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13.2.11

Os significados



Não sei como tudo começou: suponho
que havia uma figura que depois
se estilhaçou para formar um puzzle.
Mas se juntarem todas as peças
talvez não haja nenhuma figura, e então
de que origem intacta partiu tudo
o que depois se quebrou? É impossível
fazer estilhaços de estilhaços sem uma
coerência primeira, agora ausente.
Quando todas as peças se juntam
estaremos reduzidos ainda a uma peça
de uma figura maior, ou essa figura
é uma utopia pragmática, instrumental,
que permite algum sentido?
Ó significados, para vós, na infância,
tinha um caderno.


Pedro Mexia

20.11.10

Acendo e apago todas as luzes da casa



Acendo e apago todas as luzes da casa,
fantasmagoria última, mancha
azulada desfazendo-se. Acendo e apago
todas as luzes da casa, lacre num selo
desfeito. Acendo a pagão silhuetas
que eram corpos, o desenho propositado
das cadeiras, folhas que eram cachos
são agora o salitre das paredes ázimas.
acendo e apago todas as luzes,
do tempo em que havia luzes.


Pedro Mexia

19.8.10

Krapp



Ouço a minha voz
como se estivesse ao telefone,
ouço a tua
murmurando-me ao ouvido
mesmo depois de já não nos
conhecermos,
ouço as canções
de que já não gosto,
as canções de que gosto ainda,
gravadas por amigos tão diferentes,
pirateadas numa madrugada
quando em época de exames
ouvia rádio,
canções interrompidas
por locutores, publicidade,
registos sobrepostos,
ruídos sem interesse,
a tua voz dizendo que nunca
te vais embora,
a minha,
emocionante aos quinze anos,
emocionada aos vinte,
espolio de plástico
que me documenta e reclama.


Pedro Mexia

3.2.10

Identidade


A identidade, como a pele,
renova-se, perde-se de sete
em sete anos, muda no mesmo
corpo, torna diferente
a permanência humana.
A identidade é a soma
das intenções, uma foto
instantânea para um propósito
imediato que não dura.
A identidade é um equívoco
para camuflar o coração.


Pedro Mexia

15.1.10

Duplo Império



Atravesso as pontes mas
(o que é incompreensível)
não atravesso os rios,
preso como uma seta
nos efeitos precários da vontade.
Apenas tenho esta contemplação
das copas das árvores
e dos seus prenúncios celestes,
mas não chego a desfazer
as flores brancas e amarelas
que se desprendem.
As estações não se conhecem,
como lhes fora ordenado,
mas tecem o duplo império
do amor e da obscuridade.

Pedro Mexia

2.11.09

Dei um passo atrás


Dei um passo atrás
e vi pela primeira vez
o número da minha porta.
No passeio, olhando
o metal gasto do algarismo
que há vinte e seis anos
sei que existe,
pensei em recuar um pouco mais
para ver todas as coisas que habito
e não compreendo.
Mas três passos depois
do passeio
o trânsito automóvel
impedia a perspectiva
e a sabedoria.


Pedro Mexia

1.10.09

Paráfrase


Este poema começa por te comparar
com as constelaçoes,
com os seus nomes mágicos
e desenhos precisos,
e depois
um jogo de palavras indica
que sem ti a astronomia
é uma ciência infeliz.
Em seguida, duas metáforas
introduzem o tema da luz
e dos contrastes
petrarquistas que existem
na mulher amada,
no refúgio triste da imaginação.

A segunda estrofe sugere
que a diversidade de seres vivos
prova a existência
de Deus
e a tua, ao mesmo tempo
que toma um por um
os atributos
que participam da tua natureza
e do espaço criador
do teu silêncio.
Uma hiérbole, finalmente,
diz que me fazes muita falta.


Pedro Mexia

1.2.09

Em longo se transforma


Em longo se transforma o breve engano,
e o discurso em vento,
e o desejo em medo.
E a esperança
em memória, e o pensamento
em bússola cega
para o mundo.
E em vidro o espelho apaga,
gasto de mágoas e mudanças,
o claro rosto do futuro.



Pedro Mexia