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17.10.11

A caminhada



Nessa mata ninguém mata
a pata que vive ali,
com duas patas de pata,
pata acolá, pata aqui.

Pata que gosta de matas
visita as matas vizinhas,
com as suas duas patas
seguidas de dez patinhas.

E cada patinha tem,
como a pata lá da mata,
duas patinhas também
que são patinhas de pata.


Sidónio Muralha

3.4.11

Para vós o meu canto


Para vós o meu canto, companheiros da vida!
Vós, que tendes os olhos profundos e abertos;
vós, para quem não existe batalha perdida,
nem desmedida amargura,
nem aridez nos desertos;
vós, que modificais o leito dum rio;

- nos dias difíceis sem literatura,
penso em vós: e confio;
penso em mim: e confio;

- para vós os meus versos, companheiros da vida!

Se canto os búzios, que falam dos clamores,
das pragas imensas lançadas ao mar
e da fome dos pescadores,
- penso em vós, companheiros,
que trazeis outros búzios pra cantar...

Acuso as falas e os gestos inúteis;
aponto as ruas tristes da cidade
e crivo de bocejos as meninas fúteis...

Mas penso em vós e creio em vós, irmãos,
que trazeis ruas com outra claridade
e outro calor no apertar das mãos.

E vou convosco. - Definido e preciso,
erguido ao alto como um grito de guerra,
à espera do Dia de Juízo...

Que o Dia do Juízo
não é no Céu... é na Terra!


Sidónio Muralha

7.3.11

Soneto imperfeito da caminhada perfeita



Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas,
que possam perturbar a nossa caminhada,
em que os poetas são os próprios versos dos poemas
e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.

Ninguém fala em parar ou regressar.
Ninguém teme as mordaças ou algemas.
- O braço que bater há-de cansar
e os poetas são os próprios versos dos poemas.

Versos brandos... Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas

que possam perturbar a nossa caminhada,
onde cada poema é uma bandeira desfraldada
e os poetas são os próprios versos dos poemas.


Sidónio Muralha

24.12.10

Natal



Hoje é dia de Natal.
O jornal fala dos pobres,
Em letras grandes e pretas,
Traz versos e historietas
E desenhos bonitinhos,
E traz retratos também
Dos bodos, bodos e bodos,
Em casa de gente bem.

Hoje é dia de Natal!

Mas quando será para todos?

Sidónio Muralha

12.12.10

Romance


Depois daquela noite os teus seios incharam;
as tuas ancas alargaram-se;
e os teus parentes admiraram-se
e falaram, falaram…

Porque falaram de uma coisa tal bela,
tal simples, tão natural?
Tu não parias uma estrela
nem uma noite de vendaval…

Mas tudo terminou porque falaram.
Tu fraquejaste e tudo terminou.
– Os teus seios desincharam;
só a tristeza ficou.

Ficou a tristeza de uma coisa tão bela,
tão simples, tão natural…

– Tu não parias uma estrela,
nem uma noite de vendaval...


Sidónio Muralha

4.12.10

Os camelos


No deserto,
no deserto,

cem camelos,
mil camelos.

De longe e de perto
todos dizem ao vê-los:

- Como pode ser deserto
se está cheio de camelos?

Sidónio Muralha

23.11.10

Roteiro



Parar. Parar não paro.
Esquecer. Esquecer não esqueço.
Se carácter custa caro
pago o preço.

Pago embora seja raro.
Mas homem não tem avesso
e o peso da pedra eu comparo
à força do arremesso.

Um rio, só se fôr claro.
Correr, sim, mas sem tropeço.
Mas se tropeçar não paro
- não paro nem mereço.

E que ninguém me dê amparo
nem me pergunte se padeço.
Não sou nem serei avaro
- se carácter custa caro
pago o preço.

Sidónio Muralha

11.3.10

Soneto imperfeito da caminhada perfeita

Alfama District, Lisbon, Portugal Photographic Print

Já não há mordaças,nem ameaças,nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada,
em que os poetas são os próprios versos dos poemas
e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.

Ninguém fala em parar ou regressar.
Ninguém teme as mordaças ou algemas.
- O braço que bater há-de cansar
e os poetas são os próprios versos dos poemas.

Versos brandos...Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da hora.
E não há mordaças,nem ameaças,nem algemas

que possam perturbar a nossa caminhada,
onde cada poema é uma bandeira desfraldada
e os poetas são os próprios versos dos poemas.

Sidónio Muralha

17.2.10

Greve no circo

Le Cirque I Art Print

Uma foca equilibrista
cansada de equilibrar
ficou desequilibrada
e confessou ao artista:
- amigo, estou esfomeada,
se me não dão de jantar
não equilibro mais nada!

Sidónio Muralha

16.2.10

Boa noite

African Voyage II Art Print

A zebra quis
ir passear
mas a infeliz
foi para a cama

- teve de se deitar
porque estava de pijama.

Sidónio Muralha

7.1.09

O Herói



O herói da guerra
possui 365 medalhas,
uma para cada dia do ano
(só nos anos bissextos
tem um dia de folga).

O herói da guerra
tem um desencontro
marcado com ele mesmo
(sua vocação era ser homem
e fizeram dele um herói).

O herói da guerra
precisa esquecer
(num gesto heróico
fuma heroína).


Sidónio Muralha

24.12.08

Natal



Hoje é dia de Natal.
O jornal fala dos pobres
em letras grandes e pretas,
traz versos e historietas
e desenhos bonitinhos,
e traz retratos também
dos bodos, bodos e bodos,
em casa de gente bem.

Hoje é dia de Natal.
- Mas quando será de todos?

Sidónio Muralha


5.7.08

Raízes


Velhas pedras que pisei
Saiam da vossa mudez
Venham dizer o que sei
Venham falar português
Sejam duras como a lei
E puras como a nudez.


Minha lágrima salgada
Caiu no lenço da vida
Foi lembrança naufragada
E para sempre perdida
Foi vaga despedaçada
Contra o cais da despedida.


Visitei tantos países
Conheci tanto luar
Nos olhos dos infelizes
E porque me hei-de gastar?
Vou ao fundo das raízes
E hei-de gastar-me a cantar.


Sidónio Muralha



20.2.08

Soneto imperfeito da caminhada perfeita


Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas,
que possam perturbar a nossa caminhada,
em que os poetas são os próprios versos dos poemas
e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.

Ninguém fala em parar ou regressar.
Ninguém teme as mordaças ou algemas.
- O braço que bater há-de cansar
e os poetas são os próprios versos dos poemas.

Versos brandos... Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas

que possam perturbar a nossa caminhada,
onde cada poema é uma bandeira desfraldada
e os poetas são os próprios versos dos poemas.


Sidónio Muralha

6.2.08

O Pescador morreu no mar


O pescador morreu no mar...
E a vida
passou por cima das ondas sem parar...
Foi agitar as cordas das amarras,
como se fossem cordas de guitarras
e prosseguiu...
O pescador morreu no mar.
A mãe do pescador chorou...
E a vida
Continuou, continuou, continuou...
Foi apagar a luz do candeeiro,
trocou-lhe o xaile novo por dinheiro,
e deslizou...
A mãe do pescador chorou.

O filho do pescador partiu...
E a vida
embraveceu o mar e prosseguiu...
vagamente falaram os jornais:
quatro linhas, somente, ou pouco mais...
Mais, para quê?...
O filho do pescador partiu.

Partiu, partiu, partiu e não voltou.
O pescador morreu no mar.
A mãe do pescador chorou.
E a vida
passou por sobre ondas sem parar,
continuou, continuou, continuou...


Sidónio Muralha


2.2.08

Roteiro


Parar. Parar não paro.
Esquecer. Esquecer não esqueço.
Se carácter custa caro
pago o preço.

Pago embora seja raro.
Mas homem não tem avesso
e o peso da pedra eu comparo
à força do arremesso.

Um rio, só se for claro.
Correr, sim, mas sem tropeço.
Mas se tropeçar não paro
- não paro nem mereço.

E que ninguém me dê amparo
nem me pergunte se padeço.
Não sou nem serei avaro
- se carácter custa caro
pago o preço.


Sidónio Muralha


16.1.08

Aerograma

Sê discreto na felicidade
e firme na desgraça.

Uma hora a mais
é uma hora a menos
- não esqueças.


Sidónio Muralha

Soneto da metamorfose



Mãos, simples mãos, moldaram os meus versos
e pés humanos pisam o que escrevo.
Aos outros que conquistem universos
e a mim que pague ao povo o que lhe devo.

Mesmo que os dias sejam adversos,
é um trevo a missão a que me atrevo,
dia e noite seus gestos são diversos
- detesta o escuro, de dia abre-se o trevo.

Abre-se como o pranto, como as fontes
que irrompem das montanhas e dos montes,
descem aos vales, vão até às casas...

Um soneto estremece a manhã cálida
e o povo, num silêncio de crisálida,
forja, no sofrimento, as suas asas.

Sidónio Muralha