sem perguntas
de quem se não contenta só consigo.
Porque ser-se sensato é ver as flores
irem a cor largando até os sonhos
se tornarem o fumo esmaecido
das nossas vidas, glória que foi lume
e que não mais lembramos, afastando
a tentação do tempo, a tentação
de sermos novamente anjos febris
à procura da fé no amor dos corpos
que nos tornava seres inscientes,
rodeados de coisas a nós alheias
e apenas nos servindo de cenário
a gestos que se gastam a si próprios.
E então ficam as flores a esvair-se
e cada um com seus rostos amados
perdidos na memória e com o peso
de enganos já vividos que o presente
não esquece e carrega em nossos ombros.
Alheemo-nos. Nada queiramos.
Digamos com o mestre que os poemas
foram cartas ridículas de amor,
e hoje um extemporâneo e vão delírio.
Nenhum outro destino nos convoca
se afinal o que sobra são poemas.
Quedemo-nos assim. Vês no horizonte
lívido o céu deserto que se assoma?
Não o temes, bem sei: mas concilia-te?
E as flores que se tornam mais presentes
na sua impossível duração,
vais como sempre amá-las? Ou será
uma graça que os anos levarão,
e a sua natureza, o teu desgosto? -
pergunto sem que espere uma resposta
porque sei o que digas não me acode.
Oxalá envelheças com doçura
e possas a teu modo ser feliz.


Nuno Dempster