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9.7.11

Segredo



Os gestos que esconderam qualquer rosto.
E mais nada. O que sentes lembra agora
uma enseada ao longe. assim o modo
de surpreender mais cedo o que era a mesma

imagem que sujeita a própria ausência
ao que por ser assim contém a nova
vontade de encontrar uma mais íntima
direcção insuspeita que se alonga

noutro sentido até ficar oculta
só por instantes no que se aguardava
há muito: este segredo onde procuras

um rio ou uma ponte, os gestos leves
sobre o rosto voltado para nada
daquilo que foi nosso e assim se perde.


Fernando Guimarães

9.3.11

A verdade cabia nos teus olhos



A verdade cabia nos teus olhos, mas estes fecham-se
com um movimento que se torna simples. Apenas a espuma
era trazida pelas ondas e outros vestígios chegaram
de um dia humedecido; depois, vimos como se deteve
e ficou de novo submersa. Mas é dela que talvez se receba
um aviso. Ainda hoje a esperamos quando junto de nós
finalmente se encontra uma nova imagem abandonada
pela proximidade da noite. Sabias que a verdade é um aviso?


Fernando Guimarães

9.1.11

É dentro de uma flor que fica outra flor



É dentro de uma flor que fica outra flor. Mas
esta é maior ainda. Nela é que se encontravam
as pétalas sobrepostas, a mais alta de todas
as hastes, o súbito perfume que procurava o corpo
de ninguém e, depois, se torna ali mais puro
até que continue outra flor, que ficava perdida
no interior das duas para que já não tenha
limites. E há-de esta ser por fim aquela que colhemos.


Fernando Guimarães

9.3.10

Post coitum omne animal triste



Em ti, o poema, o amplo tecido de água ou a forma
do segredo. Outrora conheceste a margem abandonada
do desejo, a sua extensão e principias a entregar
os vasos alongados para receberes as mãos das chuvas.

Apagaram-se junto aos olhos as praias, as árvores
que se ergueram um dia sobre as estradas romanas,
o vestígio dos útimos peregrinos, aves nuas
que já desceram, cansadas, pelo interior do teu peito.

Uma voz, no silêncio calmo das águas, esquece
a mentira das primeiras colheitas, onde os nossos gestos
perderam os sorrisos ou o orvalho que os cerca.

Serenamente, começaram a fechar-se os sonhos de Deus
no interior de novos frutos e, abandonado, fico
junto do teu corpo, onde principia a sombra deste poema.


Fernando Guimarães

23.2.10

Natureza morta de Josefa de Óbidos


Talvez sustentes o que do tempo os frutos
nos vinham entregar, se os vemos próximos
do calor encontrado nestas salas
tão longas que se fecham e consomem

uma minúcia clara, agora extinta
na polpa que se adoça, e em tua fronte
pousou e se adelgaça a transparência
de recortes simétricos, nas rugas

de panos – as verónicas – que exalam
a humidade pura, que das folhas
chegasse, quando as vemos desprendidas

noutras colchas mais fundas que sustentem
as molduras que cercam o sentido
de estar ausente a face que nos olha.


Fernando Guimarães