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27.6.09

Pedra Imortal

(Alma)



As pedras
romperam
o silêncio.

Radioactivo
o movimento
radioactiva-se
de amor.

Hoje
o pó
espargiu-se em ternuras.

Somos alma.

Calane da Silva

21.6.09

Índicos Caminhos



Os caminhos
são teus
na lonjura destes
passos.

As palavras e metáforas
são às vezes minhas
rimadas de íntimos
cansaços.

As flores do Índico
são nossas
pétalas do mar
insubmissas...


Calane da Silva

Pedra perene

(Vida)



Na pedra
finge-se
um silêncio
inquieto.

Aglutinados
somos pó e fantasia
luz e sonhos
palpitando loucuras.

Somos vida.

Calane da Silva

31.1.08

Rôsinha



Rôsinha
eu estar chatiado
não ir trabalhar.
Rôsinha
agente aôje vai amar.
- Ouvi quirido
você sabe qui Chiquito
comeu manga verde
tem dor no barriga
agente aôje não vai amar.
Rôsinha
eli não vai chorar!
Eu vai comprar rimédio pra Chiquito
tu vai ver
eli ficar bom
eli ádi bricar.
Tira capulana Rôsinha
agente aôje vai amar!


Calane da Silva


20.1.08

Mukhokweni



Ao Quinho

Mukhokweni
não é lugar de cocos.
Mukhokweni
também tem história
retida na íris
dos meninos da Malanga.
Vivíamos a monte
entre coqeuiros, pamas e piteiras
e tínhamos tudo!
Crianças sempre esfarrapadas
mulheres grávidas todos os anos
xibalos-carregadores
e magaízas endinheirados
que os mabandido por vezes
esfaqueavam.
A polícia também investia
para metralhar corpos
e efectuar prisões
mas em Mukhokweni
sobretudo
vivíamos entregues a nós mesmos.
Vinte e quatro anos são passados
sobre os coqueiros, pamas e piteiras
de Mukhokweni ora urbanizado.
Mas os gritos
pragas e imagens continuaram
doidamente condensados
nos nossos corações já amadurecidos.
Jacinto, Fernanda, Madala
e tu Kadir?
Todos companheiros de infância
que o regime implacável dividiu.
Lembram-se irmãos
dos jogos de futebol no campo da Glória
onde o Zeca
esse loiro traquina
apanhava da mãe para não aprender
a falar landim?
Mas o pau de amoreira
no seu corpo franzino
não o assustava
e lá o tínhamos diariamente
como avançado-centro da nossa equipa.
Não sei o que foi feito dele.
Da Fernanda sei.
Essa menina mulata
de tranças de carapinha
não teve ninguém
por isso há dias sem me reconhecer
quis vender-me amor num quarto qualquer da cidade.
Não me mente
este tempo historiado!
Agora
meninos totalmente diferentes
vivem em Mukhokweni
sem coqueiros, sem pamas e sem piteiras.
Porém
quando passo no lugar
quase sem rancor
choro
milhares de pessoa
que Mukhokweni marcou para sempre!


Calane da Silva


Escritor e ensaísta, Raúl Alves Calane da Silva, nasceu em Lourenço Marques (Maputo) em 1945. Jornalista é hoje docente universitário. Coordenou com Gulamo Khan e Luís Patraquim, a Gazeta das artes e Letras da revista Tempo, nos anos 80.
Dos Meninos da Malanga (1982), em poesia, foi o seu livro de estreia, mas seria com Xicandarinha na Lenha do Lume (1988) que a sua personalidade literária se haveria de afirmar.