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6.2.10

A raposa e a cegonha



O sr. Pombo, o carteiro,
trouxe um bilhete à Cegonha,
em folha de pessegueiro,
que ela soletrou, risonha:

«Dona Raposa, a Vossência,
envia muito saudar,
aguardando a comparência
de Vossência no jantar

que às Tantas do dia Tal
do corrente, se efectua
no Retiro do Pardal,
na rua da Catatua.

Não diga nada ao correio
e creia-me ao seu dispor.
Traje: simples, de passeio
R.S.F.F. (Responda, se faz favor).»

É claro: à hora marcada,
no dia Tal, no bilhete,
Dona Cegonha, apressada
lá seguiu para o banquete.

Mas foi uma decepção,
pois a Raposa, matreira,
fez servir a refeição
numa pedra da ribeira...

E, enquanto a pobre Cegonha
achava o caso bicudo,
a Raposa, sem vergonha,
tratava de comer tudo!

Mas a Cegonha, à saída,
despediu-se em tom amigo:
- Gostei muito da comida!
Almoce amanhã comigo!

De manhãzinha, a Raposa,
sempre cheia de apetite,
não quis saber doutra coisa
senão daquele convite.

- Sim, senhora! Bela mesa! -
gritou logo, satisfeita –
Cheira que é uma beleza!
Há-de me dar a receita...

- Bem digo eu, afinal,
e a colegas das melhores,
que dona de casa igual
não há nestes arredores!

Pôs então o guardanapo,
pensando, de olhos em alvo,
que havia de encher o papo
graças a mais um papalvo...

Já a Cegonha servia,
prazenteira, o seu almoço,
numa bilha muito esguia
e funda que nem um poço.

Só um bico, desta vez,
podia chegar ao fundo...
Foi o que a Cegonha fez:
rapou tudo num segundo.

E fula, de olhar em brasa,
a Raposa, como louca,
teve de voltar a casa,
fazendo cruzes na boca.

Vingança é coisa mesquinha!
Mas na vida quem faz mal
paga às vezes a continha
com juros e capital...


Adolfo Simões Muller

25.12.09

O Milagre da Noite de Natal


(em 19.12.59)

A Virgem Mãe, depois de reparar
que ninguém se encontrava já na ermida,
desceu devagarinho do altar,
- como temendo ser surpreendida -

e foi logo espreitar, pé ante pé,
à janela que deita para a rua:
no Céu, brilhava clara luz da Lua.
Em seu altar sorria S. José...

Nem viv’alma. E então Nossa Senhora,
segura já de que ninguém a via,
pôs em acção a ideia redentora
que tivera naquele santo dia.

Foi buscar um cestinho de costura
que ocultara no vão de uma janela.
O cesto era pertença da capela:
- não se rompesse a veste ao padre-cura...

Cortou em largas tira o seu manto,
enfiou uma linha numa agulha
e, depois, foi sentar-se para um canto,
mas sem fazer a mais ligeira bulha.

Quem a visse coser assim tão bem,
ora enfiando ora puxando alinha,
di-la-ia a melhor costureirinha,
mas nunca, certamente, a Virgem Mãe!

O S. José sorria sempre muito,
olhando-a com sincera devoção:
é que ele bem sabia o meigo intuito
que obrigava a senhora a tal serão.

Os outros Santos, todos num cochicho,
não perdiam de vista o altar-mor.
O Santo António, para ver melhor,
até ia caindo do seu nicho...

Houve uma Santa - a gentileza manda
sobre o seu nome conservar sigilo -
que até ficou de resplendor à banda,
tais voltas deu para espreitar aquilo.

A Senhora entretanto costurava,
presa dum sonho que se não descreve,
alheia ao tempo que fugia breve
e ao pasmo que em redor se condensava.

Esteve assim, cosendo, horas a fio,
à frouxa luz de trémula candeia.
De entretida, nem dava pelo frio...
E, contudo, nevava sobre a aldeia!

Fez bibes, camisinhas, tudo quanto
pode servir de abafo a um petiz.
Cada vez refulgia mais
o seu olhar imaculado e santo.




E as peças que a Senhora ia acabando
os anjos dum retábulo da igreja
levavam-nas depois num voo brando
- voo de pomba que no Céu adeja -

às criancinhas que andam pelo mundo
sem roupa, sem abrigo e sem família...
A Virgem continuava na vigília.
Havia em roda um soluçar profundo.

Por fim, adormeceu, ou de cansaço
ou por doce milagre de Jesus.
- Um enxoval inteiro no regaço
e na fronte uma auréola de luz!

E de manhã na missa do Natal,
quando o prior saiu da sacristia,
foi empontar a Virgem que dormia
- tendo nas mãos a agulha e o dedal.


Adolfo Simões Muller

20.12.09

Natal - A palavra mais bela



Fui ver ao dicionário dos sinónimos
A palavra mais bela, sem igual,
Perfeita como a nave dos Jerónimos
E o dicionário disse-me: NATAL.

Perguntei aos poetas que releio
Gabbriela, Régio, Göthe, Poe, Quental,
Lorca, Olegário... E a resposta veio:
Christmas… Nöel… Natividade… NATAL.

Interroguei o firmamento todo
Cobra, formiga, pássaro, chacal!
O aço em chispas, o pipe-line, o lodo!
E a voz das coisas respondeu: NATAL!

Pedi ao vento e trouxe-me dispersos
Riscos de luz, fragmentos de papel
Cânticos, sinos, lágrimas e versos
Um N, um A, um T, um A, um L...

Perguntei a mim próprio e fiquei mudo
Qual a mais bela das palavras, qual?
Para que perguntar, se tudo, tudo,
Diz: NATAL, diz NATAL, diz NATAL!

Adolfo Simões Müller

19.12.09

Noite de Natal



Ai que rico bailarico
Ai que rico lumaréu
Ai que bailarico rico
Bailam as estrelas no Céu!

Bailem todas - giroflé...
Giroflé, giroflá...
Quem está no meio - olaré!
Mais bonito é que não há.

Meia noite... Noite meia...
Batem à porta: triz! Truz!
- Fui à missa... Venho à ceia
Viva o Menino Jesus!


Adolfo Simões Muller

16.12.09

Presépio



Entre as mais doces tradições do povo,
que encerram claro germe de beleza,
uma, por sua graça e natureza,
mais que nenhuma, intimamente louvo.

É o presépio. Sempre me comovo,
quando vejo na sua singeleza:
Fica a chama da crença mais acesa,
- Lembra até que Jesus nasceu de novo!

O Menino a sorrir na manjedoura,
depois muitos pastores, um burrinho,
(tudo de barro!), e ao pé Nossa Senhora

E presa lá no Céu por um cordel,
ensinando aos Reis Magos o caminho,
uma estrela doirada de papel!...

Adolfo Simões Muller

2.12.09

Natal de Jesus



Cai neve, mas não há frio!
Noite velha, e brilha o Sol!
Sendo Inverno, o rouxinol
canta, alegre, ao desafio!

Parece tempo de estio:
nem uma folhinha bole,
nem treme o alvo lençol
das claras águas do rio...

Andorinhas em Dezembro?!
De coisa assim não me lembro
que rezem livros humanos...

Foi milagre ou que seria?
- Ah! Já sei: É hoje o dia
em que o Menino faz anos.

Adolfo Simões Muller

2.7.09

LOVE-FICTION


O poeta é um fingidor
Fernando Pessoa


Quando chegar à Lua, hei-de encontrar,
na fria alcova de árida cratera,
a verde selenita que me espera,
gota final de algum extinto mar.

Terei então cem anos? Um milhar?
Ou mais talvez, além da nossa era...
E ela será botão de primavera
que sem pólen não chega a despertar.

Eu darei saltos de acrobata, ao vê-las,
às algas dos seus dedos, a alongar-se
em railes a caminho das estrelas...

Desceremos os dois, porém, uma curva,
onde o mistério se abre, sem disfarce,
para a face da Lua funda e turva.


(in «Moço, Bengala e Cão»,
edição do autor, 1971)


Adolfo Simões Muller

2.3.08

O Mistério da Palavra


Porque será que uma palavra aflora
correspondendo logo ao nosso apelo,
com a medida justa, o justo emprego,
enquanto noutras vezes se demora
(rimmel, bâton, um jeito no cabelo...)
e chega em voo cego de morcego?

Porque será que uma palavra quase
vai buscar outra dentre a multidão,
e esta segunda, uma terceira e quarta,
e assim nasce de súbito, uma frase,
um belo verso, a quadra ou a canção,
a sentença de morte, a tua carta?

Porque será que uma palavra, impávida,
resiste aos séculos e fica jovem,
ou morre (cancro, enfarte, dor reumática),
enquanto outra, novinha, surge grávida,
e aos nove meses os filhinhos chovem
que é um louvar a Deus e à gramática?

Porque será que a rima atrai a rima,
e a rima nova é como o vinho novo
que salta e espuma e baila na garganta?
E outra rima! Outras rimas! A vindima
das palavras não pára... E, no renovo,
o poema é estrela que alumia e canta!

Porquê este mistério, Poesia?
És tal e qual a electricidade:
existe mas nem sempre a gente a vê.
Porque foges um ano e mais um dia
e voltas, alta noite, claridade?
Porquê? Porque será? Porquê? Porquê?


Adolfo Simões Muller

Poetas Malditos


Malditos poetas, que disseram tudo
e tudo tão bem dito!

Malditos poetas, que me deixam mudo,
sem um ai, uma súplica ou um grito!

Raios os partam, cada qual maldito!

Malditos, que roçaram no seu voo,
com asas de veludo
o infinito!

Malditos poetas: Eu os abençoo…


Adolfo Simões Muller


26.2.08

A última prenda do Menino Jesus



O Menino Jesus,
já cansadinho
de tanto andar
por cima dos telhados,
descalçou os sapatos
apertados - eram novos
- e pô-los no caminho.

Nisto, sentiu ruído
ali pertinho…
Trepou à chaminé
com mil cuidados,
e que viu? -
Dois tamancos
esburacados
e, ao pé deles, rezando,
um petizinho.

O Menino Jesus,
que faz então?
Sem ter nenhum brinquedo ali à mão
desses que tanto agradam aos garotos,

troca os sapatos
pelos do petiz
-e depois vai ao Céu
mostrar, feliz,
à Virgem Mãe
os sapatinhos rotos…


Adolfo Simões Muller

31.1.08

Quando eu era pequenino




Quando eu era pequenino,
Gostava de ouvir contar
Histórias de princesinhas
Encantadas ao luar.

Havia então lá em casa
Uma criada velhinha,
A Sérgia contava histórias
- e que graça que ela tinha!

Lendas de reis e de fadas,
Inda me encheis a lembrança!
Que saudades de vós tenho,
ó meus contos de criança!

“Era uma vez...” As histórias
Começavam sempre assim;
E eu, então, sem me mexer,
Ouvia-as até ao fim.

Lembro-me ainda tão bem!
Os irmãos à minha beira,
Calados! E a boa Sérgia
Contava desta maneira:

“Era uma vez...” E depois,
Olhos fitos nos seus lábios,
Ouvia contos sem conta
De gigantes e de sábios”.

“Era uma vez...” E, por fim,
A voz da Sérgia parava...
E assim como eu te contei
Era como ela contava.

Ai! que saudade, que pena,
Que nos meus olhos tu vês!
Eu sentava-me e ela, então,
Começava: - “Era uma vez...”


Adolfo Simões Muller