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27.2.08

A voz da terra


Cada filho deste país liberto
é trigo amadurecido
sob a garra do sol

e tal o grão se triturado
do pó se ergue explodindo
miolo-voz:
liberdade

Catanas candentes
lhes tatuaram a História
na carne da memória:
Eu, escravizada
prostituída e humilhada
até a raiva ser voz
e a voz Kalash

E sementes de fogo
gerarem a flor
da minha liberdade...

Cada filho deste país liberto
é trigo ondulando livre
no meu corpo ao vento

e seus lábios de ternura
me percorrem em suas canções de Amor:

pura melodia
velando amadurecida
sob a garra do sol

Cada filho deste país liberto
trigo debulhado
a chicote do vento

onde o inimigo ouse
ainda
me cravar opressora presa

tal grão triturado
do pó se ergue explodindo
de Kalash nas mãos
miolo-liberdade


Clotilde da Silva


24.2.08

Quadras da minha solidão



Fica longe o sol que vi,
aquecer meu corpo outrora...
Como é breve o sol daqui!
E como é longa esta hora...

Donde estou vejo partir
quem parte certo e feliz.
Só eu fico. E sonho ir,
rumo ao sol do meu país...

Por isso as asas dormentes,
suspiram por outro céu.
Mas ai delas! tão doentes,
não podem voar mais eu...

que comigo, preso a mim,
tudo quanto sei de cor...
Chamem-lhe nomes sem fim,
por todos responde a dor.

Mas dor de quê? dor de quem,
se nada tenho a sofrer?...
Saudade?...Amor?...Sei lá bem!
É qualquer coisa a morrer...

E assim, no pulso dos dias,
sinto chegar outro Outono...
passam as horas esguias,
levando o meu abandono...


Clotilde Nunes Silva


20.1.08

Candonga




No meu País
os candongueiros brotam

devoram a extensão
das sua coordenadas

deslizam rodopianates
do Rovuma ao maputo

Cogumelos
parasitam de chapéu
entre o Povo
que transpira a rodar os dias
à volta do Sol

O Camarada Sol
o artista criador
com o seu foco irisante
irradiando o passo a duo
a coreografia
das enxadas e martelos...

Mas os cogumelos, esses
pululam
exalam odor a «trinta dinheiros»
especulando até
nos molhos de nabo
de couve e de agrião
que viram pelotão
de candongueiros...

e se infiltram subvertendo
o objecto da maternal sopa:
No caldo exangue erguido na colher delida
invadem a boca alastram a fome
e definham a vida

do Povo e da Nação

E na colherada
discriminatoriamente erguida
até à gula
aí subtil desliza subversivo
o caldo espesso da inflação


Clotilde Silva
Moçambique