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16.9.11

Decálogo



o húmus na esperança da terra:
eis o pão!

a carícia nos dedos do vento:
eis a água!

a liberdade na paz dos homens:
eis o trabalho!

a estrela no murmúrio da fonte:
eis o pensamento!

o amor no leite da mulher:
eis a poesia!

o direito no sol do mundo:
eis a justiça!

o equilíbrio na paz dos astros:
eis a ciência!

a harmonia no silêncio do mar:
eis a música!

a luz no calor do sangue:
eis a pintura!

o segredo na voz da floresta:
eis a imaginação!


António Cardoso
Angola

16.8.11

Fundo do mar



deitei-me ao teu olhar
e logo fui ao fundo…
é no fundo do mar
que o embalo é mais profundo…

andam gaivotas no ar,
tontas de luz e espaço,
e eu no fundo do mar
não sinto nem cansaço…

…nem quero salvação:
deixai-me naufragar
nessa doce prisão
do mar do teu olhar…


António Cardoso
Angola

16.7.11

O mar visto da cadeia



o mar é largo
e profundo.
tão largo e profundo,
que cabe todo inteiro
e amargo, no fundo
do simples olhar que lhe deito...

estendido e liso,
refeito como um ventre de mulher
apetecido sem aviso,
já teve sereias e monstros,
ossos a apodrecer,
para ser, agora,
de um qualquer...

desecanto a apodrecer-
-me o canto, nesta hora?
- só se for nas areias
onde morro monótono,
e nas marés-cheias
de tanto luar e espanto
na memória...

já o tive
insatisfeito,
na cova da mão,
no búzio dos ouvidos,
e no sonho que ainda vivo
de uma doce ilusão...

inventei-lhe
desaparecidos ecos,
talvez reinos perdidos,
tesouros, conchas,
algas e palácios
encantados de mouros...

depois ficou só o mar
vulgar, indigesto,
azul, verde, prateado,
"grande, grande...",
com o resto afogado
no coração...

chegou então a hora
do mar lúcido
sem papão,
apreendido,
económico,
assassino, embora,mas também elo de ligação...


António Cardoso
Angola

17.6.11

Ave da madrugada



ave da madrugada
prometida
sobre a margem futura
do rio fremente,
voa-me tua semente
nesta viagem
sentida e pura
nos nervos tensos…

ave da madrugada
diferente
sobre o céu fecundo
dos bosques densos do mundo,
voa-me tua semente
nesta viagem
dorida e madura
nos nervos tensos…

ave da madrugada
certa
sobre a agonia do mar
dos ossos insepultos,
voa-me tua semente
nesta viagem
desperta e dura
nos nervos tensos…

ave da madrugada
rutila
sobre o chão absoluto
das lavras do futuro,
voa-me tua semente
nesta viagem
que cintila e perdura
nos nervos tensos…


António Cardoso
Angola

22.2.11

Há momentos


Há momentos na vida de um Homem
Em que sabe que acordou diferente
E que já não é o mesmo para ele,
Mesmo que o seja para toda a gente...

Há momentos na vida de um Homem
Onde só pode entrar uma Mulher
Aquela que lhe trouxer
A flor do sexo
Desenhada a vermelho no ventre
E nada lhe perguntar...

Há momentos na vida de um Homem
Onde só pode entrar uma mulher
Aquela que lhe trouxer,
Num abraço total,
A ilusão da vida inteira...
E, depois, partir
Com a esperança de vida que ele semeou...

Há momentos na vida de um Homem
Onde só pode entrar uma Mulher
Para todo o Mundo se resumir
À flor vermelha
Como um bocado de sol
Que desponta numa telha!

António Cardoso
Angola

6.2.11

Soneto da criança invencível…


soluça-me no peito uma criança calada
tão indefesa e tão triste, que temo o vento
a derrube. Assiste-me toda aninhada,
sem ter beiral ou ninho, trinado ou lamento…

anda-me na voz e soluça fustigada
pelas chuvas vendavais nos musseques do mundo…
pelas fomes infrenes, nos ghetos, varada…
pelas angústias-suicidas, se doendo, fundo…

ainda hoje é capaz de se maravilhar
com o sol, a noite, uma semente, um segredo,
de seguir o voo de um pássaro ou sonhar

para todos os meninos-velhos, um brinquedo…
escorraçada, embora, recusa-se a odiar,
e sem saber o mal. É frágil… mas sem medo!.


António Cardoso
Angola

27.11.10

Encontro de acaso


Na tristeza de meus olhos
Pousaram suaves os teus.
Nos meus lábios secos de tabaco
Roçaram suaves os teus.
Mulher!
Nem sabes a força que deste
A este desespero calado
De rebentar as amarras
De um dongo numa praia de pesadelos
Varado.

António Cardoso
Angola

1.4.10

Desejo

Male Nude Sitting Photographic Print

Aterra-me nos lábios
Com teus beijos
E deixa-me voar nas asas do sonho
Iludido ainda por viver…

Navega-me
O corpo impuro
Do meu casco imaturando,
Com as ondas crespas e revoltas
Do teu negro e revolto cabelo.

Viaja por mim
Teu corpo em carícias
De voltas ao Mundo:
Sejam abraços tão fundos
Sem nunca lhes medir o fim!

António Cardoso (Angola)

25.2.10

A flor



Meu tão doce amor de mais ninguém,
Imaginado neste deserto
Destes dias, como único bem
Do caminhante que segue incerto

– Onde o meu distante oásis te tem
Tão escondida, se foi desperto
Que sempre andei nesta vida sem
Nunca o encontrar para mim aberto?!...

Meu tão doce amor de mais ninguém,
Construí-te na dura memória
Como flor mais rara que se tem,

Como a flor mais doce e mais madura,
Que jamais alguém um dia viu,
Mas só amargura em mim floriu!...


António Cardoso (poeta angolano)

25.1.10

Ainda não fiz um poema de amor





Falta-me fazer o poema de amor
Consciente,
Sentindo os pés bem firmes na terra
E o sexo como a semente
Que promete em breve ser uma flor.

Falta-me fazê-lo
E mandá-lo à noite
Quando o corpo dela nu
Se mirar nos vidros da janela
Fugindo das roupas que o prendem.

Depois colher a flor
Como a ave que leva no bico
Uma palha para o ninho,
Ou como o viajante sequioso
Que bebe na fonte do caminho...


António Cardoso (poeta angolano)

2.12.09

Marinheiros ou poema dos frustados




Juro, haverá sempre em cada um,
Um marinheiro naufragado,
Portos, mulheres, até rum,
E mar sem navio e calado...

E nas noites doidas de lua,
Com algas e brisas nos olhos,
Aos bordos navegam a rua
Das flores perdidas aos molhos...

Sós, ancorados na cidade,
Com olhos de morto insepulto,
Vêem escorrer-lhes a idade,
Perdida em névoa como um vulto...

Alguns iludem no cachimbo,
O frio que já lhes demora
No outrora sonho e limbo
De uma diferente aurora...

E há o marinheiro cansado
De tão parado navegar,
Que um dia, na praia, prostrado,
Se deixa engolir pelo mar...


António Cardoso (poeta angolano)

26.11.09

Poema panfletário



Duras serão as pedras no chão que pisaremos.
Por serem duras é que abandonei
Os caminhos movediços
Deste mundo em agonia...

Suaves serão as palavras que falaremos.
Por serem suaves é que abandonei
Os caminhos movediços
Deste mundo em agonia...

Pedras e palavras: certas, necessárias
Duras, suaves e seguras.
E uma casa nova.
E caminhos novos de alegria...


António Cardoso (poeta angolano)




25.11.09

O poema que te não sei fazer



Tenho um poema todo negro no cérebro.
Um sabor a sangue
Do poema vermelho da boca.
Uma ânsia louca e branca
Do poema róseo
Que me ofereces sôfrega e eterna
Ao artista que sou.

A!, fora eu mágico
E com esta sinfónica paleta
Musicar-te-ia o poema
Que fizesse de ti a rainha
De um tão pobre escravo-poeta.



António Cardoso (poeta angolano)

19.11.09

Frutos



Que frutos feios os da Europa:
Não têm nome, nem têm cor,
Não tem cheiro, nem sabor.

Maracujá maboque
Abacate sapessape

Soam redondos na boca,
Cheiram nos olhos e na memória

Sôfrega,
Sôfrega...


António Cardoso (poeta angolano)

15.10.09

Um dia


ao António Jacinto


Um dia eu vou fazer um romance
com as histórias da minha rua
antes de se chamar Silva Porto
e os pretos irem embora.
Vai entrar a lua e meninos sem cor
a Domingas quitata, o sô Floriano do talho
com muita mistura de amor
e muito suor de trabalho.
Vou meter as cabras e os cães vadios da velha Espanhola
os batuques da Cidrália e dos Invejados,
os batalhões do "Treze" e do "Setenta e Quatro",
o bêbado Rebocho, o velho Salambio',
a Joana Maluca da garotada,
cajueiros, cubatas, lixeiras,
capim e piteiras,
e mesmo no fim da história,
quando os homens estão desesperados
e as fardas passam em fila,
acendo um sol de Fevereiro,
semeio algumas esperanças
e parto com o meu veleiro
a dar uma volta ao Mundo!


António Cardoso (poeta angolano)

29.9.09


Catavento muma ilha do Atlântico




- Vento ao norte! - Vento norte,
Que novas trazes de Set?
Inda o domínio da morte,
O reino da escuridão?

- Vento ao oeste! - Vento oeste,
Que novas bebeste em terra?
Ainda a desunião,
As lutas, a fome, a guerra?

- Vento ao sul! - Vento do sul,
Porque tens sabor agreste?
Ainda alguma criança
Faleceu, hoje, de peste?

- Vento ao leste! - Vento leste,
Que tens a morte de Set,
Nasceu alguma esperança?
O barco pode singrar?
Tem rumo-de-só-amar?...


António Cardoso (poeta angolano)

30.7.09


Canção desesperada




Vento que vais passar
Pelos loucos cabeços nus,
Que trazes para contar
Sobre a Noite ou sobre a Luz?

Sol que incendeias a terra
Toda nua e resignada,
Que nos trazes dessa guerra
Sem esperança desejada?

Lua, erma e abandonada
Nos confins do abandono,
Que trazes ,assim calada,
Para além de morte e sono?
- Jaz a terra de bruços
Não canta água na pedra:
Só se ouvem soluços
Da desgraça que medra...

António Cardoso (poeta angolano)

21.5.09

A rosa imagimária




É preciso que fique escrito
antes que a tua baba peçonhenta
nos corrompa a palavra
de ti, só se ouvirá no fim da noite
o ranger de dentes
que teu ódio acalenta
inútil e partido!

Sabes Velho Histérico
o que é Ter 29 anos, e sol
e vida?!

Acordar todas as manhãs
com a rosa imaginária
que não dou ao meu amor??

Sabes Velho Histérico
o que é Ter 29 anos, e sol
e vida?
nessa catacumba
de esqueletos onde moras?!

Sabes Velho Histérico
onde está o ventre de mundo
que seria um dia, o meu?!
Aonde está a criança
que não nasceu
nesse ventre de mundo
que seria, um dia, o meu??

Berra Velho Histérico
ainda
a tua ordem
enquanto não chega o vento!

Berra Velho Histérico
na rádio e no jornal
ainda
a tua ordem
enquanto montado no vento
não chega o fim da noite!

... e a rosa imaginária
que vou dar ao meu amor...


António Cardoso (poeta angolano)

21.3.09

Pedido


Só te peço esse olhar doce
Profundo, naufragado
No teu olhar.
Essa tão doce promessa
De beijar submersa
Nos teus lábios de sangue...
...para fazer as coisas mais impossíveis do Mundo!


António Cardoso (poeta angolano)

18.3.09


Autocrítica




Aqui, a sós.
Entre mim e o sonho
De cantar-te,
A voz
De que disponho
Sem engenho e arte...

Fraca e mal nascida,
Nasce,
E nunca digo de nós,
Da vida.
Do Sol
Que prossigo,
Com palavras-não-gastas...
Nasce,
E fica-se (tece)
A tristeza mole da derrota
Pelo mal que digo,
(Canto!)
A certeza da vitória
Nesta rota...

Espanto sem história
Neste esforço
De cantar-te?
Se és tão simples água
Ou sol nas veias,
Simples olhar límpido
De criança perpétua
Sem a primeira mágoa?!

Simples leveza de amar-te,
Simples esperança simples,
Maré-cheia e horizonte,
Escorço de linhas
Com o SOL lá, PÃO e FONTE!...
– ah! minhas palavras minhas!


António Cardoso (poeta angolano)