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20.3.11

Tardes inventadas


As tardes inventei-as.

Fulgurantes umas,
sonolentas outras,
quentes ou arrepiantes
e todas
geradoras de instantes
impossíveis...

Atiro um braço ao ar
e quero que ele prendauma estrela,
um cometa,o floco de renda
de mil cassiopeias...

É dia e há luar...

As tardes inventei-as.

Saúl Dias

22.1.11



No sonho de hoje
era a nuvem,
doirada, sobre as messes...

(A nuvem que me foge!...)

Quisera
dormir eternamente,
embalado nos sonhos em que me aparecesses.


Saul Dias

30.11.10

Para todo o sempre


O Poeta morre,
mas não cessa de escrever.

Enquanto escreve,
vive
ressuscitando fugidias horas
mudadas em auroras...

Uma pequenina flor,
pisada por quem passa,
é agora
um milagre de cor,
uma negaça
de mil desejos...

E os beijos
que nunca foram dados,
tornados tão reais...

Aquela borboleta
arrasta
infindas primaveras
no seu voo fremente...

- Uma palavra mais,
Poeta!
Uma palavra quente!
Uma palavra para todo o sempre!

Saúl Dias

19.11.10

Esquiva



Fugida da lembrança,
corres
nas ruas do jardim,
estouvada criança...

Azula-te o cabelo
acetinado laço,
em que o sol,
a cada passo,
acorda
reflexos iriados...

Perseguida da sombra,
desmaias
na alfombra
de imaginários prados...

Até que o dia
fenece
e arrefece,
arrefecendo os sonhos desvairados...

Saúl Dias

23.7.10

Nunca Envelhecerás


A tua cabeleira
é já grisalha ou mesmo branca?
Para mim é toda loira
e circundada de estrelas.
Sobre ela
o tempo não poisou
o inverno dos anos
que se escoam maldosos
insinuando rugas, fios brancos...

Ao teu corpo colou-se
o vestido de seda,
como segunda pele;
entre os seios pequenos
viceja perene
um raminho de cravos...

Pétalas esguias
emolduram-te os dedos...
E revoadas de aves
traçam ao teu redor
volutas de primavera.

Nunca envelhecerás na minha lembrança!...

Saúl Dias

2.6.10

Junho


Viver com os outros
Ouvir a voz dos outros
Sentir o calor dos outros
Há beleza em tudo
desde que haja vida
mesmo sumida
num disfrace de entrudo
E, em nós tanto calor
A fresca noite entrou
É Junho, amor!

Saúl Dias

30.11.09

A palavra


Só conheço, talvez, uma palavra.
Só quero dizer uma palavra.
A vida inteira para dizer uma palavra.
Felizes os que chegam a dizer uma palavra!


Saul Dias

13.10.08


Tardes no meu jardim
tão lúcidas, quietas,
quase inquietas,
com pequeninos sóis
em cada pétala molhada,
com sombras fugidias...
(Tal os dias
sumindo-se um a um...)

E as canções
que não foram cantadas?
E as rosas decepadas
pelo simum?
E os riscos na parede?
E a sede
numa taça vazia?

E a noite que começa
fria, fria...!


Saúl Dias

21.7.08

Todos os dias


Todos os dias nascem pequeninas nuvens,
róseas umas, aniladas outras,
nacaradas espumas...
Todos os dias nascem rosas,
também róseas ou cor de chá,
de veludo...
Todos os dias nascem violetas,
as eleitas dos pobres corações...
Todos os dias nascem risos, canções...
Todos os dias os pássaros acordam
nos seus ninhos de lãs...
Todos os dias nascem novos dias,
nascem novas manhãs...

Saúl Dias

13.7.08


Tão longe a estrela


Tantas horas a querer
pendurar um poema
numa estrela...

Um poema,
isto é uma fala
murmurada baixinho,
escondida num papel dobradinho.
Um recado
balbuciado a medo.
Um segredo
que o Poeta
quer e não quer revelar
como a coisa mais bela.

Tão longe a estrela!...

- Não teimes mais, Poeta!
Desiste de a alcançar!


Saúl Dias

27.6.08


Azul



Adivinhei-te
através da verdura azul,
colhendo as flores
que iam abrir na próxima primavera.

Eu era o andarilho sem cansaço,
os bolsos cheios de tesoiros desprezados:
os seixos
que as águas modelaram durante milhões de anos,
as asas
que as borboletas entregaram aos ventos,
as sementes
que entram pelas janelas dos comboios e querem
dialogar connosco…


(Um raio de sol
acariciava a tua face
através da verdura azul!...)


Saúl Dias


30.4.08


Nunca mais


Passa um dia,
e outro a correr atrás dele
e outro e outro...
O tempo a todos impele,
tal o vento
levando, em doida correria,
revoadas de folhas outonais,
folhas de calendários sempre iguais,
uma a uma arrancadas,
perdidas nas estradas...
Nunca mais... Nunca mais...


Saúl Dias

9.4.08


Poeta


- Vai!
corre o mundo
encostado
a um bordão de esperanças!

Hão-de ferir-te os pés
as pedras dos caminhos.
mas entenderás a conversa dos ninhos
e o riso das crianças.


Saúl Dias


Um Poema


Um poema
É a reza dum rosário
Imaginário.
Um esquema
Dorido.
Um teorema
Que se contradiz.
Uma súplica.
Uma esmola.
Dores,
Vividas umas, sonhadas outras...
(Inútil destrinçar.)
um poema
é a pedra duma escola
com palavras a giz
para a gente apagar ou guardar...


Saúl Dias

Escrever um livro, Criar um filho, Plantar uma árvore



Escrevi um livro.
Quantos anos a sonhá-lo,
A rascunhá-lo nas mesas dos cafés,
A escrevê-lo nos intervalos do emprego,
A vivê-lo,
A sofrê-lo,
Na província, nas cidades...!

Criei um filho.
Tanta alegria no meu coração!

Só ainda não plantei uma árvore.
O frágil caule como protegê-lo?
Como não deixar que os bichos
Maculem as pequeninas folhas?
E como dialogar com uma árvore-menina?

Agora vai sendo tempo.
Os anos já me pesam.
Amanhã vou plantar uma árvore.


Saúl Dias

18.3.08


Ecce - Poeta


Eis o poeta
frente à multidão.
frente ao tempo
irreversível e eterno.
Frente ao Céu e ao Inferno.

Na mão
apenas
uma palavra escrita:
a palavra do seu coração.


Saúl Dias


12.3.08

À Luísa...



Ali

Ali sofreste. Ali amaste.
Ali é a pedra do teu lar.
Ali é o teu, bem teu lugar.
Ali a pedra onde jogaste
o que o destino te quis dar.

Ali ficou tua pegada
impressa, firme, sobre o chão.
Ninguém a vê sob o montão
De cinza fria e poeirada?
Distingue-a, sim, teu coração.

Podem talvez o vento, a neve,
roubar a flor que tu criaste?
Ali sofreste. Ali amaste.
Ali sentiste a vida breve.
Ali sorriste. Ali choraste.


Saul Dias


9.3.08


O Poema


A tarde cai,
silenciosa,
morosa...

Na alma do poeta,
o poema,
estranha rosa
rubra e preta,
abre...

Saul Dias

8.3.08

Só porque me sorriste


Só porque me sorriste
nessa tarde
o sol inundou a cidade.

E no meio do asfalto,
entre o rumor dos táxis,
surgiram de repente
árvores agrestes cheias de flores e pássaros.

Saul Dias

22.2.08

Apuro o ouvido


Apuro o ouvido
e, ansioso, escuto,
tão impoluto
e comovido.

o som longínquo
da adolescência.
Em impaciência
idei-o e brinco-o

entre o rosal,
rosas abrindo
no bom quintal.

Menino findo!...
Já sensual,
Já pressentindo!...

Saul Dias

Poeta
- Vai!
corre o mundo
encostado
a um bordão de esperanças!

Hão-de ferir-te os pés
as pedras dos caminhos.
mas entenderás a conversa dos ninhos
e o riso das crianças.

Saul Dias