Mostrar mensagens com a etiqueta Dina Salústio (Cabo Verde). Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Dina Salústio (Cabo Verde). Mostrar todas as mensagens

3.2.11

Toco os teus campos de neve


Toco os teus campos de neve
e entrego-me aos fantasmas da minha infância

Religiosamente bebo a gota esquecida na palma
da minha mão.

Brisas subtis deixam em arcos tensos
as pétalas que me enfeitam.

E estupidamente me trazem ruas empedradas
veias do meu mundo
onde a bússola e o desejo se confundem
confundindo o destino de nós.

Na ternura das vozes que me envolvem
há um convite ao poema que não consigo.

E as tuas montanhas sacodem
lembranças de outras cavernas
gemendo a noitinha estórias
de aves fugindo e picaretas cantando,
murmúrios de piratinhas,
sussurros de prazeres dolorosamente cambiados em
mercado negro.

Pouco a pouco lês no meu olhar ausente
a existência de outra ilha
E sentes a minha fé
e o braço se afrouxa
perante o adeus que adivinhas
no silêncio do meu corpo.


Dina Salústio
Cabo Verde

29.6.10

Éramos eu e tu


Éramos eu e tu
Dentro de mim
Centenas de fantasmas compunham o espectáculo
E o medo
Todo o medo do mundo em câmara lenta nos meus olhos.

Mãos agarradas
Pulsos acariciados
Um afago nas faces.

Éramos tu e eu
Dentro de nós
Suores inundavam os olhos
Alagavam lençóis
Corriam para o mar.
As unhas revoltam-se e ferem a carne que as abriga.

Éramos tu e eu
Dentro de nós.
As contracções cada vez mais rápidas
O descontrolo
A emoção
A ciência atenta
O oxigénio
A mão amiga

De repente a grande urgência
A Hora
A Violência
Éramos nós libertando-nos de nós.

É nossa a dor.
São nossos o sangue e as águas
O grito é nosso
A vida é tua
O filho é meu.

Os lábios esquecem o riso
Os olhos a luz
O corpo a dor.

A exaustão total
O correr do pano
O fim do parto.


Dina Salústio
Cabo Verde